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terça-feira, 13 de março de 2012

ESTÁDIOS

Faz mais de vinte anos escrevi umas palavrinhas introdutórias ao livro "O Piauí no futebol", desse querido Carlos Said, papa da crônica futebolística nesta terra por onde talvez tenha andado o paulista Domingos Jorge Velho. Naquele escrito eu disse que do jogo conhecia o nome inglês e os embates no pequeno campo chamado "Lindolfo Monteiro". Ignorava normas e métodos orientadores de posições e jogadas desse esporte das multidões apaixonadas. Mas nunca o desamei, nem alheava às emoções dos campeonatos mundiais, como aquele de 1938, transmitido pelas amplificadoras comerciais de nossa praça Rio Branco.

Sempre percebi o entusiasmo do futebol na alma popular, o delírio coletivo nos embates vibrantes, contagiando torcidas enlouquecidas e urradoras. Nada havia mais ruidoso e trepidante do que um futebol brasileiro, jogado no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Teresina, nas cidadezinhas mortas do interior ou nas ruas de propriedade da meninada travessa.

Futebol supunha foguetório, briga, murros, pauladas, tiros e morte. Érico Veríssimo chegou a escrever que o nosso futebol valia fúria, uma revolução, uma explosão, uma válvula de escape para a violência reprimida, assim como uma atitude bovárica irreversível, um protesto de angústia, uma fuga da realidade, uma forma de evasão: "Quem observa de longe... a multidão a gritar, a dançar, no meio da explosão dos foguetes, tem uma impressão de alegria. Mas não nos devemos iludir. Se a floresta é alegre as árvores são tristes".

Ora se me lembro e quanto. Ditadura no auge das benemerências e dos triunfos bestas. Construíra-se a ponte Rio-Niterói, um dos assombros universais, unindo duas cidades terríveis de problemas populares. Médici, ditador-mor, criou o milagre: tricampeões do mundo os tupiniquins. Arrotava-se orgulho. Por toda parte, o slogan cretino: "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Houve a febre dos estádios. Estádios em toda e qualquer biboca chamada Pau Fincado ou Pindura Saia. Até em Demerval Lobão, suburbiozinho de Teresina, edificaram um campo gramado para os futuros craques internacionais.

Pelo começo da década de 1970 a doença nacional era o estádio, os gigantes maravilhosos. Andei de passo errado, pregando no deserto. Teresina não podia dar-se o luxo de rapariga bonitona em farra com português cheio de ervas. Mas fez-se o estádio. Sessenta mil pessoas. E aí está, ainda hoje, 1988, sem platéias ululantes ou mudas, o famoso elefante-branco, às moscas, vazio, substituído quase toda semana pelo inesquecível campozinho do Lindolfo Monteiro.

Eu tinha razão.


A. Tito Filho, 12/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ESPORTES

Em 1948 houve a inauguração da Rádio difusora de Teresina. Dento em pouco tempo eu e Valdemar Sandes criávamos na emissora o programa futebol e política. Era o governo Rocha Furtado e cada dia mais aumentavam as brigas e os xingamentos entre governo e oposição. Semanalmente eu e Valdemar colocávamos no ar o FUTEBOL POLÍTICO, uma partida humorística em que pelejavam os próceres governistas e os oposicionistas. Grande audiência. Até apostas se firmavam sobre os ganhadores e perdedores. E logo se inauguravam a crônica esportiva e nasciam os primeiros ases de comentaristas de futebol.

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Sempre gostei do esporte de Pelé. Todo domingo lá estava eu no estadiozinho Lindolfo Monteiro, tão simples, bom de cultivação de amizades, alegre, tempo das chupas de laranja e de pastéis apimentados. Era bom.

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Vejo a idéia do Albertão, nos sonhos de Alberto Silva. Combati sozinho esse elefante-branco, gastador de milhões. Preconizei o seu futuro fracasso. Eu era sozinho. Só eu combatia a construção desse estádio que vive vazio, sem assistência. Tão negativo o Albertão que ressurgiu o Lindolfo Monteiro.

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Trabalhei ainda na Rádio Difusora em 1971. Programa diário. Antes na Rádio Clube, também diariamente. Programas de audiência certa.

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No rádio conheci gente boa, como Gurani (Sansão Santos), que morreu magrinho num canto de hospital. Era gente do coração. E Trindade Júnior, Denis Clark, Jackson Moreira, o fabuloso Carlos Said, de memória genial, José Lopes dos Santos, de pouca conversa, caladão, organizado, inteligência aplaudida, e quantos mais, no passado pouco distante, alguns mortos, outros vivos, e que me desculpem a memória fraca para recordações completas.

Agora, com alegria e orgulho, Dídimo de Castro completa trinta anos de reportagem e de microfone. Fiel amigo do futebol. Célebre ativo, espírito observador, justo, competente, esforçado, virtuoso e amigo. Incorporou-se ao futebol piauiense, à sua história, aos seus triunfos, às suas derrotas. Apaixonando por causas nobres. Ninguém o vence de desânimo - e clama pelo soerguimento das nossas lutas e pela valorização das nossas disputas. Ouço-o sempre, admirando-o na persistência e na coragem de dizer e verberar as falsidades. Dídimo não sabe, mas lhe consagro uma amizade sincera porque justa e harmônica com a sua expressão de coragem em favor do Piauí.


A. Tito Filho, 08/05/1992, Jornal O Dia