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quarta-feira, 28 de março de 2012

CONTO E CRÔNICAS

O velho e bom dicionarista Morais definia conto como a narração fabulosa, a história imaginária. De crônica dizia que era a história escrita conforme a ordem dos tempos.

Livros didáticos de literatura citam o chamado gênero narrativo, que compreende história, romance, conto, novela. Esses mesmos livros didáticos costumam ensinar que a história abrange as monografias, anais, memórias, biografias, crônicas. O romance - dizem tais autores - é o desenvolvimento, em prosa, de um assunto. Conto é romance curto. Novela, a forma intermediária entre o conto e o romance, distinguindo-se por apresentar diálogos rápidos, narrações ligeiras.

Littré definiu como história, verdadeira ou imaginada, narração falada ou escrita. Para ele, os contos são acontecimentos da vida real ou as próprias tradições populares cheias de aventuras extraordinárias - aquelas aventuras que, em forma de contos, ingressaram na obra de Maupassant e Daudet.

Dicionários moderníssimos registram crônica como narração histórica, segundo a ordem dos tempos, anotações de episódios, relatos de acontecimentos principais de determinada época, e nos primeiros tempos da literatura portuguesa e estudioso encontra os cronicons ou cronicões ou crônicas medievais, simples repertórios de sucessos da época.

Crônica é, ainda, noticiário de jornais, anotação do quotidiano, comentário do que, no dia-a-dia da vida, aflige e alegra, escandaliza, enternece, entusiasma - e daqui, modernamente, decorrem as crônicas do crime, dos episódios mundanos, aos quais se empresta certo sabor de crítica.

A crônica, entretanto, assumiu posição de verdadeiro gênero literário, embora o fato de ser divulgada em jornal não implique em sua desvalia, como mostra Afrânio Coutinho.

Já disse que crônica se relacionava com o relato cronológico dos fatos sucedidos em qualquer lugar. Também revele que a crônica se identifica com o registro jornalístico, mas esses conteúdos, que explicam às vezes o emprego da palavra pelos antigos e pela voz corrente, não é o conteúdo da crônica como gênero literário. "Crônica, literalmente - diz Afrânio Coutinho - corresponde a pequenas produções em prosa, de natureza livre, em estilo coloquial, provocadas pela observação dos sucessos cotidianos ou semanais, refletidos através de um temperamento artístico".

Sendo a crônica, como queria Álvaro Moreyra, "ligada à vida cotidiana, tem que valer-se da língua falada, coloquial (de conversação), adquirindo inclusive certa expressão dramática no contato da realidade da vida diária".

Da crônica disse Eduardo Portela: a) que não a caracteriza a coerência mas ambigüidade; b) vive presa ao dilema do circunstante; e c) devem ser superadas as suas condições jornalísticas e a sua base urbana para que possa ela construir uma vida além da notícia.

O conto é narrativa dentro da ficção. Não se restringe à vida quotidiana, nem ao circunstante, mas desborda da idéia do tempo e do espaço, localizando os seus panoramas no chão desta terra ou no limitado território da pura imaginação - como ensinou Menotti del Picchia.

Escrita em estilo coloquial, provoca-se a crônica com a observação do quotidiano, enquanto a essência da ficção (conto) está na fuga do espírito às convenções do nosso universo pela descoberta de mundos novos (Menotti). No conto, há transporte para qualquer área da vida (passado ou futuro) e nele existem elementos básicos, da forma lecionada por Álvaro Lins: personagem, ambiência, ação.

Não é o caso de lembrar o aspecto técnico do conto, preso a regras tradicionais de começo, meio e fim, ao suspense, e à intriga. Modernamente, o conto sintetiza elementos fornecidos pelo ambiente e pela pesquisa psicológica - imagem do homem e da realidade, de significado e alcance universais.

Certo é que algumas vezes a lição tem a objetividade do quotidiano e realiza, assim, a crônica - mas também se verifica que a ambigüidade da crônica não raro a conduz ao conto.


A. Tito Filho, 21/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 14 de março de 2012

MÉRITO

Seria exaustivo relacionar todos os episódios de lutas que se têm verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuram revelar e interpretar - e muitos desses episódios ainda se encontram em processo polêmico. A grande Revolução industrial do princípio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. De feito, a máquina tornou-se responsável pelo poder industrial, que desorganizou a família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto - base da educação - e derribou estruturas seculares.

O Brasil não poderia fugira da sua influência. a abolição da escravatura, e conseqüente adoção do regime republicano, promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, se se analisam superficialmente as causas. O período republicano bem atesta a afirmativa. É que o ciclo revolucionário brasileiro ainda não se completou, e só se completará quando os desequilíbrios sociais, a injustiça social, a fome sejam vencidos, com o estabelecimento de processos humanos de vida - a abdicação do inumano pela valorização do homem.

Quantas revoluções brasileiras de 1922 a esta parte? Talvez elas tenham origem próxima na pregação civilista de Rui, com que contagiou os moços, civis e fardados. Do Rui-profeta, que se antecipou a Getúlio Vargas na luta contra a exploração do homem pelo homem.

Ainda se registrarão as causas profundas dos movimentos de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945 e 1964. Não foram movimentos de homens em armas, mas movimentos de inspirados por cérebros interpretadores da inquietação e da angústia do brasileiro, inconsciente ainda dos direitos e deveres que lhe outorgaram constituições políticas feitas em gabinetes, bem distantes da realidade nacional.

Nesta apreciação não sou pela idéia do analisar tais movimentos, nas suas causas remotas e próximas. Cabe-me ressaltar o registro da testemunha e do pesquisador dos fatos que integram as manifestações revolucionárias de 1922 a 1931 no Piauí feito pelo General Moysés Castelo Branco Filho, uma das figuras ilustres da terra piauiense, pela dignidade moral, pelo civismo, pela inteligência cultivada, pelo amor ao estudo - professor como raros, matemático acatado, apaixonado da história e dos seus processos de investigação e análise - esta obra bem comprova a operosidade intelectual e os conhecimentos seguros e sérios de que se compõe a personalidade do autor - para lição de história com a verdade que soube testemunhar e documentar e a pesquisa que a busca da verdade lhe atribuiu para comprová-la, em toda a plenitude.


A. Tito Filho, 29/05/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de março de 2012

CAPITÃES DE AREIA

"Capitães da Areia", de Jorge Amado, inteirou cinqüenta anos, publicado que foi em 1937. Livro que pouca gente leu, pois neste país número reduzidíssimo lê cousas sérias, úteis, decentes. Machado de Assis vale como ilustre desconhecido. Muito citado, e citado mal, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras vive nas bibliotecas públicas e raras particulares sem leitores e consultores.

A Bahia passou uma semana revivendo as páginas candentes de "Capitães da Areia", analisando problemas e sensibilizando a sociedade para o drama dos menores abandonados - personagens de Jorge Amado nessa obra-lição. Estudaram-se temas que o escritor insinua como o direito da criança ao respeito, a criança e o direito da pessoa humana, a visão cristã do menor, a questão social do menor - e outros, em conferências pronunciadas por gente de sopapo, da espécie de Dalmo Dallari e Marcos Villaça.

Convém transcrever a mensagem de Jorge Amado sobre "Capitães da Areia", a criatura na expressão clara do criador e que faz corar os que têm vergonha na cara. Leiamos, mão na consciência, a ver a quem pertence a culpa neganda: "Os molecotes atrevidos, o olhar vivo, o gesto rápido, a gíria de malandro, os rostos chupados de fome, vos pedirão esmola. Praticam também pequenos furtos. Há 50 anos escrevi um romance sobre eles. Os conheci naquela época, são hoje homens, malandros do cais, com cachaça e violão, operários de fábrica, ladrões fichados na Polícia, mas os Capitães da Areia continuam a existir, enchendo as ruas, dormindo ao léu. Não são um bando surgindo ao acaso, coisa passageira na vida da cidade. É um fenômeno permanente, nascido da fome que se abate sobre as classes pobres. Aumenta diariamente o número de crianças abandonadas. Os jornais noticiam constantes malfeitos desses que têm como único corretivo as surras na Polícia, os maus tratos sucessivos. Parecem pequenos ratos agressivos, sem medo de coisa alguma, de choro fácil e falso, de inteligência ativíssima, soltos de língua, conhecendo todas as misérias do mundo numa época em que as crianças ricas ainda criam cachos e pensam que os filhos vêm de Paris no bico de uma cegonha.

Triste espetáculo das ruas da Bahia, os Capitães da Areia. Nada existe que eu ame com tão profundo amor quanto estes pequenos vagabundos, ladrões de onze anos, assaltantes infantis, que os pais tiveram de abandonar por não ter como alimentá-lo. Vivem pelo areal do cais, por sob as pontes, nas portas dos casarões, pedem esmola, fazem recados, agora conduzem turistas ao mangue. São vítimas, um problema que a caridade dos bons de coração não resolve. Que adiantam os orfanatos para quinze ou vinte? Que adiantam as colônias agrícolas para meia dúzia? Os Capitães da Areia continuam a existir. Crescem e vão embora mas já muitos outros tomaram os lugares vagos. Só matando a fome dos pais pode-se arrancar à sua desgraçada vida essas crianças sem infância, sem brinquedos, sem carinhos maternais, sem escola, sem lar e sem comida. Os Capitães da Areia esfomeados e intrépidos!".    


A. Tito Filho, 25/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

CRIMINOLOGIA DAS MULTIDÕES

Elias de Oliveira e Silva nasceu na terra piauiense de Piripiri. Cultivou o soneto, quando moço - o soneto terno, voltado para a mulher nos seus atrativos físicos. Conheci-o em Fortaleza - elegante, cabeleira basta, olhos amortecidos de carcamano, inteligência ágil. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri. Argumentador seguro e culto. Palavra fácil, por vezes irônica. Grande estudioso de ciência penal. Escreveu valiosas obras jurídicas, discutindo impostos, intervenção federal nos Estados, crimes de incêndio e outras matérias. O livro que o colocou entre os mais conceituados no assunto chamou-se "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao direito criminal. Problema curioso e complexo o da multidão criminosa. Franceses e italianos lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil, mas lacunoso. O mais integro que conheço é o de Scipio Sighele, nomeado "A Multidão Criminosa".

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que outros escritores célebres procuraram revelar a psicologia das multidões, como d'Annunzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola mostrou-se real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

No meu entendimento, Sighele tem falhas que foram supridas por Elias. Certíssimo o conceito de multidão no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a Nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora provisoriamente, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, finalidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas ao inconsciente.

Esse recalque constitui o grande responsável pelo crime da multidão. Elias fez o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Certa vez observei que os recalques freudianos estão até nas manifestações dos campos de futebol, como nas arenas das touradas espanholas.

Grande jurista esse hoje esquecido Elias Oliveira e Silva. Talvez não o conheçam os universitários piauienses dos cursos jurídicos ministrados piauienses dos cursos jurídicos ministrados pela Universidade Federal do Piauí. O Piauí será sempre assim: despreza os talentosos homens de inteligência que aqui nasceram. Só os de fora prestam. Santo de casa não faz milagre.


A. Tito Filho, 14/01/1992, Jornal O Dia

DEUS E O PETRÓLEO

Vulgarizam-se no Brasil duas falsas afirmações, a da que Deus é brasileiro e a de que o petróleo é nosso. A NÓRDICA, conceituada editora nacional, publicou o excelente livro DEUS NÃO É BRASILEIRO NEM O PETRÓLEO É NOSSO, em que o autor, numa linguagem ao alcance de leigos e doutores, demonstra a verdade das cousas e dos fatos.

Já diz o velho ditado que "Deus ajuda a quem cedo madruga". E os brasileiros precisam dar-se conta disso. Só com esforço, dedicação, sacrifício e muita coragem, podemos fazer do Brasil um país digno de Deus, que - ao contrário do que se propaga - não é brasileiro, mas já nos ajudou muito.

Esta é a intenção deste livro onde o autor, Murilo Sampaio, expõe, com grande lucidez e nos mínimos detalhes, a situação do petróleo no Brasil, Petróleo que - também, ao contrário do que se propaga - não é nosso. Pelos menos, não é de todos os brasileiros, nem como acionistas, nem como consumidores.

Então, de quem é a Petrobrás?

A análise da Petrobrás, neste livro é abrangente. Vai desde a sua história até as possibilidades de reconfiguração empresarial e gerencial. E inclui, ainda, todas as possíveis reações das pessoas e grupos que, hoje, estão engajados, de uma forma ou de outra, no segmento petróleo.

Extrapolando, o autor faz também algumas considerações sobre o papel do Estado, não apenas em relação à Petrobrás, mas a essa Empresa maior chamada Brasil.

É a hora de todos os brasileiros repensarem o futuro do seu país.


A. Tito Filho, 08/04/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de março de 2012

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigos aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.


Clóvis morreu em 1944, manhãzinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.


A. Tito Filho, 10/01/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 5 de março de 2012

GAIOLAS

Este jornal está circulando neste dia 27 de maio de 1988 e até ontem não havia sobrado tempo para uma visita minha à nova coqueluche teresinense, o vapor construído em Parnaíba, batizado Comandante Fausto Silva, agora na capital piauiense, na distância de cento e vinte e nove anos do primeiro GAIOLA, o vapor URUÇUÍ, que se fabricou no Rio de Janeiro.

Esses vaporzinhos antigos eram de excelente viajar. Num deles, em 1942, embarquei em Juazeiro da Bahia, para subir o São Francisco até Pirapora, em minas, e daí alcançar o Rio de Janeiro, por terra. Viagem gostosa. Rapazola, deliciei-me com muita cabloca de beira d'água, nas cidadezinhas da época. Estive na gruta de Bom Jesus da Lapa, espaçosa e clara, na terra baiana. Muita pobreza. Mendigos às pencas, feridentos, doentes, maltrapilhos.

Gostei da cidade de Barra do Rio Grande, margem esquerda da grande corrente fluvial, onde foi aldeia de índios e fez parte do célebre Sertão de Rodelas - que pertenceu à Bahia, passou a Pernambuco, a Minas e voltou ao domínio baiano.

Estive doze dias subindo o rio. Manhãs e tarde monótonas. Noites agradabilíssimas. Dormida ao ar livre, na rede do cheiro da gente. Refeições de bom peixe. O comandante apreciava a boa pinga.

Fiz outra viagem nos GAIOLAS, saindo do Rio de Janeiro em 26-12-1946. Percorremos o São Francisco de Pirapora e a Remanso e entramos no Piauí de caminhão, por São Raimundo Nonato. Alegres companheiros no percurso: Tibério Nunes, Fenelon Silva, Mariano Mendes, Álvaro Ferreira Filho. Atingimos Floriano no dia 18 de janeiro de 1947. Nessa antiga Colônia de são Pedro de Alcântara tomamos passagem noutro GAIOLA, rumo de Teresina. Embarque pelas 11 da manhã e chegada ao ponto final às 7 da manhã de 19, um domingo, quando o eleitorado já buscava os locais competentes para eleger o primeiro governador do Piauí depois das trevas da ditadura de Getúlio Vargas, o médico José da Rocha Furtado, artista do bisturi.

Os naviozinhos que o povo chamava VAPOR desapareceram da paisagem do Rio Parnaíba, faz uns trintas anos. Os do rio São Francisco estão transformados em PALÁCIOS de turismo, com orquestras, AMERICAN BAR, mulheres de aluguel, para milionários em férias, PLEIBÓIS de pais latifundiários, artistas de roquenrol e outras maluquices. Contam que nestes passeios, subindo e descendo o rio, gasta-se muito dinheiro mas goza-se um bocado a vida.

Jorge Amado, num dos seus melhores livros, narra viagem nesses barcos ao tempo do transporte a serviço das populações ribeirinhas. Comovente drama de dezenas de pobres e humildes na segunda classe, amontoados, em severa promiscuidade, e as delícias da primeira classe, no segundo andar do vaporzinho. Uma reportagem forte, vida real, da forma que contou o romancista baiano.

Ainda não sei se o Piauí voltará ao transporte pelo seu Rio Parnaíba, quase sem condições de navegabilidade. Será possível?


A. Tito Filho, 06/02/1992, Jornal O Dia

sábado, 3 de março de 2012

CABEÇA DE CUIA

Faz poucos anos, Josias Carneiro da Silva publicou obra-prima, intitulada SIMPLÍCIO, SIMPLIÇÃO DA PARNAÍBA e ainda não cessaram os merecidos elogias que recebeu. Depois publicou livro de bichos lacustres e fluviais, parecidos com as que outras águas oferecem como o caboclo-d'água do São Francisco, o urarau ou gigantesco do Paraíba do Sul, a boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore revela a vida coletiva na sua cultura material e espiritual. As águas constituem fonte de lendas, mitos, fantasias, imaginações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia em que se atiram oferendas ao mar para que se libertem de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu: a Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro:

Enquanto seus filhos
ficaram chorando
ele está morando,
beijando, beijando
a iara bonita
no fundo do mar...

Josias reviveu monstros aquáticos, e realizou o seu mais brilhante estudo com o CABEÇA DE CUIA, que o talentoso João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte". Agora novamente, num trabalho erudito, o monstro aterrorizador de pescadores e donzelas dos rios Poti e Parnaíba figura como atração principal.

O abalizado folclorista ofereceu nova interpretação à crendice popular - a de que o CABEÇA DE CUIA, estuprador da própria mãe, foi por esta condenado a viver nos rios referidos e para o desencanto tinha que deflorar sete Marias, proeza hoje dificílima porque, como é óbvio, não existem mais mulheres virgens.

A lenda, segundo Josias, diz COMER - sete Marias, e as marias tinham receio de amar a medo de gravidez, pois a pílula anticoncepcional começa na década de 60. Na antiguidade mitológica a fecundação independia do contato masculino e das vias naturais receptivas - como sustenta Câmara Cascudo. Houve a crença da gravidez SINE CUNCUBITO. A cobra-grande amazônica engravida cunhãs sem cópula, como acredita o povo. Existiu época da fecundação oral e por causa disto se emprega comer na qualidade de ter relação sexual.

Cascudo conta que numa igreja do Recife existe um quadro, em que Nossa Senhora ajoelhada ouve o anjo mensageiro de Deus, e das alturas, desce em diagonal um raio luminoso, alcançando a orelha esquerda da mãe do Altíssimo. A fecundação teria sido por processo auricular. E o povo logo criou o conhecido dito EMPENHAR PELOS OUVIDOS.

O nosso saudoso Odylo Costa Filho fez soneto bonito, na CANTIGA INCOMPLETA. Fala do poder sexual das águas do Parnaíba:

Naquele tempo, nupciais e puras,
as mulheres vestiam-se de peixes,
uma camisa ou nada sobre a pele, nádegas, peito, púbis ofertados,
e o rio era possuído e as possuía
no mergulho auroral entre os barrancos.

D'Humiac escreveu obra curiosa sobre algumas grandes lendas da humanidade, afirmando que o mistério do mundo se explica pela imaginação e pela razão. Concluiu que os velhos mitos estão morrendo, porque o próprio povo, que a cria, nelas passa a desacreditar, com o correr dos tempos, por através da ciência. A imaginação passa a ser substituída pela razão.


A. Tito Filho, 21/04/1988, Jornal O Dia

sexta-feira, 2 de março de 2012

LITERATURA PIAUIENSE

Gosto das lições de Nelson Werneck Sodré, claras, boas de aprender. Ajudam a cachola ao raciocínio, à compreensão. Magnífico no OFÍCIO DE ESCRITOR, livro que deveria figurar nas bibliotecas dos que pretendem íntima comunhão com os problemas literários. Qual deve ser o objetivo de escritor? Captar a realidade e transpô-la para a literatura, como se copiasse o espetáculo da vida social, da forma que fez Balzac com a avareza e Shakespeare com o ciúme. Necessário que se busquem os fundamentos populares da sociedade, pois a cultura de elite se deforma. A cultura oficial sempre se mostra aleijada e falsa. Só a cultura popular tem raízes certas. A literatura se completa exclusivamente com a participação do povo.

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Existe literatura piauiense? Creio que sim, uma vez que as obras dos nossos escritores revelam aspectos da vida social do homem piauiense, na paisagem geográfica piauiense e no momento histórico piauiense. E isto é literatura. Vejamos os autores mortos, a fim de que evitemos aborrecimentos por parte dos vivos que às vezes a gente deixa de citar.

X   X   X

Circunstâncias históricas e mesológicas criaram para a literatura piauiense feição peculiar de responsabilidade do nosso isolamento geográfico e cultural, durante anos. Em razão disto, ainda se discute a respeito da existência de uma literatura piauiense. Cremos, porém, na sua existência, porque temos o homem piauiense na elaboração de processo literário num espaço geograficamente piauiense. Há, entre nós, aquela literatura regional definida por Stewart - localizada numa região e que retira substância real desse local: "Essa substância, primeiramente de fundo natural - clima, topografia, flora, fauna, etc. - como elementos que afetam a vida humana na região; e, em segundo lugar, das maneiras peculiares da sociedade humana estabelecida naquela região e que a fizeram distinta de qualquer outra”.

É este o sentido do regionalismo autêntico, como quer Stewart.

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No poeta José Coriolano figuram com nitidez e simplicidade a labuta da gente humilde, o acordar do dia, a vibração da floresta, os espetáculos da natureza piauiense. A descrição das nossas matas, os animais da floresta, o sertanejo nas caçadas ardilosas está em Teodoro Castelo Branco. Hermínio Castelo Branco fixou a fala, os hábitos, o desafio, o gado, a crendice, tipos de alimentação, hipocrisias eleitorais, cenas de casamento, tudo ligado à caboclada. Clodoaldo Freitas tem poesias sertanejas admiráveis, como José Manuel de Freitas enalteceu o interior piauiense na labuta dos currais. que dizer de Lucídio Freitas nos poemas em que cantou uma Teresina rica de sentimentos espirituais do seu tempo? Da Costa e Silva e a saudade, a terra natal, as cenas das enchentes, do incêndio da mata, do rio, da balsa, em quadros imorredouros de beleza e expressividade? A desolação e o martírio da seca se lêem em Martins Vieira. O grande Abdias Neves reproduz com exatidão a Teresina do fim do século XIX e começo do XX. Jamais esqueceram aspectos folclóricos e cenas provincianas poetas e prosadores como João Ferry, Artur Passos, Domingos Fonseca. Sem necessidade de encompridamento da lista, encerremos com Fontes Ibiapina, admirável fixador e intérprete do nosso regionalismo tão rico e pleno de força popular.

Existe literatura no Piauí - e os vivos têm lugar de destaque na moderna literatura nacional.


A. Tito Filho, 03/05/1992, Jornal O Dia

DENOMINAÇÕES

Várias vezes me tem perguntado, pessoas cultas e gente do povo, de onde provém a palavra veado, no sentido homossexual.

Essas designações de cousas relacionadas com o sexo são quase sempre da inteligência das comunidades. Parece que existe vocabulário especificado para a expressão da vida e das necessidades sexuais. O acontecimento normalíssimo das regras tomou nomes interessantes como paquete, bandeira vermelha, incômodo, chico. No meu tempo de menino era bode. Mocinha pálida, colega de estudos, estava de bode. O órgão genital masculino se chama por vários modos: pinto, pau, cacete, manzape, careca. Quando ginasiano, Martins Napoleão mandava que se fizesse a leitura de "AS Pombas", de Raimundo Correia. Era de ver a risada geral da turma de moças e rapazes.

O homossexual masculino, por esse Brasil imenso, recebe diversificada denominação: afeminado, maricas, mariquinhas, bicha, bicha-louca, boneca, rodinha. Adolescente, eu sempre ouvia em Teresina chamar-se o pederasta passivo de fresco.

Veado foi tirado do latim venatu, o mesmo que animal de caça, donde se fez venatório, relativo a caça. Arte venatória traduz a arte de saber caçar. Essa proveniência não explica nem justifica o veado que se aplica aos homossexuais.

Consultei mestres e dicionários. Topei num livro, titulado "A Evolução das Palavras", de A. Tenório de Albuquerque, com este ensinamento: "Ouvimos diversas explicações para essa surpreendente modificação de sentido, para essa verdadeira perversão de sentido, sem que, entretanto, nenhuma satisfizesse.

Temos a impressão de que se trata de uma simples tradução do alemão HIRSCH. O médico judeu Dr. Magnus Hirschfeld, o fundador da ciência sexual, foi um defensor denodado do homossexualismo, do chamado terceiro sexo".

Albuquerque escreve que houve um período, na Alemanha, em que esteve com grande evidência o nome do Dr. Hirsch. É possível que esse nome servisse para indicar os homossexuais. Talvez algum alemão houvesse empregado no Brasil o vocábulo HIRSCH com a significação plebéia e alguém o traduzisse, vulgarizando-se o vocábulo.

Simples conjectura, já se vê. O próprio estudioso do assunto reconheceu a circunstância.


A. Tito Filho, 31/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 1 de março de 2012

PORTUGUÊS

Garotote ainda, eu gostava de ler romances. Havia a loja do Juca Feitosa, em Teresina, e ali a gente adquiria Júlio Verne, os livros de aventuras da coleção TERRA MAR E AR, sempre o herói contra os bandidos. Comprei e li as obras completas de José de Alencar e algumas dos portugueses Camilo Castelo Branco e Pinheiro Chagas. Gostei do mineiro Bernardo Guimarães e do autor de A MORENINHA, Joaquim Manoel de Macedo. Nesse tempo se vendiam os livros de uma coleção de reduzido tamanho, autoria de franceses, ingleses e russos, em traduções excelentes. Lembro-me da leitura que fiz de obras de Zola Ohnet, Dostoiewski.

Gostava de Emílio Salgari e do Tarzã, de Burroughs.

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Meu pai possuía boa biblioteca, em que se destacavam obras jurídicas. Mas havia também obras de literatura e uma boa quantidade de livros de português, especialmente gramáticas e algumas de dúvidas de linguagem e ensinamentos de correta escrita das palavras, como as lições do lusitano Cândido Figueiredo. Lia constantemente as vaidosas explicações desse sujeito de grande aceitação na sua pátria de origem. E tomei gosto pelo assunto. Na antiga biblioteca pública Casa de Anísio Brito adotei como leitura predileta obras de Xavier Fernandes e outros estudiosos de questões de linguagem. Professor de português, li Said Ali, Pedro Pinto, Silveira Bueno, Vitório Bergo, Napoleão Mendes de Almeida, Martinz de Aguiar, Tenório d'Albuquerque e quantos mais, meu Deus. Aprendi uma porção de lições úteis e também gravei na memória invencionices, e ordenamentos inconsistentes,

Neste coluna já me referi aos trabalhos, em três volumes, de Cineas Santos, bons de aprender, pois são simples e de clareza que ninguém esquece.

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Ganho agora presente valioso e de raro método, PORTUGUÊS COMPELTO, no seu primeiro volume, e do qual se esperam mais dois, com um total de três mil questões resolvidas.

Assina-o um mestre da língua portuguesa, que tive a honra de ter como aluno, nos tempos do curso ginasial e do cientifico. Estudioso, fez da língua pátria o seu instrumento de trabalho e de muito saber e muito escrever bem ultrapassou o velho e modesto professor. Refiro-me a William J. Silva, cujos serviços aos moços têm merecido aplausos da sociedade teresinense.

Neste PORTUGUÊS COMPLETO está a linguagem e nele se podem anotar a correção simples dos desfeitos comuns em que laboram moços e velhos, homens e mulheres na fala quotidiana e na comunicação escrita do pensamento.

Li o livro de fio a pavio. Corrigi alguns defeitos em que eu estava acostumado.

As lições de William J. Silva são acessíveis a todos, a principiantes e aos que labutam no uso correto da linguagem humana.


A. Tito Filho, 31/03/1992, Jornal O Dia