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segunda-feira, 2 de abril de 2012

IDÉIAS

Faleceu, faz anos, Elias de Oliveira e Silva, membro da Academia Piauiense de Letras, primeiro ocupante da cadeira 28, patrocinada por Luísa Amélia de queirós Brandão, poetisa sentimental, de quem, ao tomar posse, na sessão solene de 18 de outubro de 1921, disse ele: Idólatra da poesia, sou irmão espiritual do artista que se ajoelha ante o seu ídolo sagrado. E, por muito amor a poesia foi que escolhi, para patrocinar a minha cadeira, o nome ilustre de Luísa Amélia de Queirós, a poetisa destemida que, num ambiente contrário aos surtos do seu talento, vibrava na emoção admirável dos seus sentimentos, cantando-os em versos espontâneos, feliz nas suas convicções, ardente nos seus arrebatamentos, inabaláveis na sua fé, invencível nas suas paixões e máscula nos seus formosos ideais de concórdia, de ilusão, de amor e de glória.

De feito, Elias, na mocidade, dedicou-se à poesia. Cultivou o soneto, e compôs alguns, que lembram a definição de Celso Pinheiro - quatorze versos cheirosos.

Lapidador delicado do soneto, terno, apaixonado dos traços femininos - Elias cultivou também a trova, elegante e gracioso, sempre voltado para a mulher, nos seus atrativos físicos - na mulher em que ele pouco ou nada acreditava.

Conheci Elias de Oliveira em Fortaleza, no tempo em cursei o antigo Liceu do Ceará. Elegante, estatura acima da mediana, cabeleira basta, olhos amortecidos, inteligência ágil, vibrante, voz forte, dominadora - gozava o saudoso acadêmico de grande conceito intelectual. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri, celebrado de aplausos. Argumentador seguro, culto, dominava a platéia, os jurados - terror da acusação quando se encontrava na defesa, terror da defesa quando auxiliava a acusação. Palavra fácil, corrente, por vez irônica, sustentada de conceitos graves, com que se revelava o grande estudioso da ciência penal. Nesse tempo conquistara já grande fama e respeito como jurista, autor de "Idéia do Direito da Filosofia Helênica" (1919), "Inconstitucionalidade de Impostos" (1920), "Crime de Calúnia" (1925), "Intervenção Federal nos Estados" (1930), "Homicídio Culposo" (1932), "Criminologia das Multidões" (1934), "Crime de Incêndio" (1934), "Injúria pela Imprensa" (1934). anos depois, em 1952, publicou ainda "Crimes contra a Economia Popular".
A obra que o colocou entre os mais notáveis estudiosos do assunto, no Brasil como em outros países, foi, sem dúvida, "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao Direito Criminal. Problema interessantíssimo o da multidão criminosa. Muitos, notadamente franceses e italianos, lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil - estudos quase sempre lacunosos - e mais completo que conheço antes de surgir o de Elias, é o de Scipio Sighele: A Multidão Criminosa.

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que antes escritores de nomeada procuraram, nos seus livros, revelar a psicologia das multidões, como d'Annuzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola foi real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

Como disse, li Sighele - extraordinário de observações, mas com falhas que foram supridas, no meu entendimento, por Elias de Oliveira. Certíssimo o conceito de multidão, no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora momentânea, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o "agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, qualidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas no inconsciente".

Esse recalque é o grande responsável pelo crime da multidão. Elias faz o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Aliás, observei, certa feita, em um trabalho intelectual, que os recalques freudianos estão nas manifestações dos campos de futebol brasileiro, como nas arenas das touradas espanholas.

O notável piauiense repudia as classificações de multidão de famosos criminalistas.


A. Tito Filho, 16/01/1992, Jornal O Dia

sábado, 17 de março de 2012

IMPRESSÃO

Em 1959, busquei recursos médicos no Rio de Janeiro. Sai de Teresina cedinho, nos aviões DC-3, que realizavam um chatíssimo pinga-pinga: Bom Jesus da Lapa, Salvador, Ilhéus, Montes Claros, Belo Horizonte, Vitória, finalmente a velha capital brasileira, aonde se chegava pelas oito horas da noite. Gerardo Vasconcelos, bondoso dia por dia, me deu carta de recomendação a um doutor dirigente de casa de saúde e às portas destas bati e tive recado de falta de vaga. Mandaram-me para outro hospital, até que alguém, morto ou restabelecido, desocupasse quarto.

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Estabeleci-me, de modo provisório, noutra casa de saúde, e nela recebi assistência de um doutor magro, fino, mas sabido como diabo. Depois que me auscultou, e de natural e até demorado interrogatório, consentiu em que eu tinha muita fome. E já noite puxada me conseguiu ovos, presunto e pão.

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De manhã, solzão, aberto, recebi a visita do diretor do hospital, de faces e queixo barbudos, bem cheios de barba - uma barba negra, muito negra e bem cuidada. Era o piauiense de nomeada, de fama justa, Correntino Nogueira Paranaguá. Conversou comigo um bom pedaço de tempo, lhano, afável, deixando-me forte impressão de homem honesto, simples e correto.

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Durante anos não tive oportunidade de rever Correntino. Mas não saiu da memória o seu gesto bondoso da visita, e de encorajar-me com a esperança de breve reencontro com a saúde.

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Em 1976, publiquei livro a respeito das ruas, avenidas e praças de Teresina, biografando vultos ilustres homenageados, ou oferecendo a significação dos nomes de outras vias públicas. Ano seguinte, Correntino mandava-me carta, em que salientava natural decepção ao sentir que a capital piauiense não possuía um beco sequer chamado Joaquim Nogueira Paranaguá, pai do missivista, que reais e relevantes serviços concedeu à coletividade nacional. A voz do filho reclamava a honraria, que os poderes competentes haviam esquecido. Levei o caso ao Prefeito Wall Ferraz, e a justiça foi feita.

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1978. A Academia Piauiense de Letras, em janeiro, promoveu festas comemorativas dos seus sessenta anos de existência laboriosa e útil e convidou piauienses radicados noutras terras para a comunhão das alegrias acadêmicas. Um deles: Correntino Paranaguá - prestimoso, atento aos deveres do coleguismo, educado, culto, presente em todas as solenidades acadêmicas.

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Tive a boa sorte, a sorte de habitar a sua amizade sincera e leal. Mantivemos correspondência. E dele merecia atitude que muito me confortou o espírito: a leitura destas páginas, escritas com o sentimento da verdade histórica e social, e sobremodo com o objetivo de rememorar a figura paterna, íntegra, humana, sensível ao sofrimento alheio, devotada ao bem público, temente a Deus, estudioso, capaz de sacrifícios, incansável trabalhador pela sua terra e pela sua gente.

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Joaquim Nogueira Paranaguá diplomou-se médico, fidelíssimo ao juramento da formatura. Utilizou-se da política partidária para a prática do civismo. Como administrador, de pequenos recursos materiais e tempo escasso, soube cumprir o dever. Teve luta admirável em favor da educação do homem - do homem que ele pretendia consciente e integral de virtudes. Escritor e cientista, pôs a serviço do povo os dons de privilegiada inteligência. Nunca esmoreceu para não desmerecer, como queria e ensinava Oswaldo Cruz. Nele se harmonizavam a força de vontade no espírito, o bom senso nas determinações, a honestidade nos princípios, a energia nos atos, a confiança em si mesmo, a fé em Deus. Filho, esposo e pai amantíssimo.

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Este trabalho de Correntino Paranaguá vale lições de história do sul do Piauí e das lutas da sua gente heróica. A narrativa acolhe desavenças partidárias, cangaço, cheiro de pólvora, também trabalho de liderança, esforço educacional, esperanças de novos tempos - e tudo aqui está fiel: a paisagem, os quadros da adolescência, a cidade pequena, os rios, os tipos humanos e seus caracteres, os episódios políticos, a face negativa de certos homens, os dramas da vida, a dor e a alegria, a coragem de ser forte, as árvores, os bichos, as lendas, o sol e a chuva, a doença, a crendice, a superstição - como se tudo fosse fotografado por um observador perspicaz, bem servido de vastos conhecimentos, dos estudos sociais e psicológicos, do modo sério de narrar a história e nela situar personagens e fatos memoráveis que a explicam e justificam.

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No autor, antes de mais nada o intérprete do passado remoto e do passado recente do Piauí. As figuras parecem vivas, tal o engenho com que são projetadas. E ressalte-se, como virtude de poucos, de raros até, a linguagem singela, bem conduzida, conveniente ao estilo do narrador de boa cepa.

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Em todo cenário do livro, no Piauí e noutras paisagens brasileiras, a gente sente a presença de Joaquim Nogueira Paranaguá, a beleza de suas lutas, os processo educacionais que o sensibilizaram, o seu feitio de querer bem ao semelhante, o seu apostolado - afinal o Homem, que soube servir, com amor verdadeiro, a família e a coletividade, obediente aos ditames de Deus.


A. Tito Filho, 25/05/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 13 de março de 2012

PADRE CHAVES

Monsenhor Joaquim Chaves, o Padre Chaves, como ele gosta de ser chamado, faz muitos anos que se dedica de corpo e alma a igreja do Amparo, a primeira de Teresina, a igreja de seu amor. Sacerdote virtuoso, coração de bondade e sentimento, venera-o a paisagem teresinense, a que ele tem doado o melhor de uma vida de trabalho espiritual intenso, rezando missa, batizando menino, casando noivos, confessando pecadores, confortando fiéis. Todos gostam das práticas religiosas que ele realiza, pois nelas gasta apenas os instantes preciosos, com o que exonera a gente da freguesia de demoradas cerimônias e predicas puxadas. Adota receita segura para não prejudicar a paciência do próximo, ao mesmo tempo em que se põe sempre solicito e amigo leal e correto, inexcedível no querer bem aos outros.

Ao lado da piedade, debruça-se sobre a pesquisa histórica, persistente, sustentado por capacidade de observar, e desse esforço surgiram escritos de valor, úteis, honestos, rico patrimônio para repasto dos estudiosos. O seu livro sobre Teresina, que se incorporou as festas comemorativas dos primeiros cem anos da cidade como documentário expressivo, lembra as fases iniciais da capital piauiense - as ruas, os cafés, os templos, as casas comerciais, o teatro, os furdunços carnavalescos, as manifestações religiosas, os episódios cívicos, o telegrafo, o barco de vapor, a higiene, a policia, as escolas, os passeios de cavalo - enfim o que ia nascendo, o que se ia criando, os passos inaugurais dos costumes e do progresso da comunidadezinha plantada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, o fundador, entre dois rios. E os forrós. E os serenos de baile. E a discurseira laudatória nos banquetes e bródios. Quantas cousas antigas, com cheiro de mofo, o bom Padre buscou em registros velhos e delas fez obra saborosa.

Neles o pesquisador preocupa-se sobretudo com a verdade e tem coragem de assentá-la e escrevê-la. As lições dos seus livros constituem fonte segura para conhecimento de variado aspecto da história do Piauí, que ele expõe e analisa com critério. Oferece estilo plástico, prosa ágil, sabe reviver o passado e os homens que o construíram, e faz crítica de forma imparcial e cuidadosa.

De mim, julgo-o historiador sereno, hábil, metódico, às vezes irreverente, apoiado sempre sobre invulgar capacidade de discernir e interpretar.

Teresina tem bons historiadores, como Pereira da Costa, Clodoaldo Freitas, Higina Cunha, para citar alguns mortos ilustres. Dos vivos muitos são os pesquisadores dos acontecimentos que se verificaram na cidade criada por José Antônio Saraiva.

O padre Chaves não se preocupou apenas com os episódios da vida histórica e política da cidade que tem o nome de gente nobre. Foi além, revelando, em livro curioso, aspectos sociais e pitorescos da cidadezinha tranqüila e afetiva. Antes dele, preocupado somente com os costumes do fim do século XIX, só Abdias Neves, num romance naturalista.

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Faz anos o padre Joaquim Chaves obteve o 1º lugar em concurso do governo do Estado, com a obra O PIAUÍ NAS LUTAS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, obra de estudo sério, em que se definem personalidades e episódios sinalizadores de patriotismo invulgar na conquista da autonomia de nossas instituições, que expulsaram as armas portuguesas do território piauiense - trabalho que pode figurar entre os que nos legaram Pereira da Costa, Odilon Nunes, Clodoaldo Freitas, Anísio Brito, Carlos Porto, Esmaragdo de Freitas, Abdias Neves, para citar alguns mortos, e Wilson Brandão, Pe. Cláudio Melo, Bugyja Britto, Camilo Filho, entre os vivos.

Fez 2ª edição da obra em 1975, agora revisada pelo autor, na exaustiva tarefa de nova redação, o que se conseguiu com a cooperação da Academia Piauiense de Letras, para esta 3ª edição, sob os auspícios da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, dirigida pela inteligência de João Cláudio.


A. Tito Filho, 14/03/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 9 de março de 2012

NATAL

Em Teresina, como em quase todas as cidades brasileiras, o Natal constituía a mais linda festa do ano, significativa por excelência, sobretudo na comunhão espiritual da comunidade. Alegria nos corações. A graça e a beleza artística dos presépios nos templos religiosos - e o Menino Jesus vestidinho em camisa muito alva de seda ou de cambraia. À meia-noite, a missa do galo, igreja repleta de gente de variada categoria social. Os sinos repicavam mensagens de amor para que todos se fizessem mais irmãos. Depois do oficio divino, no lar de rico aconchego afetivo, a família se entrega, unida em carinho, à ceia natalina, composta do peru morto na véspera e assado nos velhos fornos de barro, com o brasileiro bem vivo e ardente. A farofa da ave era uma gostosura. Comiam-se outras iguarias saborosas, preparadas por cozinheiros de doutos conhecimentos nesses assuntos culinários. Não se desprezavam o bom vinho, nem a doçaria de dar água na boca.

Os tempos correram na sua marcha inexorável. A produção industrial aumentou de modo incontrolável. Houve necessidade de vender e vender sempre mais. Inventou-se o rádio. Criou-se a televisão. A propaganda intensa dentro dos lares transformou o Natal num período de angústia generalizada, aperreante, aflitivo, de ânsias para os assalariados na consecução do dinheiro destinado à compra do presente. Esqueceram-se as lições de humildade do Menino da manjedoura de Belém. Cristo passou a objeto das ambições da indústria e do comércio. Avilta-se a beleza do episódio do nascimento. O silêncio da gruta se desrespeita com a barulheira infernal dos anunciantes e dos camelôs de enjoativa palração.

Renato Castelo Branco, criador de momentos inesquecíveis de arte verdadeira, concebeu e escreveu esta jóia inimitável - uma lição de sabedoria e de verdade, intitulada A BOA NOVA:

Quando a Estrela de Belém
anunciou a Boa Nova
os Reis Magos vieram do Oriente
carregados de ouro
incenso e mirra
prostar-se ante o Menino Jesus.

Mas depois deles vieram
Herodes e Caifás
Judas e Pilatos
- a crueldade e a intolerância,
a traição e o calvário.

A verdade está em que os homens criaram uma sociedade injusta e perversa, dividida em esbanjadores e famintos. Repudiam-se as lições do Menino-Deus. Há os que afrontam os maltrapilhos, os que matam para o sustento de ambições malditas, os que extinguem vidas para que os lucros se tornem partes em nome de irresponsabilidade. Neste mês de dezembro, houve no Recife um casamento em que se dissiparam milhões de cruzados em futilidades, em enfeitações, em trajes com rabo de dez metros de comprimento, em comes e bebes sobejantes, enquanto na capital pernambucana meninos esquálidos e famintos se alimentam de restos de comida das latas de lixo. Horas antes do ministério da gruta de Belém, a covardia, de tocaia, matou um líder que defendia os injustiçados e lutava pela preservação da natureza dadivosa. O dia 24 de dezembro representou a fartura na mesa dos ricos sem coração e a miséria do menino pobre, que nunca viu um brinquedo de Papai Noel. E muitos, coitados, pagaram com a vida o passeio de barco, de altas quantias, para as delícias de um trinta e um de dezembro no Rio, cidade de dramas de miséria e do crime dos miseráveis. Pobres vítimas da ganância e da irresponsabilidade.

O canto maravilhoso de Júlio Romão da Silva é emocionante, quando põe, numa peça teatral, as verdades na boca do Mestre:

Existiam dores no mundo, sonhei um mundo sem dores, havia feridas no mundo, sonhei um mundo sem chagas, havia um mundo faminto, sonhei um mundo sem fome, havia lágrimas no mundo, sonhei um mundo sem lágrimas, havia um mundo recluso, sonhei um mundo sem grades, havia um mundo servil, sonhei um mundo liberto, havia um mundo odiento, sonhei um mundo sem ódios, havia um mundo com muro, sonhei o mundo sem muro, havia um mundo sem paz, sonhei a paz para o mundo - E MATARAM-ME. Ó sátrapas, ó víboras, ó abutres, ó vampiros, ó répteis, ó sacripantas, ó chacais! Quando deixareis o charco e a carniça? Quando ouvireis a melodia do meu canto e vereis a beleza do meu sonho? Quando parareis de me matar para entenderdes a mensagem do meu Salmo?


A. Tito Filho, 08/01/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

FRANCISCO PORTELA

Oeiras, antiga capital da Capitania e da Província do Piauí, tem sido berço de homens célebres, cientistas, jornalistas, juristas, parlamentares, historiadores, romancistas, poetas, estadistas, ontem como hoje. Continua a sede cívica do Piauí, rica de tradições, do passado que orgulha e enobrece.

Em Oeiras, em 1833, nasceu Francisco Portela. Médico pela Faculdade do Rio de Janeiro, estabeleceu-se na cidade fluminense de Campos, onde clinicou muitos anos. Fundador e presidente do Instituto Médico. Primeiro governador do Estado do Rio de Janeiro nomeado por Deodoro da Fonseca. Acusado de conspiração em 1892, foi preso com a queda de Deodoro e a subida de Floriano Peixoto ao poder.

Portela redigiu o MONITOR CAMPISTA, preocupando-se com questões políticas, sociais e econômicas. Escreveu compêndio de Filosofia. Publicou trabalhos sobre contágio nas moléstias. Deputado federal em 1909, reeleito até 1912, quando renunciou e assumiu cadeira no Senado, vaga com a morte de Quintino Bocaiúva.

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Foram agitados os primeiros anos republicanos no Estado do Rio. A grande luta fixou-se com a denominação de REVOLUÇÃO PORTELA. Elementos exaltados pegaram em armas, concentrados em Parnaíba do Sul, onde levantaram quartel general com ramificações em vários municípios e forçaram a queda de governador Portela, o 88º chefe do Executivo fluminense.

Francisco Portela era filho de João Antônio Vaz Portela e Luíza Pereira de Carvalho. Foi vereador da Câmara de Campos e deputado da Assembléia Provincial fluminense.

A Assembléia Constituinte do Estado do Rio, a 11 de maio de 1891, elegeu-o como primeiro governador constitucional, renunciando ao mandato em virtude das lutas republicanas em que se envolveram Deodoro e Floriano.


A. Tito Filho, 09/05/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de março de 2012

DA COSTA

Muitos, dezenas, estudaram Da Costa e Silva nos seus aspectos clássicos, e simbolistas, parnasianistas, no seu lirismo e no seu sensualismo, estas cousas de que o vulgo pé-rapado, não entende, nem deve entender.

Quando Dirceu Arcoverde me convocou para escolher as poesias que figurassem nos painéis da praça Da Costa e Silva, em número de quinze, escolhi depressa as que inspiraram na terra e nas paisagens piauienses, nas atividades do homem, nos quadros da natureza e nos sentimentos que exprimissem tristeza ou alegria, e no rio de presença perene no coração do poeta. E desse tipo de poemas encontrei doze. Completei a exigência com os versos de Fé, Esperança e Caridade, que o zepovão não entende, e com os hinos do Piauí.

Gosto de Da Costa quando ele se lembra do seu vilarejo, Amarante, pois aí lhe decorem os brincos da infância irrequieta. Admirava-a nos encantos naturais e não a deslembrou da igrejinha branca nem do povo feliz - o povo "que ri das próprias mágoas".

Ninguém recordou com tanto realismo o conhecido engenho de madeira.

Noutros versos fixa o espetáculo cruel da derrubada da mata, o baque da árvore, cujo tronco reverdece com a chuva, como se fosse o protesto da vida renovada "a Queimada" condena a alma desnaturada do homem, a natureza a chorar, calada. Em "O Inverno" está a ressurreição da natureza, e o poeta anuncia o amor e a abastança. O soneto "Aboio" canta o sertão, a vaquejada, a ferra dos animais, a rês desgarrada. Noutra inspiração, invoca a balsa, "a embarcação simples e boa", como ele diz.

Longe do Piauí, no Recife, a saudade, a angústia. Lembra-se da mãe, do rio, dos friorentos dias do fim do inverno, e cria um dos mais lindos e tocantes sonetos na língua portuguesa, - a cantiga das águas soluçantes, o caburé com frio, os gemidos dos canaviais, as barbas do Parnaíba famoso, o mugido dos bois da terra distante. No poema a definição sem defeito da saudade que o tortura - o olhar de minha mãe rezando, asa de dor do pensamento.

Gosto de Da Costa quando ele canta o Piauí. Não o aprecio nas poesias em que segue os caminhos das apelidadas escolas literárias, que a gente entende depois de tomar lições de estética. Melhor compreender o grande amarantino por intermédio do indestrutível Freud.

Da Costa, nas noites recifenses, fugindo da saudade por via da bebida - "Álcool!" Para esquecer os tormentos da vida e cavar, sabe Deus, um tormento maior" - Da Costa continua o maior cantor da terra natal e o apaixonado do riozão, cujas águas, no mundo infantil, lhe plasmaram o espírito e lhe deram, como prêmio, a perenidade de gratidão dos seus conterrâneos.

A poesia nascida dos sofrimentos interiores do poeta permanece imorredoura. Bendita cidade do Recife, que fez o poeta chorar por dentro e oferecer ao Piauí a melhor poesia de todos os tempos.


A. Tito Filho, 23/01/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 5 de março de 2012

O VELHO CLUBE

Senhores da mais alta evidência, pelo dinheiro e pelo prestígio político e intelectual, fundaram a sociedade recreativa Clube dos Diários, no ano do centenário da Independência do Brasil, 1922. Coube a primeira presidência ao comerciante e proprietário Antônio Ferraz. Deu-se o baile inaugural a 31 de dezembro do mesmo ano, na casa residencial do negociante Antônio Campos, batizada de CAMPINA MODESTA. Disseram-me depois que a festa esteve maravilhosa. Presença da fina flor da alta roda, mulheres vestidas de muito luxo e beleza. Anotaram-se na crônica da época nomes prestigiosos de homens e suas famílias, como Matias Olimpio, Miguel Rosa, Valdivino Tito, Jarbas Martins, Mário Baptista, Evandro Rocha, Sotero da Silveira, Simplício Mendes, Antonino Freire, Heli Castelo Branco, Antônio Costa Araújo Filho, Heitor Castelo Branco, Álvaro Freire, Agripino Oliveira, Antônio Chaves, Dídimo Castelo Branco, Joel Oliveira, com destaque especial para o solteirão governador João Luís Ferreira e outros.

Em 1927, houve a festiva inauguração da sede própria, no terreno doado pelo governador Matias Olimpio, a mesma que atravessou os anos até hoje, e que, de vez em quando, sofria alterações para atendimento dos novos sócios que se filiavam ano por ano. A atual sede está aumentada mais ou menos da metade do que foi antigamente.

Tornou-se essa sociedade recreativa o centro social da intensa atividade. Era a instituição querida dos teresinenses. Deslumbrantes as suas festas dançantes. Muitos namoros, noivados e casamentos tiveram inicio nos seus salões. Homenagens a políticos, banquetes, recepções ainda hoje estão na lembrança da cidade. Carnavais formidáveis vivem na recordação permanente de velhos foliões. Ali se realizaram conferencias literárias e posses acadêmicas aclamadíssimas. Eleições de misses. Reuniões de objetivo vário.
Ainda na década de 60 o Clube dos Diários, apesar do nascimento e florescimento de outros grêmios, mantinha-se altivo, como uma relíquia, freqüentado por uma sociedade que já afrouxava os freios morais de homens e mulheres. A juventude entregava-se aos primeiros passos da constatação de costumes nas coletividades humanas.

Nos fins dos anos 60 e principio da década seguinte, a agremiação tão querida entrou em decadência e chegou ao estado que chegou, requentada pelos que apreciam o jogo noturno e madrugadino, por homossexuais dos dois tipos, garotos vadios, pivetes. Ainda algumas personalidades ilustres nela espairecem, chorando intimamente as recordações de um tempo romântico que não volta mais. O ambiente está hoje de sujeira e integral desagregação física, do solo ao teto. Sombra dorida de um passado de riqueza espiritual. Em tudo, os fantasmas dos que bailaram, cantaram e se divertiram na magia de um mundo maravilhoso que a imbecilidade dos homens maus não soube preservar.


A. Tito Filho, 05/04/1992, Jornal O Dia

sábado, 3 de março de 2012

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

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Meninote, chegava eu a Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

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Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

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Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

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Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo à outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

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Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

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Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

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Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 21/05/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 1 de março de 2012

ADELMAR ROCHA

Se vivo estivesse, Adelmar Soares da Rocha teria completado, a primeiro de janeiro de 1992, CEM ANOS de idade.

Nasceu em Aparecida, hoje Bertolínia (PI), a 1-1-1892. Pais: Bertolino Alves da Rocha. Faleceu no Rio de Janeiro (11-1-1973). Médico, trabalhou nos Estados do Maranhão, Piauí, São Paulo e Mato Grosso. Ingressou no Exército, como 2º tenente médico, em 1921, chegando ao generalato. Exerceu vários comandos, chefias e comissões. Diretor do Hospital Militar de Bagé (RS). Membro da Comissão Organizadora da filial da Cruz Vermelha de Campo Grande (MT). Diretor do Hospital de Campo Grande. Supervisor da Junta de Seleção do Contingente da Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial). Revolucionário em 1924, esteve exilado na Bolívia. Participou da Aliança Liberal (1930). Esteve fiel ao governo na revolução de são Paulo (1932). Deputado federal pelo Piauí em 1934 e no período de 1946 a 1951. Neste último mandato, como constituinte, apresentou emenda, transferindo as Fazendas Nacionais para o patrimônio do Piauí, com o nome de Fazendas Estaduais. Era detentor de várias condecorações por relevantes serviços prestados ao país. Conferencista culto, deixou numerosos trabalhos, de alto valor literário e histórico, entre os quais "Caxias como símbolo da grandeza militar da pátria e "Taunay". Grande orador parlamentar. Edgard Alfredo Guimarães: "... em cada um dos seus poemas palpitam, sonoras e emocionais, as vibrações dos seus nervos...". Remígio Fernandes: "... a arte foi a preocupação dominante, preocupação que se fez amargura e obsessão".

O acadêmico Edgard Nogueira, em 1973, no discurso de posse na Casa de Lucídio Freitas, escreveu esta notável opinião sobre o poeta: "... cantor da solidão, dos quadros da natureza, da infância, das paisagens, de Deus, da família; e de suas desilusões da vida, aquí e alí impregnado de sensualidade - triste quase sempre, quase sempre revoltado, buscando consolo nas flores, na esperança, no luar, nos astros e nos sonhos, na luz, no amor".


A. Tito Filho, 04/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OS CEM ANOS

Neste mês de dezembro, Edison da Paz Cunha, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, se vivo fosse, completaria cem anos de idade.

Nasceu em Teresina, a 15 de dezembro de 1881. Pais: Higino Cunha e Corina da Paz Cunha. Bacharel em Direito pela Faculdade do Recife (1912). Oficial de gabinete do governador Eurípedes de Aguiar. Diretor da Imprensa Oficial. Promotor Público. Em Parnaíba, onde passou a residir e faleceu em 1973, tornou-se notável advogado e mestre acatado da juventude.

Jornalista, jurista e conferencista. Escreveu ele sobre a própria personalidade: "Prosador e conferencista para estudantes, em estilo didático, adquirido no longo exercício do magistério. Não é poeta, mas nas horas vagas, faz versos quase maus, como diria o senhor Esmaragdo de Freitas".

Deixou os seguintes trabalhos: "Vozes Imortais" (crítica sobre membros da Academia Piauiense de Letras, vivos e mortos), "Correspondência para você", "Discurso na abertura do ano letivo do Ginásio Parnaibano" (1935) e "Razões Finais", em colaboração (estudo jurídico).

Sucedendo a Edison Cunha na Casa de Lucídio Freitas, o escritor J. Miguel de Matos definiu-lhe, como de grandeza a atividade intelectual e literária - versátil e poderosa de jornalista, de escritor, de advogado, de filósofo e de poeta.

A respeito de "Vozes Imortais" (Crestomatia da Academia Piauiense de Letras) escreveu Martins Napoleão: "Nesse trabalho de compilação e crítica, e inteligência vivacíssima do senhor Edison Cunha, sempre ao melhor serviço da Literatura, do Magistério e da Advocacia, resume exemplares de vinte e cinco anos de atividade intelectual dos titulares da APL, contribuindo, assim, e com esforço digno de louvor e estímulo, a comemorar o cumprimento do primeiro quarto de século de sua fundação, ocorrido em 30 de dezembro de 1942".

"Título e subtítulo da obra, em que se estão a trair, de uma vez, o beletrista, o professor e o advogado, bem cedo lhe revelam a intenção e objetivos: naquele - a capacidade de admirar, que distingue o homem de talento, cultuando a memória dos companheiros, através de suas produções escolhidas; nesse - a preocupação de ser útil aos outros homens, tão evidente no sentido da palavra crestomatia".

E adiante:

"O senhor Edison Cunha andou bem avisado em não querer cifrar-se a simples nótulas biográficas dos nossos acadêmicos, seguindo Humberto de Campos em relação aos seus ilustres consórcios: aduziu apreciações críticas que, sucintas e nervosas, ganham em intensidade, em interesse e em brilho, verdadeiros retratos em traços esquemáticos, vivos e impressionantes".


A. Tito Filho, 03/01/1992, Jornal O Dia