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segunda-feira, 2 de abril de 2012

ARTE

As comunidades humanas de vez em quando padecem provocações, que resultam de cousas diversas - crimes, intempéries da natureza, epidemias, atitudes passionais dos grandes ajuntamentos humanos, imprevidência das pessoas ou dos governos e outros. Teresina tem sofrido também, no curso de sua história, dias aflitivos e penosos.

Em 1875 houve o pânico, tempo em que a varíola matava por todos os recantos da cidade, que ocupava apenas a parte plana da margem do rio Parnaíba. Frei Serafim de Catânia tornou-se o piedoso confortador dos padecentes: "Jamais recuou da porta do pestoso, simples trapo de carnes podres, caindo aos pedaços, sem feições reconhecíveis, momento terrível de miséria humana. Esse quadro, muitas vezes renovado, não o abateu durante longas jornadas a qualquer hora do dia ou da noite. Ao ouvido dos desgraçados, sem desfalecimentos nem tardanças, trazia a paz da consolação suprema" - assim escreveu o ilustre Elias Martins. Dois anos depois da varíola, a seca de 77. Centenas de retirantes chegavam ao Piauí, vindos do Ceará. E para o Piauí não tardou a penúria, fome, a morte. Teresina abrigou multidão de exaustos e doentes.

As cheias formidáveis dos dois rios que banham a cidade, de tempos em tempos inundam habitações, sobretudo as choupanas da pobreza sofredora - e desabrigadas sem conta permanecem até que as águas baixem e seja possível reaver as chocas miseráveis ou o levantamento de novas.

O cerco da Coluna Prestes, entre 1925 e 1926, vinda pelo sul do Estado, fez que grande parte da população, espavorida, abandonasse a cidade e tomasse os caminhos do norte, por medo da fuzilaria ensurdecedora e perigosa.

Os acontecimentos iniciais em 1943 correspondem, porém, a cenas dantescas e tragédias gregas, tantas as violências contra pobres pessoas se provocaram, promovidas por agentes policiais. Era o governo do médico Leônidas Melo, que, interventor federal no Piauí, em virtude de certos atos contra direitos alheios, conquistou sérias inimizades políticas. Vigorava a ditadura e os jornais sofriam censura prévia. A chefia de Polícia estava sob as ordens do coronel Evilásio Gonçalves Vilanova. Foi o tempo dos terríveis incêndios de casebres de palha de Teresina. Comunicavam-se por bilhetes o dia e a hora em que as labaredas subiam aos céus na queima da casa escolhida - e os moradores a abandonavam, e no exato momento do aviso as línguas de fogo consumiam tudo, teto e paredes, e os trastes da vida diária.

Desespero e choro. Nada se salvava, tudo se transformava em cinza, os cacos da cozinha e os farrapos de pano da dormida e do coro.

Os elementos de oposição culpavam as autoridades, desejosas de acabar com as choupanas de palha da capital, feias e miseráveis, ou o governo atribuía o crime aos adversários para puni-los severamente na qualidade de incendiários. Pensava-se também na existência de indivíduos, piromaníacos para a satisfação da mórbida personalidade. Chegou-se a acusar da hediondez o próprio chefe de Polícia, por intermédio de policiais de confiança com a intenção ambiciosa de derribar o interventor federal e assumir o comando da administração. As rodas oficiais consideravam mandantes das queimações o médico José Cândido Ferraz, que despontava como o mais afoito elemento contra o governo ditatorial na política piauiense.

Alta noite homens humildes, presos pela polícia e acusados de autoria, nas clareiras da mata de Teresina rumo de Morrinhos, eram submetidos a torturas intensas e impiedosas. Contam que alguns morreram.

Do Rio de Janeiro veio delegado especial para as investigações - e apesar de trabalho exaustivo e bem orientado e das suspeitas levantadas, não se chegou a nenhuma conclusão definitiva.

Vitor Gonçalves Neto fixou tenebrosos aspectos dos incêndios que afligiram a pacata comunidade teresinense desses dias de luta e de lágrimas. O talento de escritores, como ele, sabe explorar essas tragédias e revelar-lhe os cenários e as vítimas da forma que as reproduzissem em toda a eloqüência da sua crueza. Vítor utilizou-se da verdadeira arte popular, e à sociedade de hoje, já distante dos trágicos dias passados, transmitiu a força dum sentimento coletivo para os deveres das grandes solidariedades nas dores que o homem tem padecido em todos os tempos da humanidade.


A. Tito Filho, 18/01/1992, Jornal O Dia

CIVILIZAÇÃO X NATUREZA

Cavalos beirando o rio, ramagem de salça-do-campo e muçambê, borboletas, pássaros cantando...

Essa paisagem bucólica, contrastada apenas pelas águas sujas e o lixo, situada no trecho mais fétido do Riacho Mocha, entre as duas pontes, foi varrida do mapa.

A causa não foi uma enchente. Não foi um incêndio. Foi uma obra do governo municipal.

A obra é a galeria-esgoto, construída no ano passado. Uma obra antiecológica e cara.

Com a galeria o leito do riacho foi retificado, isto é, seu curso natural foi alterado e nele construído um canal primário de aproximadamente 400 metros. O leito foi calçado com pedras e cimento. Em ambos os lados do canal, duas pistas de piçarra. Nenhuma árvore foi plantada.

Com a galeria-esgoto, o verde que restava na área deu lugar ao cinza. O Sr. Chiquesa Dantas, proprietário do pequeno terreno na área, também deu sua contribuição: mandou cortar as mangueiras que restavam, em pleno Dia Mundial do Meio Ambiente.

Aquela área do Mocha merecia uma intervenção, e esta veio, só que de maneira equivocada. Ao invés de recuperar as margens - que protegem qualquer curso d'água - a obra acabou de destruí-las. E o pior: não resolveu o problema de saneamento. O lixo continua sendo jogado na área, os esgotos continuam escoando para o Mocha, sem nenhum tratamento.

Além de antiecológica e cara, a galeria-esgoto é uma obra feita sem nenhuma preocupação estética. É uma curva larga, deserta, cinza que destruiu a vegetação que restava e anulou os lajedos e os arcos da Ponte Velha.

Isso nos remete a um problema de linguagem muito sério. Como se sabe, os objetos e as coisas não existem somente em si mesmos. Eles constituem signos de linguagem. Como linguagem, a galeria-esgoto é uma obra negativa, não estimula nenhuma espécie de pensamento agradável.

Como reagiu a comunidade diante do tal fato? Em parte com indiferença. Em parte, dando total apoio. Não houve discussão ou questionamento. Nenhum educador ou "representante do povo" se manifestou. não houve protestos, nem mesmo da juventude ou dos estudantes. Isso demonstra o conformismo generalizado e a falta de opiniões independentes em Oeiras.

E vem mais coisa por aí. A Prefeitura já anunciou oficialmente que tem projeto de "retificação" de Riacho Pouca Vergonha. A faixa do Mocha, entre a Ponte Velha e o Poço dos Cavalos, também não está a salvo do "progresso".

Muita gente (ainda) acha que o Mocha deve ser preservado por causa de sua propalada "importância histórica". Mas um riacho deve ser conservado e limpo por ser curso d'água, pois a água é fonte de VIDA, e não por causa das esperas dos primeiros colonizadores piauienses.

O problema do Mocha e do Pouca Vergonha já foi objeto de alguns debates públicos e protestos. Boas alternativas já foram apresentadas, mas nem a comunidade e nem qualquer das administrações públicas fez qualquer tentativa séria pra solucionar o caso.

Se existir solução, não acreditamos que ela se encontre em projetos feitos em gabinetes que não vêem a luz do sol. No nosso modo de entender, não há necessidade de obras gigantescas, elas custam os olhos da cara, o tempo dos faraós já passou. não é tamanho nem a quantidade que resolvem, mas talvez a qualidade.

Seria leviano botar a culpa dos problemas ambientais de Oeiras exclusivamente no governo. Isso fica para os pobres de argumento. A verdade é que toda a sociedade está enferma. Essa enfermidade é muito mais evidente no Ocidente e sua deturpada idéia de progresso.

O distanciamento da natureza e a destruição do espaço vital é um fenômeno generalizado nos países capitalistas e de tradição judaico-cristã que vêem na natureza uma mera fonte de recursos econômicos.

Mocha, Pouca Vergonha, Amazônia, usinas nucleares, armas atômicas viajam no mesmo barco. No mesmo barco em que viajam escolas, partidos políticos, religião, fome, índios, menores abandonados, eleições presidenciais, capitalismo selvagem...

A poluição do Riacho Mocha e de Pouco vergonha e a destruição das suas margens é resultado de um processo histórico iniciado com a chegada do primeiro colonizador português em terras piauienses. É resultado principalmente do modo de viver dos oeirenses. Quem tiver alguma dúvida, basta olhar em volta. Ou para o próprio corpo.

Este comentário pertence ao brilhante oeirense Rogério Newton.


A. Tito Filho, 04/06/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 30 de março de 2012

RESTAURANTES

Não encontrei notícia do primeiro restaurante de Teresina. Anotei reclame de jornal que oferecia os préstimos do Hotel Teresinense, em 1875, ao público: bifes e carne assada, no almoço: sopa, carne cozida e assada no jantar. Pratos abarrotados. Comia-se até fartar. Li, em jornal do anos seguinte, sobre o estabelecimento de José Pico, com o nome de CASA DO PASTO - e ele era vaidoso da sua tenda de comedoria: anunciava comidas italianas, francesas, portuguesas e inglesas. Aos domingos, PANELADAS DE MOCOTÓS.

Quando vim de Barras, terra boa do Piauí, lugar do meu nascimento, para Teresina, acompanhando o pai e a madrasta, filho único que eu era, - a família alugou casa na rua da Glória (Lisandro Nogueira), mas depressa se arrumaram os trens e deu-se a muda para a rua São José (Félix Pacheco). Nos dias dominicais, o saudoso genitor me mandava ao Bar Carvalho, o mais freqüentado da cidade - café, sorvete, chocolate, refrescos, no amplo salão de frente para a Praça Rio Branco; por trás outra sala espaçosa, em que se alinhavam as mesas para o almoço e o jantar. Que comida! Zecão, o popularíssimo proprietário, contratou cozinheiro espanhol, o Gumercindo, cheio de banhas, o criador de um prato que dava água na boca, pois o cheiro bom da iguaria obrigava as papilas gustativas a extraordinário funcionamento - o filé de grelha, feito na chapa do fogão, e o mestre cuca o enfeitava com duas azeitonas, um pouco de alface, farofa e umas vinte ervilhas.

Lá ia eu, a carregar marmitas, buscar a bóia do domingo, no Bar Carvalho. Meu pai dava folga à competente e carnuda cabocla cozinheira no dia do Senhor. Na mercearia defronte da residência, do português José Gonçalves Gomes, completava-se o almoço com a gostosa sardinha de Portugal.

Conheci o restaurante do DOUTOR, especialista em mão-de-vaca e panelada. De segunda classe. refeição apetitosa, que o freguês carregava de pimenta malagueta de soprar o vento. Alguns cachorros vadios aguardavam, olhos pedintes, o osso que os mal-educados atiravam ao chão, depois de limpá-los, como roedores.

Na década de 40, Pedro Quirino fundou o RESTAURANTE ACADÊMICO, com freguesia de operários e doutores. Comida boa, barata, limpa, elogiada.

Nesses bons tempos comer representava um gesto de sabedoria. Comer desofisticadamente. Comer sem tinturas, comer sem estrangeirice, comer sem bebida de refrigerantes engarrafados, nisto vale sabedoria. Sabedoria de vida.

Teresina ingressou na ERA dos acepipes sem graça e sem gosto. Paga-se o luxo, a gorjeta gorda, a notícia no jornal. Refeições melosas, coloridas, de preço sem peias. Naqueles velhos tempos, o garçom punha o prato de arroz e o escolhido no cardápio defronte do cliente e este ficava a vontade, usando os pirões da forma que lhe aprouvesse. De algum tempo a esta data, o empregado comanda o modo de servir - e de colheres, treinado, vai botando em escolhidos espaços do prato uma porçãozinha de cada cousa que compõe o raquítico almoço ou jantar de gente de dinheiro fácil. Existem pratos do universo internacional, mais caros e mais intragáveis.

Restaurantes dos velhos tempos da Teresina de dinheiro pouco, dinheiro de pé-de-meia, - da Teresina do Manuel Português, que vendia empada, e uma só punha o sujeito de barriga cheia, sem necessidade de almoço ou jantar. Empada sadia, que dispensava o óleo de rícino para limpar as tripas.

O que passou, passou - verdade estabelecida por Gervantes no tempo em que os homens escreviam para a eternidade.


A. Tito Filho, 26-27/04/1992, Jornal O Dia

POMBAIS

José Eduardo Pereira, inteligente e culto, jornalista arguto e atualizado, tratou, nesta página, faz dois ou três dias, dos conjuntos habitacionais de Teresina, e trouxe à baila angustiantes problemas relacionados com a cidade. Um sobre quem administra a capital do Piauí, o outro a respeito das casinholas que uma multimilionária companhia de habitação constrói para auferir lucros inacreditáveis à custa da perversidade com os pobres. Parece que se trata de órgão de banqueiros nacionais ou financiadoras internacionais. Não sei.

No começo do século um bom governador fez o abastecimento dágua canalizada de Teresina, e outro, Miguel Rosa, inaugurou a luz elétrica, conquistas que ainda hoje permanecem com o Estado. A raquítica rede de esgotos de algumas ruas centrais foi obra estadual.

No caso da construção de obras, os governadores bem que poderiam efetuar as derribadas dos prédios antigos, mas submeter as novas construções a rigorosa obediência de normas urbanísticas, e assim também relativamente às modificações nas cousas públicas.

Veio abaixo o prédio em que se abrigam várias repartições e no lugar se quis levantar o centro administrativo do Piauí.  O esqueleto monumental, por falta de dinheiro, foi vendido, e no lugar se encontra o espigão do Ministério da Fazenda, quebrando-se o alinhamento da rua Rui Barbosa. Liquidou-se a praça Pedro II, tão bonita, de muitas recordações espirituais, e no lugar se estabeleceu grande concentração de prostitutas, alcoólatras, veados, viciados em droga e pivetes. A quem cabe a nova feição? Ao governo estadual. Outro governador pôs por terra a velha penitenciária e construiu o vaidoso Verdão, depois que se inutilizou o trânsito em ruas da cidade. Antes, houve o governante que mandou construir um prédio no meio da praça Demóstenes Avelino, e o espalhafato horroroso continua lá, agora de propriedade particular, e nele, no prédio, se vendem carnes, bofes, vísceras, cabeças de porco, peixes e outros produtos, espalhando-se fedentina por todos os arredores.

São inúmeros os exemplos nocivos. Ninguém sabe quem administra a cidade. Antigamente essas práticas aberrantes constituíram crime contra o patrimônio popular.

Observe-se o caso desses conjuntos habitacionais em que residem os humildes párias de Teresina e os milhares que, vindos do interior, foge ao tristissimo quadro da zona rural e das comunidadezinhas mortas, cada vez mais pobres e sem condições de vida. Nessas centenas de casinholas, todas do mesmo jeito, se alojam famílias de cinco, seis ou mais pessoas. Com pouco tempo esses POMBAIS passam a favelas e se enriquecem de biroscas, prostibulos, freges, botecos, bocas-de-fumo e crimes. Meninas que ainda não menstruam já constituem raparigagem. Os últimos tipos residenciais receberam o nome de EMBRIÃO, constituídos de saleta, quarto e banheiro. Só. Nessas residências os casais só se relacionam sexualmente depois da última novela, quando a filharada consegue dormir. Se um menino ou menina acorda arregala os olhos na presença do espetáculo dos pais pelados.

Esses conjuntos habitacionais são feios, casas emendadas uma nas outras. Alguns felizardos ganham fortuna na venda de terrenos para que nestes se levantem esses prediozitos que ofendem a dignidade de todos os enteados de Deus, filhos da injustiça dos homens maus, os banqueiros, e dos políticos de boa fé, que apenas agravam problemas comunitários.


A. Tito Filho, 11/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 28 de março de 2012

COMADRE PULU

Este ano de 88 passei a Semana Santa em casa, na leitura leve de revistas e de boas piadas do barão de Itararé, que eu conheci no Rio de Janeiro, famoso e querido. Também vi na televisão e meditei.

Na quarta-feira, boca da noite, minha comadre Pulu, batizada Pulquéria, ainda apetecível, pesar dos seis molecotes que já botou no mundo, me apareceu para requerer de meus magros bolsos o respectivo jejum. Dei-lhe um pedaço de bacalhau do lado do rabo, sardinha, macarrão, feijão, doce, uns trocados para os temperos e o transporte nos luxuosos ônibus da cidade. Perguntei pelo Bitonho, marido dela. O caboclo obteve licença na penitenciária para repouso religioso em casa.

Minha boa comadre nunca pôde passar a Semana Santa na praia, comendo peixe e bebendo uísque, os casais alegres, mas sem a lembrança de Deus, comem e bebem que adoecem, buscam os especialistas para cura dos andaços, que eles chamam disenteria.

O mundo está assim mesmo - disse eu à mãe do meu afilhado Toinho, já um pouco taludo, o mais velho dos dois filhos, que sonha com um emprego público, sem concurso e sem trabalho - o mundo está dividido entre os que deglutem bacalhoadas no repuxo do uísque e os que comem piabinhas fritas do rio Parnaíba, empurradas com boa cana.

Os programas de televisão estavam normais ainda na sexta-feira, morte de Cristo, que veio ao mundo para salvar as mulheres e os homens. Deus na Bíblia teve a desobediência da esperta Eva comendo a maça de que ela provou e gostou e deu-a, safada, a Adão. Aí Deus mandou Jesus habitar na terra - e Judas praticou a canalhice. Mulher e homem são, como se vê, farinha do mesmo saco, aquela engana Deus, este traiu Jesus.

Meditei em tudo. Na quaresma dos bons tempos, os sermões nas igrejas, o pano rôxo cobrindo santo e santas. As procissões silenciosas, as donas ricas vestidas de seda preta, as pobres com os mulambos tingidos de luto. Os anjinhos de asas as vestidoras de anjos, solteironas narigudas. Velhotas tabaquentes, cheirando a rapé. Havia o pessoal das irmandades religiosas, metidos na opa. Lembro-me do Zé Pindoba acompanhando o andor, cabeça baixa, como que arrependido das safadezas praticadas na sua quitanda de secos e molhados. A matraca de vez em quando convocava atenções, com as batidas fortes e espantadoras. Bons tempos.

Recordei estas cousas antigas, bonitas, e minha comadre Pulu me ajudou nas lembranças. Em casa, caminhava-se devagar, falava-se baixo ninguém ria. Não se deixava varrer casa em que pessoa alguma tomasse banho. Raros jejuavam de verdade. Comia-se muito, peixe, bacalhau, maxixe, jerimum, canjica e as inesquecíveis frigideiras. As beatas, sim, quase nada engoliam. Minha tia Iaiá, que Deus a tenha no seu reino, passava a sexta-feira santa de preto, ajoelhada horas seguidas, rezando terços, sem nada na barriga.

Comadre Pulu despediu-se, deu-me quebra-costelas demorado, pediu que a visitasse no casebre. Comunicou-me a notícia do almoção que ia preparar na quinta e na sexta-feira. Estava enjoada de jejuar o ano todo. Só escapava da fome nos dias maiores da Semana Santa, pelas boas graças do comadre caridoso. Ainda pretendia comprar, com os cobres que lhe dei, uma cachacinha para ajudar no apetite.

Gosto de minha comadre Pulu. conformado. Temente a Deus. Cozinha bem, embora, em casa, pouco acenda fogo, salvo o próprio. Vive de lavações e gomações de roupa de gente rica - aquela gente das mansões e das festanças à custa dos papagaios bancários e da inflação desnaturada e perversa.


A. Tito Filho, 16/04/1992, Jornal O Dia

domingo, 25 de março de 2012

LICENCIOSIDADE

Hoje pretendi escrever o segundo estudo sobre CINESÍFORO, mas surgiu assunto oportuno merecedor de censuras, ligado ao carnaval teresinense, permitido pela polícia e por outras autoridades conceituadas.

O carnaval sempre foi uma festa de alegria, de entusiasmo, de danças, requebros, fantasias e máscaras. Anos atrás, sobretudo o elemento masculino, vestia trajes espalhafatosos, usava bisnagas, pó-de-arroz e desfilava pelas ruas, numa animação que dava gosto presenciar a folia. Havia o corso de automóveis pelas vias públicas, dando mais vibração aos dias do reinado de momo. Antigamente quando se encerravam os festejos de rua, com os participantes cansados de pulos e danças e a cachaça já produzia os efeitos da embriaguez, a cidade parecia dormir. Ledo engano. Iniciavam-se as noites maravilhosas nos clubes sociais, festejos internos que alcançavam as madrugadas, sem excessos perniciosos e condenáveis.

Chegariam os novos tempos revelados pela televisão e desta copiados. Transformou-se a moral. A família acompanhou a depravação dos costumes. Desnudou-se a mulher. No Rio os bailes internos mostram cenas de sexo e embriaguez de sentidos condenáveis, sem que a polícia e a justiça adotem providências proibitivas desse festim ignóbil. Homossexuais promovem bailes com líquido e certo direito, transmitidos para todo Brasil, como espetáculo de opulência em fantasias e beleza dos que as vestem.

O famoso carnaval de rua está desaparecendo da cena carioca. O de Teresina, outrora divertido, também se acaba de ano a ano. Até umas horríveis escolas de samba, sem graça, com algumas fêmeas peladas, foi-se na vorage dos novos tempos, com a desculpa de que as autoridades não fornecem dinheiro para a patuscada. Em Teresina nunca os cofres públicos financiaram folia carnavalesca. De certo tempo para cá aprendeu-se a sapiente modalidade de pinotar e beber cachaça por conta dos cofres públicos.

X   X   X

Passemos ao que interessa. Sábado, dia que se convenciou como do Zé-Pereira, centenas de indivíduos, machacás, meninotes, mal vestidos, de pouco ou nenhuma educação para a convivência, e balzaquianas na casa dos 30 ou mais, garotas, meninotas, umas de saia tão curta que a calcinha aparecia, promoveram a grande farra no BECO DO PRAZER, localizado ao lado do convento de São Francisco e em frente da Igreja de São Benedito. Cachaça aos barris. Danças mambembes, tocadas pela embriaguez geral dos participantes. Gargalhadas. No local não existem sanitários, de forma que as necessidades de homens e mulheres se efetuavam ali mesmo.

Desrespeito inominável aprovado pelas autoridades. Os humildes frades não puderam dormir. Os fiéis católicos fugiram indignados do tempo tão venerado pelos teresinenses.

Há uma lei do silêncio que ninguém respeita. Há um afrontoso desrespeito a uma casa religiosa que ninguém proíbe.

Sempre escrevi que Teresina semelha uma cidade sem compostura, entregue à molecagem e ao desenfreio dos deseducados.


A. Tito Filho, 27/02/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de março de 2012

A PRAÇA E O PARQUE

O mestre-de-obras João Isidoro da Silva França, escolhido por José Antônio Saraiva, encarregou-se da construção da igreja do Amparo e para dirigir os trabalhos construiu casa de palha, de três divisões - uma de residência, outra dos soldados, a última dos escravos. A primeira situava-se na esquina do grande largo, onde se encontra hoje o Banco do Nordeste, seguida das demais, no rumo da rua que agora se denomina Álvaro Mendes. Na praça enorme ficariam os principais prédios públicos.

Partindo-se da igreja do Amparo, no rumo do Parnaíba dava-se sensível abaixamento do nível do terreno, e em virtude de tal circunstância o povo chamava a parte do logradouro de bacia - local em que, durante muitos anos, se armavam os bons e inesquecíveis circos visitantes, em que os molecotes do seu tope gostavam de passear em bicicletas alugadas e em que as alunas da Escola Normal faz mais de 40 anos, praticavam educação física.

Diz-se que Saraiva tinha hospedagem na casa de João Isidoro e nela assinou alguns papéis oficiais. Se verdadeiro o fato, o segundo palácio do Governo situou-se no lugar da Justiça Federal, até 1856, quando passou ao edifício do atual Museu do Piauí.

Nesse bonito e comprido largo foram construídos o antigo Tribunal de Justiça, o Departamento da Fazenda, o Teatro Santa, a Escola Normal, além de outras repartições.

Chamavam ao logradouro inicialmente Largo do Palácio. Passou a Praça da constituição. Ao depois, Praça Marechal Deodoro, nome dos dias que correm.

Muitos confundem a Praça Marechal Deodoro com o Parque da Bandeira - mas este foi criação do prefeito Lindolfo Monteiro, no tempo do Governo Leônidas Melo, em 1941. O governante da cidade arborizou certa área do terreno, adquiriu pássaros de linda plumagem e alguns bichos, colocou-os em viveiros e alojamentos próprios. Cercou todo de arame farpado. Com a vitória da oposição a Leônidas, em 1947, os partidários da UDN triunfante - segundo contam - carregaram quase toda a passarada e bicharada e a totalidade do arame, modesto prêmio aos vencedores.

Recompôs-se o Parque - outros pássaros e outros bichos novamente participavam da curiosidade dos visitantes. Deu-se, porém, reforma total do belo patrimônio de Teresina. Retiraram-se os animais bípedes e os quadrúpedes. Em redor das plantações, grades imponentes. Local de aprazível lazer, parece-me obra do ex-prefeito Joel Ribeiro, no primeiro Governo Alberto Silva.

Não se confundam as cousas. Existe Praça Marechal Deodoro e existe Parque da Bandeira. Este fica situado naquela, melhor dizendo: o Parque faz parte da Praça. Caracterizando-se: o Parque é a parte cercada da Praça.


A. Tito Filho, 13/02/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

TIPOS

Teresina, ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1988, cento e trinta e seis anos de nascida, por mãos de José Antônio Saraiva, sob auspícios da bondosa imperatriz. A cidade está sendo homenageada, festejada, cantada em verso e elogiada em prosa. Uma centena de historiadores conta episódios, recorda coretos e pracinhas onde namoravam moças-donzelas. Nelas hoje habitam quase só DONZELOS. O baiano macho que CHANTOU a cidade na Chapada do Corisco, depois de derrubar a mataria de muitos bichos, está em todos os jornais. A seu lado trabalhava um português inteligente, o João Isidoro, mestre-de-obras de competência proclamada.

Ninguém recordou os tipos populares da antigamente gostosa comunidade, os doidos-mansos, que faziam rir a meninada travessa e os maduros e os velhos.

Noutros tempos, existiu MARTINIANA, de alcunha CAPITOA, negrona corpulenta, voz forte, sempre disposta. Nasceu na primeira capital do Piauí. Em Teresina exercia a função de quitandeira. Contam que tinha atividade viril. Gostava de furdunço e fazia voz de homem para mulheres invertidas. Andava de enorme chapéu de palha de carnaúba na cabeça. No rebuliço de enorme corpulência, caminhava nas ruas tocando pandeiro e recitando quadrilhas que ela mesma fabricava.

Pelo começo do século houve o BALAIEIRO, católico desses de irmandade: Criou o velho CHUMAR, o mesmo que beber cachaça ou outro ingrediente de espírito. Gostava de sentar-se à porta de casa, tardezinha, a tocar viola desafinada. Tratava conhecidos e desconhecidos por MEU BEM e a todos pedia dinheiro para CHUMAR.

Outro foi Feliciano, o MAROMBA. Inteligente. Físico bonito. Rebentava rapadura na cabeça. Brincalhão. Zangado semelhava o capeta. Subia e descia rua com um caixãozinho de defunto debaixo do sovaco, em que, segundo afirmava, conduzia ANJO, menininho que morria bem cedo, sem pecado e sem batismo e tinha morada eterna num lugar chamado LIMBO.

*   *   *

Relacionei os tipos populares que não conheci. Encontrei-os na crônica de jornais velhos. Quando me entendi nestes espaços de José Antônio Saraiva, a doidice mansa tinha outros representantes. Dondon era dono de jornal. Atacava gente graúda. Um dia os poderosos o puseram no hospício. Quando saiu, mais xingou os políticos e escreveu que passou dez dias no asilo, seis por conta do governo e quatro por sua conta. Vendia capim em lombo de jumento. Ensinou jegue a cumprir voz de comando: esquerda, direita e alto. Calçava alpargatas vistosas, oferecendo pelas vias públicas capim aos burros de Teresina. MARIA SAPATÃO deixou saudades. Nenhum parentesco tinha com o SAPATÃO de hoje em dia, pois assim chamada em virtude de usar sapatos enormes. Negra gorduchona, beiços imensos, dentes alvos, peitões caídos, barriguda e bunduda, enfeitava-se com um dilúvio de pulseiras ordinárias nos braços roliços, anéis nos dedos, até no polegar. Andando rua acima, rua abaixo, mostrava um toque de nobreza idiota. JAIME DOIDO tornou-se admirado porque rejeitava dinheiro. AVIÃO ainda não passou desta para pior morada. Põe caixa de papelão na cabeça e sai a enchê-la de quanta besteira apanha pelas calçadas. Imita velhos filmes de aviação: faz o ronco da aeronave e o acompanha de movimentos ondeados da mão direita espalmada. Imita o MOCINHO e mata os bandidos covardes. Perito em furtar peru no Natal.

Todos merecem homenagem de homens e mulheres, pesquisadores e historiadores, uns trezentos, neste aniversário da cidade que Saraiva idealizou e construiu. Homenagem dos presentes e dos pósteros. Davam espetáculo na via pública. De graça. Um deles prossegue nas representações. Atores mais talentosos do que os bons de juízo da Federativa República do Brasil.


A. Tito Filho, 31/01/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 5 de março de 2012

ANTIGUIDADES

A história de Teresina guarda muita cousas pitorescas e inesquecíveis. Abaixo se relacionam algumas.

PIPIRAS. As pipiras viveram no tempo da fábrica de tecidos, assim chamadas porque merendavam bananas.

CURICAS. Eram as empregadas domésticas, que não se sentavam à mesa dos patrões, mas recebiam o prato de comida por cima do peitoril que separava a sala de refeição da pequena área descoberta no interior da casa. Manoel Joaquim, conforme me contou o fabuloso Antônio Sales, testemunha ocular da velha Teresina, realizava o baile das curicas. Havia ainda o concurso de misse curica.

FREGES. Vendiam bóias fartas e saborosas em alguns pontos da cidade. A garapa de cana procedida de São Joaquim e Acarape, em ancoretas e cabaças. Comprava-se o caneco com um pedaço de beiju. Dias festivos, na porta do Teatro 4 de Setembro ou dos arcos, vendiam-se manuês, arroz-doce, jenjibirra, frito de porco, frutas e outras guloseimas.

MATINÊS. Antes da luz elétrica, os bailes se realizavam de tarde, a partir do meio-dia, porque de noite a iluminação se fazia de lampiões acesos de tardezinha e apagados às dez da noite.

CHAFARIZES. Funcionavam na rua da Glória (Lisandro Nogueira), na avenida Frei Serafim, na antiga rua Santo Antônio (Olavo Bilac), no Bairro São João, no Largo do Poço (praça Landri Sales).

BANHOS. Os homens tinham os chamados portos para banho: o Pau-d'Água, em frente à atual praça Da Costa e Silva, e os das Tabocas, abaixo da ponte metálica.

QUITANDAS. Bem sortidas. Carne-de-sol, porco salgado, toucinho, banha derretida, bacalhau, sardinha portuguesa, pães de massa grossa e sovado, manteiga proveniente da Europa em latas grandes, vendida no retalho. E deliciosos vinhos portugueses.

CALÇAMENTO. Conta-se que o primeiro calçamento de Teresina foi obra de Domingos Monteiro, intendente e prefeito três vezes. Ruas apenas empiçarradas. No verão se levantava muita poeira, chamada PÓ MAMBIRA, pois a irreverência popular apelidara o administrador de Mambira. Conheci Domingos Monteiro, cidadão honesto, trabalhador, culto e dedicado aos problemas da cidade.

QUITUTES. Muito apreciados: os rebuçados de dona Loló, as cocadas da Totonha, a panelada da Luziana, o assado de panela do Filomeno, o cuscuz do João Olegário, os refrescos de pega-pinto, os bolos de dona Quequé, os sorvetes do Café Avenida, as empadas do Manuel Português, as mãos-de-vaca do Doutor. O Bar Carvalho servia filé e fígado de grelha de sabor ainda presente na saudade de quem os comeu, feitos por Gumercindo, Guimarães, José Bebé, Ludgero e o auxiliar Mundico.

MATO. Batia-se o mato das ruas duas ou três vezes por ano. Quando não se conseguiam operários, os serviços se confiavam aos presos da penitenciária.

ENTERROS. Os caixões se levavam a mão por carregadores ou pessoas amigas do defunto. Gente rica pagava mais, com direito a banda de música: os adultos, marcha fúnebre, valsa para as moças virgens, dobrados para os rapazes. Principais funcionários das funerárias: Anísio Veras e Benedito Caixão.


A. Tito Filho, 01/04/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ESPORTES

Em 1948 houve a inauguração da Rádio difusora de Teresina. Dento em pouco tempo eu e Valdemar Sandes criávamos na emissora o programa futebol e política. Era o governo Rocha Furtado e cada dia mais aumentavam as brigas e os xingamentos entre governo e oposição. Semanalmente eu e Valdemar colocávamos no ar o FUTEBOL POLÍTICO, uma partida humorística em que pelejavam os próceres governistas e os oposicionistas. Grande audiência. Até apostas se firmavam sobre os ganhadores e perdedores. E logo se inauguravam a crônica esportiva e nasciam os primeiros ases de comentaristas de futebol.

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Sempre gostei do esporte de Pelé. Todo domingo lá estava eu no estadiozinho Lindolfo Monteiro, tão simples, bom de cultivação de amizades, alegre, tempo das chupas de laranja e de pastéis apimentados. Era bom.

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Vejo a idéia do Albertão, nos sonhos de Alberto Silva. Combati sozinho esse elefante-branco, gastador de milhões. Preconizei o seu futuro fracasso. Eu era sozinho. Só eu combatia a construção desse estádio que vive vazio, sem assistência. Tão negativo o Albertão que ressurgiu o Lindolfo Monteiro.

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Trabalhei ainda na Rádio Difusora em 1971. Programa diário. Antes na Rádio Clube, também diariamente. Programas de audiência certa.

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No rádio conheci gente boa, como Gurani (Sansão Santos), que morreu magrinho num canto de hospital. Era gente do coração. E Trindade Júnior, Denis Clark, Jackson Moreira, o fabuloso Carlos Said, de memória genial, José Lopes dos Santos, de pouca conversa, caladão, organizado, inteligência aplaudida, e quantos mais, no passado pouco distante, alguns mortos, outros vivos, e que me desculpem a memória fraca para recordações completas.

Agora, com alegria e orgulho, Dídimo de Castro completa trinta anos de reportagem e de microfone. Fiel amigo do futebol. Célebre ativo, espírito observador, justo, competente, esforçado, virtuoso e amigo. Incorporou-se ao futebol piauiense, à sua história, aos seus triunfos, às suas derrotas. Apaixonando por causas nobres. Ninguém o vence de desânimo - e clama pelo soerguimento das nossas lutas e pela valorização das nossas disputas. Ouço-o sempre, admirando-o na persistência e na coragem de dizer e verberar as falsidades. Dídimo não sabe, mas lhe consagro uma amizade sincera porque justa e harmônica com a sua expressão de coragem em favor do Piauí.


A. Tito Filho, 08/05/1992, Jornal O Dia