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segunda-feira, 2 de abril de 2012

IDÉIAS

Faleceu, faz anos, Elias de Oliveira e Silva, membro da Academia Piauiense de Letras, primeiro ocupante da cadeira 28, patrocinada por Luísa Amélia de queirós Brandão, poetisa sentimental, de quem, ao tomar posse, na sessão solene de 18 de outubro de 1921, disse ele: Idólatra da poesia, sou irmão espiritual do artista que se ajoelha ante o seu ídolo sagrado. E, por muito amor a poesia foi que escolhi, para patrocinar a minha cadeira, o nome ilustre de Luísa Amélia de Queirós, a poetisa destemida que, num ambiente contrário aos surtos do seu talento, vibrava na emoção admirável dos seus sentimentos, cantando-os em versos espontâneos, feliz nas suas convicções, ardente nos seus arrebatamentos, inabaláveis na sua fé, invencível nas suas paixões e máscula nos seus formosos ideais de concórdia, de ilusão, de amor e de glória.

De feito, Elias, na mocidade, dedicou-se à poesia. Cultivou o soneto, e compôs alguns, que lembram a definição de Celso Pinheiro - quatorze versos cheirosos.

Lapidador delicado do soneto, terno, apaixonado dos traços femininos - Elias cultivou também a trova, elegante e gracioso, sempre voltado para a mulher, nos seus atrativos físicos - na mulher em que ele pouco ou nada acreditava.

Conheci Elias de Oliveira em Fortaleza, no tempo em cursei o antigo Liceu do Ceará. Elegante, estatura acima da mediana, cabeleira basta, olhos amortecidos, inteligência ágil, vibrante, voz forte, dominadora - gozava o saudoso acadêmico de grande conceito intelectual. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri, celebrado de aplausos. Argumentador seguro, culto, dominava a platéia, os jurados - terror da acusação quando se encontrava na defesa, terror da defesa quando auxiliava a acusação. Palavra fácil, corrente, por vez irônica, sustentada de conceitos graves, com que se revelava o grande estudioso da ciência penal. Nesse tempo conquistara já grande fama e respeito como jurista, autor de "Idéia do Direito da Filosofia Helênica" (1919), "Inconstitucionalidade de Impostos" (1920), "Crime de Calúnia" (1925), "Intervenção Federal nos Estados" (1930), "Homicídio Culposo" (1932), "Criminologia das Multidões" (1934), "Crime de Incêndio" (1934), "Injúria pela Imprensa" (1934). anos depois, em 1952, publicou ainda "Crimes contra a Economia Popular".
A obra que o colocou entre os mais notáveis estudiosos do assunto, no Brasil como em outros países, foi, sem dúvida, "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao Direito Criminal. Problema interessantíssimo o da multidão criminosa. Muitos, notadamente franceses e italianos, lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil - estudos quase sempre lacunosos - e mais completo que conheço antes de surgir o de Elias, é o de Scipio Sighele: A Multidão Criminosa.

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que antes escritores de nomeada procuraram, nos seus livros, revelar a psicologia das multidões, como d'Annuzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola foi real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

Como disse, li Sighele - extraordinário de observações, mas com falhas que foram supridas, no meu entendimento, por Elias de Oliveira. Certíssimo o conceito de multidão, no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora momentânea, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o "agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, qualidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas no inconsciente".

Esse recalque é o grande responsável pelo crime da multidão. Elias faz o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Aliás, observei, certa feita, em um trabalho intelectual, que os recalques freudianos estão nas manifestações dos campos de futebol brasileiro, como nas arenas das touradas espanholas.

O notável piauiense repudia as classificações de multidão de famosos criminalistas.


A. Tito Filho, 16/01/1992, Jornal O Dia

DONDON

No cartório do registro civil de Livramento, hoje José de Freitas, deve constar o nome de Antônio Castelo Branco, que o Piauí todo conhece pela alcunha de Dondon, fundador em Teresina de jornal famoso, a que deu o nome de "O Denunciante" e em cuja edição de número 12, de 18 de maio de 1927, lemos, na última página, os dez mandamentos que o jornalista escreveu para que fosse possível o seu segundo casamento com a mesma mulher. Ei-los, mudando-se a grafia da época para adaptá-la aos dias correntes:

"Assim como tem o velho e o novo é muito natural que tenha o velho e o novo casamento com a mesma mulher... e hoje véspera do meu casamento fazendo 25 anos que sou casado, neste caso venho festejar as bodas... propondo um novo casamento com a mesma mulher, visto como o primeiro não prestou... porém com as seguintes condições: 1) não ter (minha mulher) contato com sua irmã Porcina Dias Ribeiro. 2) não ter contato com qualquer um dos filhos que se achar em desavença comigo. 3) nada fazer sem me ouvir, nem que seja para mudar uma palha de um lugar para outro. 4) eu não estando em casa não deve sair para parte alguma nem que seja na vizinhança... e nem andar na rua depois das seis horas da tarde. 5) se achar em casa sempre na hora do café pela manhã, na hora do almoço, na hora do jantar. 6) todas as vezes que tiver conhecimento de que o Bispo Dom Severino Vieira de Melo tem de pregar, deve largar o que estiver fazendo para ir ouvir o sermão do mesmo. 7) no lugar em que nos encontramos sempre que houver missa aos domingos, temos que irmos juntos. 8) saímos juntos de braços dados sempre que eu entender. 9) fico com os poderes de aumentar ou diminuir todos os mandamentos do novo casamento, sempre que julgar preciso. 10) cumprindo todos estes mandamentos, terá direito a tudo que estiver no meu alcance".

Dondon deu muito trabalho aos políticos piauienses de todas as categorias: governadores, deputados, homens de governo. Contou pelo jornal a luta de governo. Contou pelo jornal a luta desenvolvida para adquirir tipografia. E escreveu que a vitória lhe custou o seguinte: 1) Custou-me no começo de 1919 o major do Exército Antônio da Costa Araújo Filho apoderou-se de três vacas minhas, sem o meu consentimento. 2) Custou-me no dia 13 para amanhecer 14 de maio de 1925 terem querido tirar a minha vida a traição e que ainda recebi três bordoadas, pro este motivo deu em resultado eu passar 21 meses e quatro dias em casa sem sair à rua. 3) Custou-me no dia 19 de setembro de 1924 mandarem-me meter na cadeia, quando foi no dia 8 de outubro do mesmo ano tornaram a me meter na cadeia e esta segunda vez ainda acharam pouco, da cadeia ainda me mandaram para ser internado no asilo dos doidos, onde passei dias contra a minha vontade e dois por minha conta...".

Jornalismo saboroso, com defeitos e qualidades, muito lido pelos teresinenses da década de 1920. As edições esgotavam-se rapidamente. Uma delas, a que tratou dos enterros na cidade, tornou-se antológica, e ainda hoje é citada das mais interessantes reportagens da imprensa da capital piauiense. Mas a história dos enterros será contada noutra oportunidade.

Dizia-se que Dondon tinha alguns parafusos frouxos, mas a verdade está em que raros possuíam tanta inteligência quanto ele.


A. Tito Filho, 18/03/1992, Jornal O Dia 

sábado, 17 de março de 2012

IMPRESSÃO

Em 1959, busquei recursos médicos no Rio de Janeiro. Sai de Teresina cedinho, nos aviões DC-3, que realizavam um chatíssimo pinga-pinga: Bom Jesus da Lapa, Salvador, Ilhéus, Montes Claros, Belo Horizonte, Vitória, finalmente a velha capital brasileira, aonde se chegava pelas oito horas da noite. Gerardo Vasconcelos, bondoso dia por dia, me deu carta de recomendação a um doutor dirigente de casa de saúde e às portas destas bati e tive recado de falta de vaga. Mandaram-me para outro hospital, até que alguém, morto ou restabelecido, desocupasse quarto.

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Estabeleci-me, de modo provisório, noutra casa de saúde, e nela recebi assistência de um doutor magro, fino, mas sabido como diabo. Depois que me auscultou, e de natural e até demorado interrogatório, consentiu em que eu tinha muita fome. E já noite puxada me conseguiu ovos, presunto e pão.

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De manhã, solzão, aberto, recebi a visita do diretor do hospital, de faces e queixo barbudos, bem cheios de barba - uma barba negra, muito negra e bem cuidada. Era o piauiense de nomeada, de fama justa, Correntino Nogueira Paranaguá. Conversou comigo um bom pedaço de tempo, lhano, afável, deixando-me forte impressão de homem honesto, simples e correto.

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Durante anos não tive oportunidade de rever Correntino. Mas não saiu da memória o seu gesto bondoso da visita, e de encorajar-me com a esperança de breve reencontro com a saúde.

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Em 1976, publiquei livro a respeito das ruas, avenidas e praças de Teresina, biografando vultos ilustres homenageados, ou oferecendo a significação dos nomes de outras vias públicas. Ano seguinte, Correntino mandava-me carta, em que salientava natural decepção ao sentir que a capital piauiense não possuía um beco sequer chamado Joaquim Nogueira Paranaguá, pai do missivista, que reais e relevantes serviços concedeu à coletividade nacional. A voz do filho reclamava a honraria, que os poderes competentes haviam esquecido. Levei o caso ao Prefeito Wall Ferraz, e a justiça foi feita.

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1978. A Academia Piauiense de Letras, em janeiro, promoveu festas comemorativas dos seus sessenta anos de existência laboriosa e útil e convidou piauienses radicados noutras terras para a comunhão das alegrias acadêmicas. Um deles: Correntino Paranaguá - prestimoso, atento aos deveres do coleguismo, educado, culto, presente em todas as solenidades acadêmicas.

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Tive a boa sorte, a sorte de habitar a sua amizade sincera e leal. Mantivemos correspondência. E dele merecia atitude que muito me confortou o espírito: a leitura destas páginas, escritas com o sentimento da verdade histórica e social, e sobremodo com o objetivo de rememorar a figura paterna, íntegra, humana, sensível ao sofrimento alheio, devotada ao bem público, temente a Deus, estudioso, capaz de sacrifícios, incansável trabalhador pela sua terra e pela sua gente.

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Joaquim Nogueira Paranaguá diplomou-se médico, fidelíssimo ao juramento da formatura. Utilizou-se da política partidária para a prática do civismo. Como administrador, de pequenos recursos materiais e tempo escasso, soube cumprir o dever. Teve luta admirável em favor da educação do homem - do homem que ele pretendia consciente e integral de virtudes. Escritor e cientista, pôs a serviço do povo os dons de privilegiada inteligência. Nunca esmoreceu para não desmerecer, como queria e ensinava Oswaldo Cruz. Nele se harmonizavam a força de vontade no espírito, o bom senso nas determinações, a honestidade nos princípios, a energia nos atos, a confiança em si mesmo, a fé em Deus. Filho, esposo e pai amantíssimo.

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Este trabalho de Correntino Paranaguá vale lições de história do sul do Piauí e das lutas da sua gente heróica. A narrativa acolhe desavenças partidárias, cangaço, cheiro de pólvora, também trabalho de liderança, esforço educacional, esperanças de novos tempos - e tudo aqui está fiel: a paisagem, os quadros da adolescência, a cidade pequena, os rios, os tipos humanos e seus caracteres, os episódios políticos, a face negativa de certos homens, os dramas da vida, a dor e a alegria, a coragem de ser forte, as árvores, os bichos, as lendas, o sol e a chuva, a doença, a crendice, a superstição - como se tudo fosse fotografado por um observador perspicaz, bem servido de vastos conhecimentos, dos estudos sociais e psicológicos, do modo sério de narrar a história e nela situar personagens e fatos memoráveis que a explicam e justificam.

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No autor, antes de mais nada o intérprete do passado remoto e do passado recente do Piauí. As figuras parecem vivas, tal o engenho com que são projetadas. E ressalte-se, como virtude de poucos, de raros até, a linguagem singela, bem conduzida, conveniente ao estilo do narrador de boa cepa.

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Em todo cenário do livro, no Piauí e noutras paisagens brasileiras, a gente sente a presença de Joaquim Nogueira Paranaguá, a beleza de suas lutas, os processo educacionais que o sensibilizaram, o seu feitio de querer bem ao semelhante, o seu apostolado - afinal o Homem, que soube servir, com amor verdadeiro, a família e a coletividade, obediente aos ditames de Deus.


A. Tito Filho, 25/05/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 13 de março de 2012

PADRE CHAVES

Monsenhor Joaquim Chaves, o Padre Chaves, como ele gosta de ser chamado, faz muitos anos que se dedica de corpo e alma a igreja do Amparo, a primeira de Teresina, a igreja de seu amor. Sacerdote virtuoso, coração de bondade e sentimento, venera-o a paisagem teresinense, a que ele tem doado o melhor de uma vida de trabalho espiritual intenso, rezando missa, batizando menino, casando noivos, confessando pecadores, confortando fiéis. Todos gostam das práticas religiosas que ele realiza, pois nelas gasta apenas os instantes preciosos, com o que exonera a gente da freguesia de demoradas cerimônias e predicas puxadas. Adota receita segura para não prejudicar a paciência do próximo, ao mesmo tempo em que se põe sempre solicito e amigo leal e correto, inexcedível no querer bem aos outros.

Ao lado da piedade, debruça-se sobre a pesquisa histórica, persistente, sustentado por capacidade de observar, e desse esforço surgiram escritos de valor, úteis, honestos, rico patrimônio para repasto dos estudiosos. O seu livro sobre Teresina, que se incorporou as festas comemorativas dos primeiros cem anos da cidade como documentário expressivo, lembra as fases iniciais da capital piauiense - as ruas, os cafés, os templos, as casas comerciais, o teatro, os furdunços carnavalescos, as manifestações religiosas, os episódios cívicos, o telegrafo, o barco de vapor, a higiene, a policia, as escolas, os passeios de cavalo - enfim o que ia nascendo, o que se ia criando, os passos inaugurais dos costumes e do progresso da comunidadezinha plantada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, o fundador, entre dois rios. E os forrós. E os serenos de baile. E a discurseira laudatória nos banquetes e bródios. Quantas cousas antigas, com cheiro de mofo, o bom Padre buscou em registros velhos e delas fez obra saborosa.

Neles o pesquisador preocupa-se sobretudo com a verdade e tem coragem de assentá-la e escrevê-la. As lições dos seus livros constituem fonte segura para conhecimento de variado aspecto da história do Piauí, que ele expõe e analisa com critério. Oferece estilo plástico, prosa ágil, sabe reviver o passado e os homens que o construíram, e faz crítica de forma imparcial e cuidadosa.

De mim, julgo-o historiador sereno, hábil, metódico, às vezes irreverente, apoiado sempre sobre invulgar capacidade de discernir e interpretar.

Teresina tem bons historiadores, como Pereira da Costa, Clodoaldo Freitas, Higina Cunha, para citar alguns mortos ilustres. Dos vivos muitos são os pesquisadores dos acontecimentos que se verificaram na cidade criada por José Antônio Saraiva.

O padre Chaves não se preocupou apenas com os episódios da vida histórica e política da cidade que tem o nome de gente nobre. Foi além, revelando, em livro curioso, aspectos sociais e pitorescos da cidadezinha tranqüila e afetiva. Antes dele, preocupado somente com os costumes do fim do século XIX, só Abdias Neves, num romance naturalista.

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Faz anos o padre Joaquim Chaves obteve o 1º lugar em concurso do governo do Estado, com a obra O PIAUÍ NAS LUTAS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, obra de estudo sério, em que se definem personalidades e episódios sinalizadores de patriotismo invulgar na conquista da autonomia de nossas instituições, que expulsaram as armas portuguesas do território piauiense - trabalho que pode figurar entre os que nos legaram Pereira da Costa, Odilon Nunes, Clodoaldo Freitas, Anísio Brito, Carlos Porto, Esmaragdo de Freitas, Abdias Neves, para citar alguns mortos, e Wilson Brandão, Pe. Cláudio Melo, Bugyja Britto, Camilo Filho, entre os vivos.

Fez 2ª edição da obra em 1975, agora revisada pelo autor, na exaustiva tarefa de nova redação, o que se conseguiu com a cooperação da Academia Piauiense de Letras, para esta 3ª edição, sob os auspícios da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, dirigida pela inteligência de João Cláudio.


A. Tito Filho, 14/03/1992, Jornal O Dia

sábado, 10 de março de 2012

INTERPRETAÇÃO

A partir de 1930, o Piauí, com os demais estados federativos, ingressou, até 1947, na era dos interventores federais, de modo geral escolhidos nas fileiras das Forças Armadas. Até músicas carnavalescas cantaram esses representantes do governo central, cujo chefe provisório se chamou Getúlio Vargas. Houve, entre as interventorias, ligeiro intervalo, de 1935 a 1937, quando se implantou a violenta ditadura getuliana.

Ainda não se escreveu a história do Piauí no período referido, senão em artigos jornalísticos ou de revistas e ainda em cronologias registradoras de fatos políticos, administrativos e sociais, se analise de cousas e conseqüências, salvo raríssimas exceções.

Quantos movimentos rebeldes depois da fase imperial? Vários, desde os tempos de Deodoro da Fonseca até o regime militar de 1964, de longa duração.

Seria exaustivo relacionar as lutas que se tem verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuraram pesquisar e interpretar. A grande Revolução Industrial do principio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. A máquina tornou-se responsável pela desorganização da família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto e derribou estruturas seculares, transformações que chegaram ao Brasil lentamente, em virtude da economia nacional como base exclusiva na agropecuária.

A abolição da escravatura promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, substituídos por outros de interesses idênticos, como o domínio das elites políticas e de clãs familiares. Não houve revoluções no Brasil, uma vez que persistem os desequilíbrios sociais, a fome, a miséria. Quantas falsas revoluções nacionais. Apenas rebeldias militares, como as de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945, 1964, sem que se procurasse anular a angustia do homem, ainda agora inconsciente de deveres e direitos.

Ainda não se escreveu a história do coronelismo e das oligarquias no Piauí, a história dos donos da gadaria e dos latifundiários da monocultura, dos chefes políticos fazedores de governos e de representações nas casas legislativas, proprietários dos cargos públicos e das benesses oficiais.

Na presente obra oportuna e valiosa, fixam-se de memória fatos e se procura analisá-los com justeza e seriedade, sobremaneira nos aspectos políticos e sociológicos. A interpretação torna-se fiel ao mesmo tempo sério documento histórico de lutas partidárias para manutenção do poder pessoal e oligárquico.

Professor, educador e político, estudioso de assuntos sociais, Raimundo Wall Ferraz analisa governos a partir de 1931, interventoria Landri Sales, que procurou destronar as oligarquias no Estado - e conseguiu. Em seguida, lembra o restabelecimento do poder oligárquico promovido por Leônidas Melo, em cuja administração se praticavam violências contra magistrados e se promoveram incêndios criminosos. Recorda os spolls system do governo Rocha Furtado, de perseguição incontroláveis contra adversários políticos, desorganizando a administração pública - e novamente as oligarquias vitoriosas aos governos Pedro Freitas Gayoso e Almendra. E prossegue com Chagas Rodrigues, progressista e lutador. Faz os retratos políticos de Petrônio Portela, Helvídio Nunes, Clímaco d'Almeida, Alberto Silva, Dirceu Arcoverde e anota-lhes as vitórias administrativas.

Coube-me a tarefa agradável de escrever estas linhas sobre o livro de Wall Ferraz, ex-vereador e ex-vice prefeito de Teresina, e prefeito da capital piauiense duas vezes. Político de irrecusável prestígio, não me compete realçar-lhe ou negar-lhe qualidades administrativas. Seria injusto, porém, esconder a notável reforma educacional do primeiro governo Alberto Silva, trabalho do autor como secretário da Educação, mas cujo nome ele não cita por imposição de modéstia e virtude pessoal.

Inteligência cultivada, Raimundo Wall Ferraz não demonstra nas páginas do livro odiosidades ou malquerenças. Leciona trechos da história do Piauí com a verdade. Testemunhou fatos e os interpretou em toda a plenitude. Conciso e preciso. Despreza pormenores enjoativos. Estilo simples. Linguagem asseada. Livro honesto, com a fixação dos caracteres humanos que participaram de longo período das lutas piauienses - cenário de paixões, de personalismos, de prestígio de clãs, com honrosas e raras exceções.


A. Tito Filho, 02/05/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

TIPOS

Teresina, ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1988, cento e trinta e seis anos de nascida, por mãos de José Antônio Saraiva, sob auspícios da bondosa imperatriz. A cidade está sendo homenageada, festejada, cantada em verso e elogiada em prosa. Uma centena de historiadores conta episódios, recorda coretos e pracinhas onde namoravam moças-donzelas. Nelas hoje habitam quase só DONZELOS. O baiano macho que CHANTOU a cidade na Chapada do Corisco, depois de derrubar a mataria de muitos bichos, está em todos os jornais. A seu lado trabalhava um português inteligente, o João Isidoro, mestre-de-obras de competência proclamada.

Ninguém recordou os tipos populares da antigamente gostosa comunidade, os doidos-mansos, que faziam rir a meninada travessa e os maduros e os velhos.

Noutros tempos, existiu MARTINIANA, de alcunha CAPITOA, negrona corpulenta, voz forte, sempre disposta. Nasceu na primeira capital do Piauí. Em Teresina exercia a função de quitandeira. Contam que tinha atividade viril. Gostava de furdunço e fazia voz de homem para mulheres invertidas. Andava de enorme chapéu de palha de carnaúba na cabeça. No rebuliço de enorme corpulência, caminhava nas ruas tocando pandeiro e recitando quadrilhas que ela mesma fabricava.

Pelo começo do século houve o BALAIEIRO, católico desses de irmandade: Criou o velho CHUMAR, o mesmo que beber cachaça ou outro ingrediente de espírito. Gostava de sentar-se à porta de casa, tardezinha, a tocar viola desafinada. Tratava conhecidos e desconhecidos por MEU BEM e a todos pedia dinheiro para CHUMAR.

Outro foi Feliciano, o MAROMBA. Inteligente. Físico bonito. Rebentava rapadura na cabeça. Brincalhão. Zangado semelhava o capeta. Subia e descia rua com um caixãozinho de defunto debaixo do sovaco, em que, segundo afirmava, conduzia ANJO, menininho que morria bem cedo, sem pecado e sem batismo e tinha morada eterna num lugar chamado LIMBO.

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Relacionei os tipos populares que não conheci. Encontrei-os na crônica de jornais velhos. Quando me entendi nestes espaços de José Antônio Saraiva, a doidice mansa tinha outros representantes. Dondon era dono de jornal. Atacava gente graúda. Um dia os poderosos o puseram no hospício. Quando saiu, mais xingou os políticos e escreveu que passou dez dias no asilo, seis por conta do governo e quatro por sua conta. Vendia capim em lombo de jumento. Ensinou jegue a cumprir voz de comando: esquerda, direita e alto. Calçava alpargatas vistosas, oferecendo pelas vias públicas capim aos burros de Teresina. MARIA SAPATÃO deixou saudades. Nenhum parentesco tinha com o SAPATÃO de hoje em dia, pois assim chamada em virtude de usar sapatos enormes. Negra gorduchona, beiços imensos, dentes alvos, peitões caídos, barriguda e bunduda, enfeitava-se com um dilúvio de pulseiras ordinárias nos braços roliços, anéis nos dedos, até no polegar. Andando rua acima, rua abaixo, mostrava um toque de nobreza idiota. JAIME DOIDO tornou-se admirado porque rejeitava dinheiro. AVIÃO ainda não passou desta para pior morada. Põe caixa de papelão na cabeça e sai a enchê-la de quanta besteira apanha pelas calçadas. Imita velhos filmes de aviação: faz o ronco da aeronave e o acompanha de movimentos ondeados da mão direita espalmada. Imita o MOCINHO e mata os bandidos covardes. Perito em furtar peru no Natal.

Todos merecem homenagem de homens e mulheres, pesquisadores e historiadores, uns trezentos, neste aniversário da cidade que Saraiva idealizou e construiu. Homenagem dos presentes e dos pósteros. Davam espetáculo na via pública. De graça. Um deles prossegue nas representações. Atores mais talentosos do que os bons de juízo da Federativa República do Brasil.


A. Tito Filho, 31/01/1992, Jornal O Dia

FRANCISCO PORTELA

Oeiras, antiga capital da Capitania e da Província do Piauí, tem sido berço de homens célebres, cientistas, jornalistas, juristas, parlamentares, historiadores, romancistas, poetas, estadistas, ontem como hoje. Continua a sede cívica do Piauí, rica de tradições, do passado que orgulha e enobrece.

Em Oeiras, em 1833, nasceu Francisco Portela. Médico pela Faculdade do Rio de Janeiro, estabeleceu-se na cidade fluminense de Campos, onde clinicou muitos anos. Fundador e presidente do Instituto Médico. Primeiro governador do Estado do Rio de Janeiro nomeado por Deodoro da Fonseca. Acusado de conspiração em 1892, foi preso com a queda de Deodoro e a subida de Floriano Peixoto ao poder.

Portela redigiu o MONITOR CAMPISTA, preocupando-se com questões políticas, sociais e econômicas. Escreveu compêndio de Filosofia. Publicou trabalhos sobre contágio nas moléstias. Deputado federal em 1909, reeleito até 1912, quando renunciou e assumiu cadeira no Senado, vaga com a morte de Quintino Bocaiúva.

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Foram agitados os primeiros anos republicanos no Estado do Rio. A grande luta fixou-se com a denominação de REVOLUÇÃO PORTELA. Elementos exaltados pegaram em armas, concentrados em Parnaíba do Sul, onde levantaram quartel general com ramificações em vários municípios e forçaram a queda de governador Portela, o 88º chefe do Executivo fluminense.

Francisco Portela era filho de João Antônio Vaz Portela e Luíza Pereira de Carvalho. Foi vereador da Câmara de Campos e deputado da Assembléia Provincial fluminense.

A Assembléia Constituinte do Estado do Rio, a 11 de maio de 1891, elegeu-o como primeiro governador constitucional, renunciando ao mandato em virtude das lutas republicanas em que se envolveram Deodoro e Floriano.


A. Tito Filho, 09/05/1992, Jornal O Dia

CRIMINOLOGIA DAS MULTIDÕES

Elias de Oliveira e Silva nasceu na terra piauiense de Piripiri. Cultivou o soneto, quando moço - o soneto terno, voltado para a mulher nos seus atrativos físicos. Conheci-o em Fortaleza - elegante, cabeleira basta, olhos amortecidos de carcamano, inteligência ágil. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri. Argumentador seguro e culto. Palavra fácil, por vezes irônica. Grande estudioso de ciência penal. Escreveu valiosas obras jurídicas, discutindo impostos, intervenção federal nos Estados, crimes de incêndio e outras matérias. O livro que o colocou entre os mais conceituados no assunto chamou-se "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao direito criminal. Problema curioso e complexo o da multidão criminosa. Franceses e italianos lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil, mas lacunoso. O mais integro que conheço é o de Scipio Sighele, nomeado "A Multidão Criminosa".

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que outros escritores célebres procuraram revelar a psicologia das multidões, como d'Annunzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola mostrou-se real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

No meu entendimento, Sighele tem falhas que foram supridas por Elias. Certíssimo o conceito de multidão no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a Nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora provisoriamente, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, finalidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas ao inconsciente.

Esse recalque constitui o grande responsável pelo crime da multidão. Elias fez o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Certa vez observei que os recalques freudianos estão até nas manifestações dos campos de futebol, como nas arenas das touradas espanholas.

Grande jurista esse hoje esquecido Elias Oliveira e Silva. Talvez não o conheçam os universitários piauienses dos cursos jurídicos ministrados piauienses dos cursos jurídicos ministrados pela Universidade Federal do Piauí. O Piauí será sempre assim: despreza os talentosos homens de inteligência que aqui nasceram. Só os de fora prestam. Santo de casa não faz milagre.


A. Tito Filho, 14/01/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de março de 2012

DA COSTA

Muitos, dezenas, estudaram Da Costa e Silva nos seus aspectos clássicos, e simbolistas, parnasianistas, no seu lirismo e no seu sensualismo, estas cousas de que o vulgo pé-rapado, não entende, nem deve entender.

Quando Dirceu Arcoverde me convocou para escolher as poesias que figurassem nos painéis da praça Da Costa e Silva, em número de quinze, escolhi depressa as que inspiraram na terra e nas paisagens piauienses, nas atividades do homem, nos quadros da natureza e nos sentimentos que exprimissem tristeza ou alegria, e no rio de presença perene no coração do poeta. E desse tipo de poemas encontrei doze. Completei a exigência com os versos de Fé, Esperança e Caridade, que o zepovão não entende, e com os hinos do Piauí.

Gosto de Da Costa quando ele se lembra do seu vilarejo, Amarante, pois aí lhe decorem os brincos da infância irrequieta. Admirava-a nos encantos naturais e não a deslembrou da igrejinha branca nem do povo feliz - o povo "que ri das próprias mágoas".

Ninguém recordou com tanto realismo o conhecido engenho de madeira.

Noutros versos fixa o espetáculo cruel da derrubada da mata, o baque da árvore, cujo tronco reverdece com a chuva, como se fosse o protesto da vida renovada "a Queimada" condena a alma desnaturada do homem, a natureza a chorar, calada. Em "O Inverno" está a ressurreição da natureza, e o poeta anuncia o amor e a abastança. O soneto "Aboio" canta o sertão, a vaquejada, a ferra dos animais, a rês desgarrada. Noutra inspiração, invoca a balsa, "a embarcação simples e boa", como ele diz.

Longe do Piauí, no Recife, a saudade, a angústia. Lembra-se da mãe, do rio, dos friorentos dias do fim do inverno, e cria um dos mais lindos e tocantes sonetos na língua portuguesa, - a cantiga das águas soluçantes, o caburé com frio, os gemidos dos canaviais, as barbas do Parnaíba famoso, o mugido dos bois da terra distante. No poema a definição sem defeito da saudade que o tortura - o olhar de minha mãe rezando, asa de dor do pensamento.

Gosto de Da Costa quando ele canta o Piauí. Não o aprecio nas poesias em que segue os caminhos das apelidadas escolas literárias, que a gente entende depois de tomar lições de estética. Melhor compreender o grande amarantino por intermédio do indestrutível Freud.

Da Costa, nas noites recifenses, fugindo da saudade por via da bebida - "Álcool!" Para esquecer os tormentos da vida e cavar, sabe Deus, um tormento maior" - Da Costa continua o maior cantor da terra natal e o apaixonado do riozão, cujas águas, no mundo infantil, lhe plasmaram o espírito e lhe deram, como prêmio, a perenidade de gratidão dos seus conterrâneos.

A poesia nascida dos sofrimentos interiores do poeta permanece imorredoura. Bendita cidade do Recife, que fez o poeta chorar por dentro e oferecer ao Piauí a melhor poesia de todos os tempos.


A. Tito Filho, 23/01/1992, Jornal O Dia

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigos aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.


Clóvis morreu em 1944, manhãzinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.


A. Tito Filho, 10/01/1992, Jornal O Dia

domingo, 4 de março de 2012

O CRONISTA JOÃO ISIDORO

Chamou-se João Isidoro da Silva França, português de origem, braço forte de José Antônio Saraiva na construção de Teresina, a primeira cidade brasileira levantada em traçado geométrico, no chão da mata derrubada. As outras são Belo Horizonte, Goiânia e Brasília.

Teresina não nasceu espontaneamente, mas de modo artificial, prevendo-se as ruas e praças. Planta de João Isidoro. No Piauí, os núcleos populacionais tiveram inicio nas fazendas de criação de gado, junto às quais se erguia o templo religioso - e assim começou a futura capital do Piauí na Chapada do Corisco, um lugar de rebanhos bovinos. Faltava a Casa de Deus e o mestre-de-obras de Saraiva logo riscou a planta da igreja Nossa Senhora do Amparo, inspirando-se nas linhas das igrejas nordestinas.

João Isidoro fixou-se na Chapada do Corisco em 1850. Construiu três casas de palhas, uma para a sua residência, esquina da atual rua Rui Barbosa, na Praça Marechal Deodoro, e as outras duas no rumo da hoje rua Álvaro Mendes, destinadas ao corpo policial e aos trabalhadores. Lançou-se a pedra fundamental do templo católico a 25 de dezembro de 1850. Houve banquete. Muito foguetório. Ia nascer uma cidade. As mulheres usaram vestidos bonitos e se enfeitaram de jóias caras, pois já havia o soçaite da época.

O fabuloso João Isidoro, como disse dele o historiador Moyses Castelo Branco Filho, contou os festejos a José Antônio Saraiva, em carta, por esta forma: "Ao depois de uma missa do Senhor Vigário dita do meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da Comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila, tendo também acompanhado o Alferes do Destacamento as autoridades junto com alguns praças... e mais imensidade de povos  de fora, que aqui se ajuntou, toda esta brilhante companhia... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada e metendo o Senhor juiz de Direito na pedra solene duas moedas, uma de prata e outra de cobre, com o cunho do Império... o dito Sr. Juiz de Direito deu vivas a sua Majestade Imperial o Senhor D. Pedro Segundo e a S. Imperial Família e à Constituição do Império, e o Exmº Sr. Presidente da Província... e ao depois disto, deram-se três descargas à tropa de alegria".

Os convidados vieram da Vila do Poti, que hoje é o Poti Velho.

João Isidoro escreveria a primeira crônica social de Teresina.


A. Tito Filho, 26/01/1992, Jornal O Dia

sábado, 3 de março de 2012

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

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Meninote, chegava eu a Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

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Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

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Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

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Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo à outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

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Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

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Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

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Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 21/05/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 1 de março de 2012

ADELMAR ROCHA

Se vivo estivesse, Adelmar Soares da Rocha teria completado, a primeiro de janeiro de 1992, CEM ANOS de idade.

Nasceu em Aparecida, hoje Bertolínia (PI), a 1-1-1892. Pais: Bertolino Alves da Rocha. Faleceu no Rio de Janeiro (11-1-1973). Médico, trabalhou nos Estados do Maranhão, Piauí, São Paulo e Mato Grosso. Ingressou no Exército, como 2º tenente médico, em 1921, chegando ao generalato. Exerceu vários comandos, chefias e comissões. Diretor do Hospital Militar de Bagé (RS). Membro da Comissão Organizadora da filial da Cruz Vermelha de Campo Grande (MT). Diretor do Hospital de Campo Grande. Supervisor da Junta de Seleção do Contingente da Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial). Revolucionário em 1924, esteve exilado na Bolívia. Participou da Aliança Liberal (1930). Esteve fiel ao governo na revolução de são Paulo (1932). Deputado federal pelo Piauí em 1934 e no período de 1946 a 1951. Neste último mandato, como constituinte, apresentou emenda, transferindo as Fazendas Nacionais para o patrimônio do Piauí, com o nome de Fazendas Estaduais. Era detentor de várias condecorações por relevantes serviços prestados ao país. Conferencista culto, deixou numerosos trabalhos, de alto valor literário e histórico, entre os quais "Caxias como símbolo da grandeza militar da pátria e "Taunay". Grande orador parlamentar. Edgard Alfredo Guimarães: "... em cada um dos seus poemas palpitam, sonoras e emocionais, as vibrações dos seus nervos...". Remígio Fernandes: "... a arte foi a preocupação dominante, preocupação que se fez amargura e obsessão".

O acadêmico Edgard Nogueira, em 1973, no discurso de posse na Casa de Lucídio Freitas, escreveu esta notável opinião sobre o poeta: "... cantor da solidão, dos quadros da natureza, da infância, das paisagens, de Deus, da família; e de suas desilusões da vida, aquí e alí impregnado de sensualidade - triste quase sempre, quase sempre revoltado, buscando consolo nas flores, na esperança, no luar, nos astros e nos sonhos, na luz, no amor".


A. Tito Filho, 04/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OS CEM ANOS

Neste mês de dezembro, Edison da Paz Cunha, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, se vivo fosse, completaria cem anos de idade.

Nasceu em Teresina, a 15 de dezembro de 1881. Pais: Higino Cunha e Corina da Paz Cunha. Bacharel em Direito pela Faculdade do Recife (1912). Oficial de gabinete do governador Eurípedes de Aguiar. Diretor da Imprensa Oficial. Promotor Público. Em Parnaíba, onde passou a residir e faleceu em 1973, tornou-se notável advogado e mestre acatado da juventude.

Jornalista, jurista e conferencista. Escreveu ele sobre a própria personalidade: "Prosador e conferencista para estudantes, em estilo didático, adquirido no longo exercício do magistério. Não é poeta, mas nas horas vagas, faz versos quase maus, como diria o senhor Esmaragdo de Freitas".

Deixou os seguintes trabalhos: "Vozes Imortais" (crítica sobre membros da Academia Piauiense de Letras, vivos e mortos), "Correspondência para você", "Discurso na abertura do ano letivo do Ginásio Parnaibano" (1935) e "Razões Finais", em colaboração (estudo jurídico).

Sucedendo a Edison Cunha na Casa de Lucídio Freitas, o escritor J. Miguel de Matos definiu-lhe, como de grandeza a atividade intelectual e literária - versátil e poderosa de jornalista, de escritor, de advogado, de filósofo e de poeta.

A respeito de "Vozes Imortais" (Crestomatia da Academia Piauiense de Letras) escreveu Martins Napoleão: "Nesse trabalho de compilação e crítica, e inteligência vivacíssima do senhor Edison Cunha, sempre ao melhor serviço da Literatura, do Magistério e da Advocacia, resume exemplares de vinte e cinco anos de atividade intelectual dos titulares da APL, contribuindo, assim, e com esforço digno de louvor e estímulo, a comemorar o cumprimento do primeiro quarto de século de sua fundação, ocorrido em 30 de dezembro de 1942".

"Título e subtítulo da obra, em que se estão a trair, de uma vez, o beletrista, o professor e o advogado, bem cedo lhe revelam a intenção e objetivos: naquele - a capacidade de admirar, que distingue o homem de talento, cultuando a memória dos companheiros, através de suas produções escolhidas; nesse - a preocupação de ser útil aos outros homens, tão evidente no sentido da palavra crestomatia".

E adiante:

"O senhor Edison Cunha andou bem avisado em não querer cifrar-se a simples nótulas biográficas dos nossos acadêmicos, seguindo Humberto de Campos em relação aos seus ilustres consórcios: aduziu apreciações críticas que, sucintas e nervosas, ganham em intensidade, em interesse e em brilho, verdadeiros retratos em traços esquemáticos, vivos e impressionantes".


A. Tito Filho, 03/01/1992, Jornal O Dia