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segunda-feira, 2 de abril de 2012

BACANAL

Corria 1964. Era março. Principiozinho do mês, um ou dois no calendário, parti de Teresina, por terra, no rumo do Rio de Janeiro. Viagem de bom recreio. Da viagem participava José Fernandes do Rego, meu primo, brilhante jornalista, e uns três amigos dele. Primeiro Fortaleza, onde se abasteceu o carro do necessário, desde a gasolina a bebedoria e comedoria. A dormida dava-se debaixo das árvores frondosas, com riacho por perto. Redes boas de descanso. Percurso longo, por estradas ainda sem asfalto. Em Campina Grande, café e uns beijuzinhos de côco ralado por cima. Cuzcuz e muita manteiga sertaneja. Depois, João Pessoa e Recife, no primeiro governo Miguel Arrais. Prosseguiu-se até Penedo, nas Alagoas, lugar de muita gente doente, boa feira de artesanatos, restaurantes de panelada e mocotó de vaca. Travessia do São Francisco, em pontão. Aracaju em seguida, bonitinha, dengosa, noitada alegre na praça grandona. Perto o palácio do governador da época, depois deposto, Seixas Dória. Agora Salvador, de ruas velhas, ladeirentas, comida apimentada que dava para soprar os peitos. Daí para frente, pela asfaltada Rio-Bahia, chegou-se à segunda capital brasileira, a cidade dita maravilhosa, que eu já conhecia como a palma da minha mão.

Hospedei-me com o primo José Rego, no seu apartamento da rua das Laranjeiras, visitado por gente famosa do tipo de Oscar Niemeyer, Raul Riff, por alguns comunistas de prestígio e figuras outras do governo comunistas de prestígio e figuras outras do governo João Goulart. Estive no comício do dia 13 de março, misturado com o poviléu entusiasmado e faminto. O presidente, ao lado da esposa, incentivava os aplausos com promessas de melhorar a vida do pobre. Pelas onze da noite, cansado, retornei à minha hospedagem.

Dia seguinte, José Rego me fazia convite para uma festa de aniversário no apartamento de amiguinha sua, no bairro do Flamengo. Cada convidado devia comparecer com o presente de comida ou bebida. A festa teria inicio às 11 da manhã.

De mim, não conhecia praticamente pessoa alguma. Muitos rapazes e moças, sentados, em palestrações alegres e por vezes gargalhantes. Consumia-se boa quantidade de álcool. Pastel em quantidade. Pelas duas da tarde, vi chegar uma garota do Piauí, filha adotiva de falecido magistrado, minha antiga aluna no velho Liceu.

Iniciaram-se as danças pelas 15 horas. Os pares, homens e mulheres, bêbedos, dançavam como se estivessem numa cama de casal. Houve um grito de comando, alto, para que todos tirassem a parte de cima das vestes. Todos nus da cintura para cima. Seios saltavam. Orgia sexual em que garotas e coroas se entregavam despudoradamente. Cenas de invulgar erotismo. Pouco depois, todos pelados machos e fêmeas.

Num canto, em mesa discreta, fiquei ao lado de José Rêgo, dois rapazes e duas moças, conversando e espiando o gratuito espetáculo. Chamei minha ex-aluna, inteligente, baixinha, mas bonita. Veio até mim, puxou cadeira, sentou-se, começou a chorar. Gostava de cocaína. Julgava-se desgraçada, infeliz, prostituta, ordinária. Dei-lhe alguns conselhos que ela recusou, considerando-se perdida.

Era o começo das bacanais de luxúria, bacanais de depravamento, como as de Roma na antiguidade, promovidas pelos Neros e Calígulas, tipos integralmente degenerados.

Quatro anos mais tarde, em 1968, em Paris, a juventude decretava a rebelião total contra os restos de beleza de uma sociedade hipócrita mas que pelo menos viveu inesquecíveis momentos de alegria.

A. Tito Filho, 29-30/03/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 30 de março de 2012

RESTAURANTES

Não encontrei notícia do primeiro restaurante de Teresina. Anotei reclame de jornal que oferecia os préstimos do Hotel Teresinense, em 1875, ao público: bifes e carne assada, no almoço: sopa, carne cozida e assada no jantar. Pratos abarrotados. Comia-se até fartar. Li, em jornal do anos seguinte, sobre o estabelecimento de José Pico, com o nome de CASA DO PASTO - e ele era vaidoso da sua tenda de comedoria: anunciava comidas italianas, francesas, portuguesas e inglesas. Aos domingos, PANELADAS DE MOCOTÓS.

Quando vim de Barras, terra boa do Piauí, lugar do meu nascimento, para Teresina, acompanhando o pai e a madrasta, filho único que eu era, - a família alugou casa na rua da Glória (Lisandro Nogueira), mas depressa se arrumaram os trens e deu-se a muda para a rua São José (Félix Pacheco). Nos dias dominicais, o saudoso genitor me mandava ao Bar Carvalho, o mais freqüentado da cidade - café, sorvete, chocolate, refrescos, no amplo salão de frente para a Praça Rio Branco; por trás outra sala espaçosa, em que se alinhavam as mesas para o almoço e o jantar. Que comida! Zecão, o popularíssimo proprietário, contratou cozinheiro espanhol, o Gumercindo, cheio de banhas, o criador de um prato que dava água na boca, pois o cheiro bom da iguaria obrigava as papilas gustativas a extraordinário funcionamento - o filé de grelha, feito na chapa do fogão, e o mestre cuca o enfeitava com duas azeitonas, um pouco de alface, farofa e umas vinte ervilhas.

Lá ia eu, a carregar marmitas, buscar a bóia do domingo, no Bar Carvalho. Meu pai dava folga à competente e carnuda cabocla cozinheira no dia do Senhor. Na mercearia defronte da residência, do português José Gonçalves Gomes, completava-se o almoço com a gostosa sardinha de Portugal.

Conheci o restaurante do DOUTOR, especialista em mão-de-vaca e panelada. De segunda classe. refeição apetitosa, que o freguês carregava de pimenta malagueta de soprar o vento. Alguns cachorros vadios aguardavam, olhos pedintes, o osso que os mal-educados atiravam ao chão, depois de limpá-los, como roedores.

Na década de 40, Pedro Quirino fundou o RESTAURANTE ACADÊMICO, com freguesia de operários e doutores. Comida boa, barata, limpa, elogiada.

Nesses bons tempos comer representava um gesto de sabedoria. Comer desofisticadamente. Comer sem tinturas, comer sem estrangeirice, comer sem bebida de refrigerantes engarrafados, nisto vale sabedoria. Sabedoria de vida.

Teresina ingressou na ERA dos acepipes sem graça e sem gosto. Paga-se o luxo, a gorjeta gorda, a notícia no jornal. Refeições melosas, coloridas, de preço sem peias. Naqueles velhos tempos, o garçom punha o prato de arroz e o escolhido no cardápio defronte do cliente e este ficava a vontade, usando os pirões da forma que lhe aprouvesse. De algum tempo a esta data, o empregado comanda o modo de servir - e de colheres, treinado, vai botando em escolhidos espaços do prato uma porçãozinha de cada cousa que compõe o raquítico almoço ou jantar de gente de dinheiro fácil. Existem pratos do universo internacional, mais caros e mais intragáveis.

Restaurantes dos velhos tempos da Teresina de dinheiro pouco, dinheiro de pé-de-meia, - da Teresina do Manuel Português, que vendia empada, e uma só punha o sujeito de barriga cheia, sem necessidade de almoço ou jantar. Empada sadia, que dispensava o óleo de rícino para limpar as tripas.

O que passou, passou - verdade estabelecida por Gervantes no tempo em que os homens escreviam para a eternidade.


A. Tito Filho, 26-27/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de março de 2012

BACANAL

Corria 1964. Era março. Principiozinho do mês, um ou dois no calendário, parti de Teresina, por terra, no rumo do Rio de Janeiro. Viagem de bom recreio. Da viagem participava José Fernandes do Rego, meu primo, brilhante jornalista, e uns três amigos dele. Primeiro Fortaleza, onde se abasteceu o carro do necessário, desde a gasolina a bebedoria e comedoria. A dormida dava-se debaixo das árvores frondosas, com riacho por perto. Redes boas de descanso. Percurso longo, por estradas ainda sem asfalto. Em Campina Grande, café e uns beijuzinhos de côco ralado por cima. Cuzcuz e muita manteiga sertaneja. Depois, João Pessoa e Recife, no primeiro governo Miguel Arrais. Prosseguiu-se até Penedo, nas Alagoas, lugar de muita gente doente, boa feira de artesanatos, restaurantes de panelada e mocotó de vaca. Travessia do São Francisco, em pontão. Aracaju em seguida, bonitinha, dengosa, noitada alegre na praça grandona. Perto o palácio do governador da época, depois deposto, Seixas Dória. Agora Salvador, de ruas velhas, ladeirentas, comida apimentada que dava para soprar os peitos. Daí para frente, pela asfaltada Rio-Bahia, chegou-se à segunda capital brasileira, a cidade dita maravilhosa, que eu já conhecia como a palma da minha mão.

Hospedei-me com o primo José Rego, no seu apartamento da rua das Laranjeiras, visitado por gente famosa do tipo de Oscar Niemeyer, Raul Riff, por alguns comunistas de prestígio e figuras outras do governo comunistas de prestígio e figuras outras do governo João Goulart. Estive no comício do dia 13 de março, misturado com o poviléu entusiasmado e faminto. O presidente, ao lado da esposa, incentivava os aplausos com promessas de melhorar a vida do pobre. Pelas onze da noite, cansado, retornei à minha hospedagem.

Dia seguinte, José Rego me fazia convite para uma festa de aniversário no apartamento de amiguinha sua, no bairro do Flamengo. Cada convidado devia comparecer com o presente de comida ou bebida. A festa teria inicio às 11 da manhã.

De mim, não conhecia praticamente pessoa alguma. Muitos rapazes e moças, sentados, em palestrações alegres e por vezes gargalhantes. Consumia-se boa quantidade de álcool. Pastel em quantidade. Pelas duas da tarde, vi chegar uma garota do Piauí, filha adotiva de falecido magistrado, minha antiga aluna no velho Liceu.

Iniciaram-se as danças pelas 15 horas. Os pares, homens e mulheres, bêbedos, dançavam como se estivessem numa cama de casal. Houve um grito de comando, alto, para que todos tirassem a parte de cima das vestes. Todos nus da cintura para cima. Seios saltavam. Orgia sexual em que garotas e coroas se entregavam despudoradamente. Cenas de invulgar erotismo. Pouco depois, todos pelados machos e fêmeas.

Num canto, em mesa discreta, fiquei ao lado de José Rêgo, dois rapazes e duas moças, conversando e espiando o gratuito espetáculo. Chamei minha ex-aluna, inteligente, baixinha, mas bonita. Veio até mim, puxou cadeira, sentou-se, começou a chorar. Gostava de cocaína. Julgava-se desgraçada, infeliz, prostituta, ordinária. Dei-lhe alguns conselhos que ela recusou, considerando-se perdida.

Era o começo das bacanais de luxúria, bacanais de depravamento, como as de Roma na antiguidade, promovidas pelos Neros e Calígulas, tipos integralmente degenerados.

Quatro anos mais tarde, em 1968, em Paris, a juventude decretava a rebelião total contra os restos de beleza de uma sociedade hipócrita mas que pelo menos viveu inesquecíveis momentos de alegria.


A. Tito Filho, 29-30/03/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de março de 2012

O VAPOR

Naquele tempo, depois dos folguedos de primeiro de janeiro, o pessoal que vinha a Teresina costumava recitar nos momentos de despedida:

Eu vô me embarcá
Qui o vapô já apitô
Inté para o ano
Se nós vivo fô.

Era a saudade no coração dos visitantes, que retornavam pelo rio aos seus pagos queridos.

*   *   *

No governo do presidente Oliveira Junqueira constitui-se a Companhia de Navegação do rio Parnaíba, em 1858. Antes da promissora circunstância, já os poderes públicos haviam encomendado, no Rio de Janeiro, aos estaleiros navais de Ponta d'areia, o primeiro vapor para o rio Parnaíba, lançado ao mar a 12 de agosto daquele ano. Sofreu reparos no percurso. Em abril de 1859 chegou ao Recife.

*   *   *

O bom do padre Joaquim Chaves conta a história: "Foi assim que no dia 19 de abril, às três horas da tarde, soltando silvos profundos e prolongados, contando vagarosamente as águas do rio e deixando para trás uma esteira branca de espumas, o Uruçuí aproximou-se de Teresina e, majestoso, ancorou em frente à praça da Constituição" - que, esclarecemos, hoje tem o nome de Marechal Deodoro.

Padre Chaves passa a narrar o entusiasmo da cidade: "Os sinos do Amparo batiam a rebate, foguetes estouravam por todos os lados e uma imensa mole humana corria pressurosa para o rio, descendo por todas as ruas. Até os aleijados e doentes, carregados em redes por negros escravos, demandavam o rio, apressados, para verem de perto aquilo que mais lhes parecia um sonho. De fato, para muitos dos espectadores aquele gigante de ferro, daquele tamanho, boiando n'água, constituía um enigma insolúvel. Era preciso ver para crer".

Imensa a alegria generalizada. O vapor mudaria muita cousa nos costumes do Piauí e de Teresina.

Comandou o Uruçuí o 1º tenente da Marinha - Álvaro de Carvalho, que teve homenagem de jantar oferecido pelo presidente do Piauí, Antônio Correia do Couto. Houve ainda festa dançante.

As autoridades e convidados realizaram passeio em frente de Teresina, subindo e descendo o rio.

A 24 de janeiro iniciou a primeira viagem no rumo de Parnaíba. Fez viagens freqüentes durante nove anos. Naufragou em 1867, no lugar Coroa da Aurora, abaixo da povoação de Nazaré. Partiu-se em três pedaços.

*   *   *

Viajei nesses navios de vapor, tão agradáveis, duas vezes, pelo rio São Francisco. E a 18 de janeiro de 1947, comprei passagem num gaiola, em Floriano, chegando a Teresina no dia seguinte, manhãzinha, no momento em que o povo começava a votar para a escolha do governador do Piauí. Beleza de viagem.

Os tempos passavam e os gaiolas foram desaparecendo do riozão famoso e da paisagem de Teresina - até que se sumiram, deixando um rol de saudades.


A. Tito Filho, 15/03/1992, Jornal O Dia


segunda-feira, 26 de março de 2012

OS PRIMEIROS TEMPOS

Poucos anos depois de fundada, Teresina teve o seu primeiro teatro, o Santa Teresa, época em que começaram a aparecer os primeiros clubes recreativos, mais freqüentes com a inauguração do Teatro 4 de Setembro, em 1894. No ano anterior, destinado à encenação de peças teatrais na nova casa de espetáculo, houve o grêmio dramático de Raimundo Artur Vasconcelos, Fócion Caldas e outros. No inicio do século XX funcionava "Filhos das Arte", de Jônatas Batista, Mário Batista e mais alguns. Pedro Silva e Jônatas Batista criaram o Clube Recreio Teresinense, que se dividiu, surgindo a entidade "Os Amigos do Palco", orientada por Pedro Silva, Luís Correia, Fenelon Castelo Branco e Higino Cunha. Intelectuais, senhoras e senhoritas deram inicio à Hora Artística Familiar, nos anos 20, representada nas manhãs de domingo, no Teatro 4 de Setembro, com exibição de recreativos, danças, cantos, instrumentos musicais. Tornou-se o encantamento de numeroso público.

Após 1930, várias agremiações literárias e de estudos sociais tiveram surgimento para ativar a vida intelectual de Teresina, a exemplo do Teatro Experimental Escolar, o Clube Telúrico, o Teatro Acadêmico da Faculdade de Direito e Meridiano.

De prestigiada atuação antes dos anos 30, houve a Arcádia dos Novos e o Cenáculo Piauiense de Letras.

O Instituto Histórico e Geográfico Piauiense é de 1918, de brilhante atividade até a presidência de Josias Carneiro da Silva, nos primeiros tempos da década de 70, encontrando-se desativado nos dias correntes.

X   X   X

Em 1931, jovens da sociedade teresinense criaram uma curiosa sociedade a quem deram o nome de A CATERVA. Foram eles Jacob de Sousa Martins, Clemente Honório Parentes Fortes, Anízio de Abreu Cavalcanti, Ismar Bento Gonçalves, Raimundo de Moura Rego, Gonçalo Lopes Lima, José do Patrocínio da Silveira Caldas, Afonso Barbosa Ferreira, Firmino Ferreira Paz e Wagner de Abreu Cavalcanti. Tratava-se de "uma congregação unida por afinidade intelectual" e os criadores desejavam sobrepor-se ao marasmo da inteligência do meio. Reinava a pobreza material que não permitia iniciativas sérias.

O seminário dominical "O Lábaro" constituía a imprensa da mocidade. Nas suas páginas revelaram-se talentos. Tinha feitio literário, mas cessou de existir por razões financeiras.

Surgiu, a 3 de maio de 1931, "A VOZ DO NORTE", com rápida conquista de leitores cultos. Tinha aspecto sadio e nas suas páginas Moura Rego e Wagner Cavalcanti publicavam elogiadas concepções de prosa e poesia.

Nesse tempo vivia Antônio Lemos, o SEMANA, respeitável figura do jornalismo piauiense, que editava o órgão político a LIBERDADE, em cuja sede ele suportava pacientemente as declamações de Wagner, as piadas de Clemente Fortes, as sátiras de Afonso Ferreira.

Os rapazes conjugavam-se, espiritualmente, e formaram um bloco especial, A CATERVA, nome escolhido por Anízio Cavalcanti e aprovado pelos colegas.

Havia em Teresina um lugar de afluência de estudantes, o Arquivo e a Biblioteca Pública do Estado, e aí se liam livros de literatura e de outros gêneros. Nesse ambiente surgiu a idéia da fundação de um jornal literário, que foi A VOZ DO NORTE, e de uma entidade de sócios restritos, integrada dos setores do órgão, denominada A CATERVA, em que preponderava a afinidade moral e intelectual dos seus membros.

Um interessante e curioso grêmio cultural, que não tinha prazo de reunião. Os jovens que o constituíram puderam sacudir a sonolência intelectual dos teresinenses nesses inesquecíveis anos da década de 30.

X   X   X

Um só desses grêmios continua em funcionamento. Tiveram vida efêmera.


A. Tito Filho, 14/04/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 13 de março de 2012

ESTÁDIOS

Faz mais de vinte anos escrevi umas palavrinhas introdutórias ao livro "O Piauí no futebol", desse querido Carlos Said, papa da crônica futebolística nesta terra por onde talvez tenha andado o paulista Domingos Jorge Velho. Naquele escrito eu disse que do jogo conhecia o nome inglês e os embates no pequeno campo chamado "Lindolfo Monteiro". Ignorava normas e métodos orientadores de posições e jogadas desse esporte das multidões apaixonadas. Mas nunca o desamei, nem alheava às emoções dos campeonatos mundiais, como aquele de 1938, transmitido pelas amplificadoras comerciais de nossa praça Rio Branco.

Sempre percebi o entusiasmo do futebol na alma popular, o delírio coletivo nos embates vibrantes, contagiando torcidas enlouquecidas e urradoras. Nada havia mais ruidoso e trepidante do que um futebol brasileiro, jogado no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Teresina, nas cidadezinhas mortas do interior ou nas ruas de propriedade da meninada travessa.

Futebol supunha foguetório, briga, murros, pauladas, tiros e morte. Érico Veríssimo chegou a escrever que o nosso futebol valia fúria, uma revolução, uma explosão, uma válvula de escape para a violência reprimida, assim como uma atitude bovárica irreversível, um protesto de angústia, uma fuga da realidade, uma forma de evasão: "Quem observa de longe... a multidão a gritar, a dançar, no meio da explosão dos foguetes, tem uma impressão de alegria. Mas não nos devemos iludir. Se a floresta é alegre as árvores são tristes".

Ora se me lembro e quanto. Ditadura no auge das benemerências e dos triunfos bestas. Construíra-se a ponte Rio-Niterói, um dos assombros universais, unindo duas cidades terríveis de problemas populares. Médici, ditador-mor, criou o milagre: tricampeões do mundo os tupiniquins. Arrotava-se orgulho. Por toda parte, o slogan cretino: "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Houve a febre dos estádios. Estádios em toda e qualquer biboca chamada Pau Fincado ou Pindura Saia. Até em Demerval Lobão, suburbiozinho de Teresina, edificaram um campo gramado para os futuros craques internacionais.

Pelo começo da década de 1970 a doença nacional era o estádio, os gigantes maravilhosos. Andei de passo errado, pregando no deserto. Teresina não podia dar-se o luxo de rapariga bonitona em farra com português cheio de ervas. Mas fez-se o estádio. Sessenta mil pessoas. E aí está, ainda hoje, 1988, sem platéias ululantes ou mudas, o famoso elefante-branco, às moscas, vazio, substituído quase toda semana pelo inesquecível campozinho do Lindolfo Monteiro.

Eu tinha razão.


A. Tito Filho, 12/02/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de março de 2012

OESTE

Andei lendo recentemente que morreu Louis L'Amour, um dos mais férteis escritores sobre o oeste norte-americano. Um dos seus livros foi publicado faz pouco tempo em português, com o título A TRILHA DOS FORA-DA-LEI, que no original inglês se chama RIDE THE DARK TRAIL. Gostei de mais um livro de aventuras de caubóis da época dos conquistadores e dos choques com os índios, cruéis e hostis na defesa do seu patrimônio. Era o reino do gado e do ouro da Califórnia, um mundo novo, selvagem com os fracos, dos homens de ferro, cuja vida dependia da faca e do revólver. Violência é a história da estrada de ferro e a do telégrafo. Um mundo de liberdade para libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substitutos da mulher.

Quem não se recorda do SALOON? Lei da pistola sobre o balcão de bebida e sobre a mesa das cartas de baralho, do xerife selvagem e do pistoleiro heróico. Quanta recordação tenho de Búfalo Bill, Calamity Jane, Bill Doolin, Wyatt Earp, Pat Garret, Jesse James, Doc Holiday, Bat Masterson, nomes que o livro, o cinema e os quadrinhos se encarregam de universalizar e que ganharam popularidade.

Nunca esqueci os nomes célebres dos atores cinematográficos que participaram de filmes inesquecíveis a respeito do oeste. A história dos rios de gado, do ladrão de reses, do perigo, a história de um excesso de vitalidade. Álcool e pistola, pôquer e roleta, matanças, a lei do COLT, num ambiente de apetites sexuais de seres viris sem que houvesse mulheres. Daí o mito da mulher como demonstrou André Bazin. Ainda a meretriz desses tempos era redimida, como a gente vê nos filmes, pelo amor ou pela morte.

Sempre me atraiu a literatura do oeste dos Estados Unidos. Fenimore Cooper, Zane Grey e outros povoaram a minha imaginação de aventuras, de desafios, de heróis e heroínas contraditórios. Dos atuais autores Dee Brown está na minha admiração, com obra segura, iniciada com um romance baseado na vida do desbravador David Crockett. Esse escritor fez relatos históricos que deram nova feição aos estudos sobre a conquista do oeste, como ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO.

Nunca pude esquecer Gary Cooper, Buck Jones, Tim McCoy, John Wayne, que interpretaram os melhores filmes de faroeste, e ainda hoje eles me reaparecem na televisão, em histórias saudosas, como NO TEMPO DAS DILIGENCIAS e do maravilhoso JORNADAS HERÓICAS. Que dizer dos seriados da adolescência dourada, quando a gente via semanalmente um pedaço do filme, aguardando-se de modo ansioso o domingo seguinte?

Não durmo, nas minhas noites teresinenses, sem a leitura de um bom livrinho de caubói. O saloon, o forasteiro, o uísque ordinário, os revólveres de cada lado do tipo, o pôquer, a corista, o sujeito do piano desafinado, os bandidões barbudos, cuspindo o pretume do tabaco, a mocinha da cidade, toda pureza, a pradaria, o deserto e as serpentes, o lacrau, a forca. De tudo resta o assalto a banco, um assalto mais civilizado.

Não sei se morreu mesmo Louis L'Amour, que de vez em quando me concedeu bonitas páginas de aventuras do velho oeste para que eu matasse as saudades de filmes da meninice risonha.


A. Tito Filho, 10/04/1992, Jornal O Dia

sábado, 10 de março de 2012

NAMORADOS

No meu tempo não havia estas datas comemorativas, os dias disto e daquilo: dia das mães, do papai, do vovô, da vovó, da criança. Cada ramo profissional tem o seu: dia da aeromoça, dia do comerciante, dia do comerciário, da meretriz, do funcionário público, do motorista. A indústria e o comércio deveriam criar outros, como o dia do netinho, da titia, do coveiro. Que tal uma data que lembre as COROAS, mulheres que deram o tiro na macaca e que são as mais apetitosas rabos-de-saia da paróquia? Por extensão, também se assinalava a data homenageadora das BONECAS, outra das DONDOCAS. O dia-guei e o dia-sapatão. Nestes dois últimos as vendas seriam espetaculares.

Já se festeja o dia dos namorados, o que não acontecia alguns anos atrás. Também já não se namora como antigamente, o casalzinho de mãos dadas apenas para que o público visse tanta inocência nas praças animadas das retretas musicais, ou no uso de certas bolinações na penumbra dos cinemas.

Nos tempos atuais as farmácias estiveram repletas de moços e moças na compra do melhor presente para os receios de cada qual: as camisinhas. Módicas de preço e de resultados mais ou menos seguros nos motéis que já estão cobrando por minuto de ocupação das camas redondas e filmes de ensinança pornográfica.

Minha primeira namorada foi uma matutinha muito alva, filha de latifundiário do antigo Marruás, hoje Porto. A menina com os pais comparecia nos festejos de Nossa Senhora dos Remédios. A gente dançava mal nos bailes de primeira que iam das dez da noite às duas da madrugada. Amor platônico, que a gente não sabia ainda das senvergonhices da vida.

Já taludo, consegui em Teresina namorar um morenão cheio de carnes, cabelos negros, bonita como quê, e ao lado dela, assistindo a filme de amor, aprendi a arte sublime da bolinação, como se dizia o pegamento nas saliências do colo bem feito. A garota também sabia adotar as suas liberdades provocativas.

E segui o meu destino de namorador constante, e vivi momentos inesquecíveis e deliciosos. Foram tantos. Mas a gente ficava nessas primícias encantadoras dos primeiros contactos. Avançava-se um pouco, e mais não se fazia nem se tentava, salvo se quisesse descontar o vale e sujeitar-se ao casório infalível.

Hoje se namora de modo diferente. Extinguiram-se as virgens, feitas as exceções ilustres e de praxe. Os namorados buscam as tardes e as noites nos motéis, ou nos relvados das praças esquecidas, ainda nas areias das coroas dos rios, no tempo de estio, também debaixo dos pés de pau. E nos automóveis todo tempo, em posições dramáticas.


A. Tito Filho, 20/03/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 9 de março de 2012

NATAL

Em Teresina, como em quase todas as cidades brasileiras, o Natal constituía a mais linda festa do ano, significativa por excelência, sobretudo na comunhão espiritual da comunidade. Alegria nos corações. A graça e a beleza artística dos presépios nos templos religiosos - e o Menino Jesus vestidinho em camisa muito alva de seda ou de cambraia. À meia-noite, a missa do galo, igreja repleta de gente de variada categoria social. Os sinos repicavam mensagens de amor para que todos se fizessem mais irmãos. Depois do oficio divino, no lar de rico aconchego afetivo, a família se entrega, unida em carinho, à ceia natalina, composta do peru morto na véspera e assado nos velhos fornos de barro, com o brasileiro bem vivo e ardente. A farofa da ave era uma gostosura. Comiam-se outras iguarias saborosas, preparadas por cozinheiros de doutos conhecimentos nesses assuntos culinários. Não se desprezavam o bom vinho, nem a doçaria de dar água na boca.

Os tempos correram na sua marcha inexorável. A produção industrial aumentou de modo incontrolável. Houve necessidade de vender e vender sempre mais. Inventou-se o rádio. Criou-se a televisão. A propaganda intensa dentro dos lares transformou o Natal num período de angústia generalizada, aperreante, aflitivo, de ânsias para os assalariados na consecução do dinheiro destinado à compra do presente. Esqueceram-se as lições de humildade do Menino da manjedoura de Belém. Cristo passou a objeto das ambições da indústria e do comércio. Avilta-se a beleza do episódio do nascimento. O silêncio da gruta se desrespeita com a barulheira infernal dos anunciantes e dos camelôs de enjoativa palração.

Renato Castelo Branco, criador de momentos inesquecíveis de arte verdadeira, concebeu e escreveu esta jóia inimitável - uma lição de sabedoria e de verdade, intitulada A BOA NOVA:

Quando a Estrela de Belém
anunciou a Boa Nova
os Reis Magos vieram do Oriente
carregados de ouro
incenso e mirra
prostar-se ante o Menino Jesus.

Mas depois deles vieram
Herodes e Caifás
Judas e Pilatos
- a crueldade e a intolerância,
a traição e o calvário.

A verdade está em que os homens criaram uma sociedade injusta e perversa, dividida em esbanjadores e famintos. Repudiam-se as lições do Menino-Deus. Há os que afrontam os maltrapilhos, os que matam para o sustento de ambições malditas, os que extinguem vidas para que os lucros se tornem partes em nome de irresponsabilidade. Neste mês de dezembro, houve no Recife um casamento em que se dissiparam milhões de cruzados em futilidades, em enfeitações, em trajes com rabo de dez metros de comprimento, em comes e bebes sobejantes, enquanto na capital pernambucana meninos esquálidos e famintos se alimentam de restos de comida das latas de lixo. Horas antes do ministério da gruta de Belém, a covardia, de tocaia, matou um líder que defendia os injustiçados e lutava pela preservação da natureza dadivosa. O dia 24 de dezembro representou a fartura na mesa dos ricos sem coração e a miséria do menino pobre, que nunca viu um brinquedo de Papai Noel. E muitos, coitados, pagaram com a vida o passeio de barco, de altas quantias, para as delícias de um trinta e um de dezembro no Rio, cidade de dramas de miséria e do crime dos miseráveis. Pobres vítimas da ganância e da irresponsabilidade.

O canto maravilhoso de Júlio Romão da Silva é emocionante, quando põe, numa peça teatral, as verdades na boca do Mestre:

Existiam dores no mundo, sonhei um mundo sem dores, havia feridas no mundo, sonhei um mundo sem chagas, havia um mundo faminto, sonhei um mundo sem fome, havia lágrimas no mundo, sonhei um mundo sem lágrimas, havia um mundo recluso, sonhei um mundo sem grades, havia um mundo servil, sonhei um mundo liberto, havia um mundo odiento, sonhei um mundo sem ódios, havia um mundo com muro, sonhei o mundo sem muro, havia um mundo sem paz, sonhei a paz para o mundo - E MATARAM-ME. Ó sátrapas, ó víboras, ó abutres, ó vampiros, ó répteis, ó sacripantas, ó chacais! Quando deixareis o charco e a carniça? Quando ouvireis a melodia do meu canto e vereis a beleza do meu sonho? Quando parareis de me matar para entenderdes a mensagem do meu Salmo?


A. Tito Filho, 08/01/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de março de 2012

ANTANHO

Fazem-se preparativos para uns dias de gala em homenagem ao centenário do querido Teatro 4 de Setembro. Registrou a crônica que no dia 4 de Setembro de 1889, quase no fim dos tempos imperiais, senhoras ilustres, de chiques vestidos da moda na barra da saia, perto do osso gostoso, foram ao presidente da Província do Piauí, Teófilo dos Santos. Queriam um teatro na capital. O primeiro magistrado deferiu o pedido e admitiu que os bagarotes para a construção estavam nas arcas do tesouro público. Podiam as matronas providenciar a planta. A 21 de setembro houve a pedra fundamental e a respectiva discursaria. Obra concluída em 1894 e inaugurada a 21 de abril.

Nos idos de 1938 e 1939, trabalharam no 4 de Setembro notáveis companhias teatrais, como as de Jaime Costa, Barreto Júnior, Álvaro Pires, Procópio ferreira e outras, sem que se consiga esquecer Marquise Branca, a adorável Marquise, carnes de exemplar brancura, no comando de garotas livres, vestidas de calcinhas até o meio das coxas, mas de pedaços da barriga de fora. As partes pudibundas mais sérias ainda ficavam escondidas, só apareciam os montes apetitosos por trás e pela frente. Esses espetáculos eram condenados pela beatice dos dois sexos e pelo puritanismo de casadas receosas e maridos safados. Só os freqüentavam machacás solteiros, atraídos pelas meninas escandalosas. Os chamados homens direitos se viam privados, caladões nas cheirosas redes caseiras, sonhando de olhos abertos com os repastos lascivos ofertados por Marquise Branco. Uma delas, minha querida Zezé Gonçalves, punha a platéia louca, babujando despudor, na hora de cantar, cigarro no canto direito da boca pintada, cabelo pega-rapaz, vestida à moda de rapariga, aquele tango argentino rico de volúpia. Ela, olhos mortos, num gesto de doação, voz lânguida, virava a cabeça da gente: FUMANDO ESPERO AQUILO QUE MAIS QUERO...


A. Tito Filho, 12/04/1992, Jornal O Dia

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigos aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.


Clóvis morreu em 1944, manhãzinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.


A. Tito Filho, 10/01/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 5 de março de 2012

GAIOLAS

Este jornal está circulando neste dia 27 de maio de 1988 e até ontem não havia sobrado tempo para uma visita minha à nova coqueluche teresinense, o vapor construído em Parnaíba, batizado Comandante Fausto Silva, agora na capital piauiense, na distância de cento e vinte e nove anos do primeiro GAIOLA, o vapor URUÇUÍ, que se fabricou no Rio de Janeiro.

Esses vaporzinhos antigos eram de excelente viajar. Num deles, em 1942, embarquei em Juazeiro da Bahia, para subir o São Francisco até Pirapora, em minas, e daí alcançar o Rio de Janeiro, por terra. Viagem gostosa. Rapazola, deliciei-me com muita cabloca de beira d'água, nas cidadezinhas da época. Estive na gruta de Bom Jesus da Lapa, espaçosa e clara, na terra baiana. Muita pobreza. Mendigos às pencas, feridentos, doentes, maltrapilhos.

Gostei da cidade de Barra do Rio Grande, margem esquerda da grande corrente fluvial, onde foi aldeia de índios e fez parte do célebre Sertão de Rodelas - que pertenceu à Bahia, passou a Pernambuco, a Minas e voltou ao domínio baiano.

Estive doze dias subindo o rio. Manhãs e tarde monótonas. Noites agradabilíssimas. Dormida ao ar livre, na rede do cheiro da gente. Refeições de bom peixe. O comandante apreciava a boa pinga.

Fiz outra viagem nos GAIOLAS, saindo do Rio de Janeiro em 26-12-1946. Percorremos o São Francisco de Pirapora e a Remanso e entramos no Piauí de caminhão, por São Raimundo Nonato. Alegres companheiros no percurso: Tibério Nunes, Fenelon Silva, Mariano Mendes, Álvaro Ferreira Filho. Atingimos Floriano no dia 18 de janeiro de 1947. Nessa antiga Colônia de são Pedro de Alcântara tomamos passagem noutro GAIOLA, rumo de Teresina. Embarque pelas 11 da manhã e chegada ao ponto final às 7 da manhã de 19, um domingo, quando o eleitorado já buscava os locais competentes para eleger o primeiro governador do Piauí depois das trevas da ditadura de Getúlio Vargas, o médico José da Rocha Furtado, artista do bisturi.

Os naviozinhos que o povo chamava VAPOR desapareceram da paisagem do Rio Parnaíba, faz uns trintas anos. Os do rio São Francisco estão transformados em PALÁCIOS de turismo, com orquestras, AMERICAN BAR, mulheres de aluguel, para milionários em férias, PLEIBÓIS de pais latifundiários, artistas de roquenrol e outras maluquices. Contam que nestes passeios, subindo e descendo o rio, gasta-se muito dinheiro mas goza-se um bocado a vida.

Jorge Amado, num dos seus melhores livros, narra viagem nesses barcos ao tempo do transporte a serviço das populações ribeirinhas. Comovente drama de dezenas de pobres e humildes na segunda classe, amontoados, em severa promiscuidade, e as delícias da primeira classe, no segundo andar do vaporzinho. Uma reportagem forte, vida real, da forma que contou o romancista baiano.

Ainda não sei se o Piauí voltará ao transporte pelo seu Rio Parnaíba, quase sem condições de navegabilidade. Será possível?


A. Tito Filho, 06/02/1992, Jornal O Dia

O VELHO CLUBE

Senhores da mais alta evidência, pelo dinheiro e pelo prestígio político e intelectual, fundaram a sociedade recreativa Clube dos Diários, no ano do centenário da Independência do Brasil, 1922. Coube a primeira presidência ao comerciante e proprietário Antônio Ferraz. Deu-se o baile inaugural a 31 de dezembro do mesmo ano, na casa residencial do negociante Antônio Campos, batizada de CAMPINA MODESTA. Disseram-me depois que a festa esteve maravilhosa. Presença da fina flor da alta roda, mulheres vestidas de muito luxo e beleza. Anotaram-se na crônica da época nomes prestigiosos de homens e suas famílias, como Matias Olimpio, Miguel Rosa, Valdivino Tito, Jarbas Martins, Mário Baptista, Evandro Rocha, Sotero da Silveira, Simplício Mendes, Antonino Freire, Heli Castelo Branco, Antônio Costa Araújo Filho, Heitor Castelo Branco, Álvaro Freire, Agripino Oliveira, Antônio Chaves, Dídimo Castelo Branco, Joel Oliveira, com destaque especial para o solteirão governador João Luís Ferreira e outros.

Em 1927, houve a festiva inauguração da sede própria, no terreno doado pelo governador Matias Olimpio, a mesma que atravessou os anos até hoje, e que, de vez em quando, sofria alterações para atendimento dos novos sócios que se filiavam ano por ano. A atual sede está aumentada mais ou menos da metade do que foi antigamente.

Tornou-se essa sociedade recreativa o centro social da intensa atividade. Era a instituição querida dos teresinenses. Deslumbrantes as suas festas dançantes. Muitos namoros, noivados e casamentos tiveram inicio nos seus salões. Homenagens a políticos, banquetes, recepções ainda hoje estão na lembrança da cidade. Carnavais formidáveis vivem na recordação permanente de velhos foliões. Ali se realizaram conferencias literárias e posses acadêmicas aclamadíssimas. Eleições de misses. Reuniões de objetivo vário.
Ainda na década de 60 o Clube dos Diários, apesar do nascimento e florescimento de outros grêmios, mantinha-se altivo, como uma relíquia, freqüentado por uma sociedade que já afrouxava os freios morais de homens e mulheres. A juventude entregava-se aos primeiros passos da constatação de costumes nas coletividades humanas.

Nos fins dos anos 60 e principio da década seguinte, a agremiação tão querida entrou em decadência e chegou ao estado que chegou, requentada pelos que apreciam o jogo noturno e madrugadino, por homossexuais dos dois tipos, garotos vadios, pivetes. Ainda algumas personalidades ilustres nela espairecem, chorando intimamente as recordações de um tempo romântico que não volta mais. O ambiente está hoje de sujeira e integral desagregação física, do solo ao teto. Sombra dorida de um passado de riqueza espiritual. Em tudo, os fantasmas dos que bailaram, cantaram e se divertiram na magia de um mundo maravilhoso que a imbecilidade dos homens maus não soube preservar.


A. Tito Filho, 05/04/1992, Jornal O Dia

ANTIGUIDADES

A história de Teresina guarda muita cousas pitorescas e inesquecíveis. Abaixo se relacionam algumas.

PIPIRAS. As pipiras viveram no tempo da fábrica de tecidos, assim chamadas porque merendavam bananas.

CURICAS. Eram as empregadas domésticas, que não se sentavam à mesa dos patrões, mas recebiam o prato de comida por cima do peitoril que separava a sala de refeição da pequena área descoberta no interior da casa. Manoel Joaquim, conforme me contou o fabuloso Antônio Sales, testemunha ocular da velha Teresina, realizava o baile das curicas. Havia ainda o concurso de misse curica.

FREGES. Vendiam bóias fartas e saborosas em alguns pontos da cidade. A garapa de cana procedida de São Joaquim e Acarape, em ancoretas e cabaças. Comprava-se o caneco com um pedaço de beiju. Dias festivos, na porta do Teatro 4 de Setembro ou dos arcos, vendiam-se manuês, arroz-doce, jenjibirra, frito de porco, frutas e outras guloseimas.

MATINÊS. Antes da luz elétrica, os bailes se realizavam de tarde, a partir do meio-dia, porque de noite a iluminação se fazia de lampiões acesos de tardezinha e apagados às dez da noite.

CHAFARIZES. Funcionavam na rua da Glória (Lisandro Nogueira), na avenida Frei Serafim, na antiga rua Santo Antônio (Olavo Bilac), no Bairro São João, no Largo do Poço (praça Landri Sales).

BANHOS. Os homens tinham os chamados portos para banho: o Pau-d'Água, em frente à atual praça Da Costa e Silva, e os das Tabocas, abaixo da ponte metálica.

QUITANDAS. Bem sortidas. Carne-de-sol, porco salgado, toucinho, banha derretida, bacalhau, sardinha portuguesa, pães de massa grossa e sovado, manteiga proveniente da Europa em latas grandes, vendida no retalho. E deliciosos vinhos portugueses.

CALÇAMENTO. Conta-se que o primeiro calçamento de Teresina foi obra de Domingos Monteiro, intendente e prefeito três vezes. Ruas apenas empiçarradas. No verão se levantava muita poeira, chamada PÓ MAMBIRA, pois a irreverência popular apelidara o administrador de Mambira. Conheci Domingos Monteiro, cidadão honesto, trabalhador, culto e dedicado aos problemas da cidade.

QUITUTES. Muito apreciados: os rebuçados de dona Loló, as cocadas da Totonha, a panelada da Luziana, o assado de panela do Filomeno, o cuscuz do João Olegário, os refrescos de pega-pinto, os bolos de dona Quequé, os sorvetes do Café Avenida, as empadas do Manuel Português, as mãos-de-vaca do Doutor. O Bar Carvalho servia filé e fígado de grelha de sabor ainda presente na saudade de quem os comeu, feitos por Gumercindo, Guimarães, José Bebé, Ludgero e o auxiliar Mundico.

MATO. Batia-se o mato das ruas duas ou três vezes por ano. Quando não se conseguiam operários, os serviços se confiavam aos presos da penitenciária.

ENTERROS. Os caixões se levavam a mão por carregadores ou pessoas amigas do defunto. Gente rica pagava mais, com direito a banda de música: os adultos, marcha fúnebre, valsa para as moças virgens, dobrados para os rapazes. Principais funcionários das funerárias: Anísio Veras e Benedito Caixão.


A. Tito Filho, 01/04/1992, Jornal O Dia

sábado, 3 de março de 2012

ONTEM E HOJE

Quem viu os carnavais antigos nunca esquece a alegria e o entusiasmo dos foliões. As fantasias bonitas, os bailes de intensa animação, as melodias inesquecíveis, os préstitos, as batalhas de confetes, - rodelinhas coloridas atiradas pelos foliões uns aos outros, e as lança-perfume, as serpentinas, os cordões, os blocos, o corso - tudo isto se resume em muita saudade de tempos maravilhosos.

De certo tempo a este ano de 1989, o carnaval transformou-se nos bailes e nas ruas, em exibição de bumbuns e seios, numa concorrência erótica das mais perniciosas, beirando o fescenino, o cinismo, o integro despudoramento de fêmeas bem pagas para os gestos e as posturas desavergonhadas pelos rendimentos da publicidade.

No recinto dos clubes a paisagem de desolação moral se torna chocante, com homens e mulheres em cenas degradantes, mostrando as vergonhas que Deus mandou que fossem cobertas. Que dizer da selva dos homossexuais?

Neste país se aboliu a censura para a falta de respeito. Não existem mais normas que devam reger os princípios de moralidade pública. A própria Constituição Federal garante o imoralismo.

O carnaval brasileiro se resume nos bailes de nus dos clubes elegantes e nos desfiles de luxo das escolas de samba, estas patrocinadas pelos cofres públicos - e os Estados e municípios vão copiando a prática e ovacionando a falta de decoro por todos os cantos e recantos.

O célebre Dom Quixote, de Cervantes, que todo cidadão já devia ter lido, mostra, nas suas páginas irreverentes, que as sociedades se modificam nos seus hábitos e costumes e no tipo de moral que passam a adotar, e não podem voltar ao passado.

No Rio, uma escola de samba de grande fama exibiu o LIXO da atual sociedade outrora cantada como maravilhosa. Desfilaram mendigos e outros párias - todos de ricas caracterizações luxuosas e caríssimas. O luxo e o lixo em mistura teatral, e a escola queria no desfile o Cristo Redentor, cuja dignidade foi preservada por decisão da Justiça, a pedido do cardeal Eugênio Sales.

Sinal dos tempos. Parece que a loucura da carne e do dinheiro está levando a humanidade à completa insensibilidade espiritual.


A. Tito Filho, 06/03/1992, Jornal O Dia

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

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Meninote, chegava eu a Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

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Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

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Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

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Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo à outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

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Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

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Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

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Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 21/05/1992, Jornal O Dia