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terça-feira, 27 de março de 2012

O PROBLEMA NEGRO

Los Angeles, cidade da Califórnia, nos Estados Unidos, ardeu em chamas. Mais uma vez o problema negro se manifestava em toda a sua crueza. Policiais brancos espancaram um motorista de táxi por ultrapassar os limites da velocidade permitida. Submetidos a júri, receberam absolvição. Tanto bastou. A revolta dos negros foi imediata. Violência a rodo. Mortos. Intervenção das Forças Armadas.

Quem leu "...E o vento levou", ou assistiu ao filme que Salznick copiou do livro, pode sentir o problema negro nos Estados Unidos - um problema com raízes num processo econômico que mais se salienta com o correr dos tempos e que não se resolve com leis civis, humanas, é verdade, mas distanciadas da realidade. O problema, ali, só se resolve com a abolição da miséria no sul e da miséria do negro. As populações negras nos Estados Unidos vivem nas piores condições de existência. Dá-lhes a lei o voto, o direito de freqüentar escolas e universidades, proíbe a lei a segregação em todas as suas modalidades e disfarces - mas a lei não lhes dá trabalho nem meios de auferir os benefícios da civilização dos brancos.

O presidente Johnson quis tocar na angustia do problema. Para ele, tudo deriva do desemprego, da doença, dos bairros pobres de miséria extrema: "Não é possível conter os insurretos pela força, mas é possível a extirpação das causas dos acontecimentos". Embora com tais verdades, Johnson não tinha razão. Esteve o falecido presidente em atendimentos para uso interno. Entendeu o caráter revolucionário do movimento negro, mas não foi capaz de perceber sua relação com a estrutura econômica.

Noutro século, o negro americano cantava infortúnios através da lânguida e morna música dos "spirituals". Neste século, passou ao protesto musical do nervosismo do jazz-band. Criou-se o Poder Negro, cujos cantores sabem que a opressão do negro é um fato econômico. Para a abolição se torna necessário mexer nas raízes econômicas do atraso social do negro. Observe-se que esse Poder Negro baniu indiscriminadamente os brancos do seu convívio. É que a luta de negros contra brancos e vice-versa tem fundamentos mais sérios, que não se situam na simples cor da pele. O negro, antes de tudo, vive numa até hoje inevitável exploração de operário não-qualificado e é muito difícil mudar o coração da massa humana, acostumada a ver o preto no seu lugar distante e subserviente.

Vivien Leigh interpretou a sulista bonita e graciosa da Geórgia vivendo a Scarlett O'Hara de "...E o vento levou", uma história da escravatura. A autora do livro, fidelíssima aos episódios históricos, não mostrou ódios raciais no romance que foi mais vendido do que a Bíblia, quando apareceu. Pelo contrário. Apresenta o negro em convivência afetiva o branco. Scarlett, a menina branca, estima, como aos seus, a mucama, que lhe dedica, por igual, amizade e afeição. Por que o ódio posterior? O ódio resultou da abolição e dos problemas econômicos daí advindos, e um destes está na mão-de-obra negra, que a sociedade capitalista inutiliza porque não pode legislar contra si mesma.

Vale lembrar Vivien Leigh, a menina maravilhosa de "...E o vento levou". Ela fez com Clark Gable, Olivia de Havillaand, Leslie Howard, Thomas Mitchel, o mais belo filme sobre a história dos negros americanos. Um filme imortal, feito pela generalidade de Salznick, em 1939, e que não perdeu a oportunidade, nem a perderá. O estudioso encontrará nele os fundamentos desse propalado preconceito racial, inexistente. Há, sim, um problema econômico.


A. Tito Filho, 17-18/05/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de março de 2012

OESTE

Andei lendo recentemente que morreu Louis L'Amour, um dos mais férteis escritores sobre o oeste norte-americano. Um dos seus livros foi publicado faz pouco tempo em português, com o título A TRILHA DOS FORA-DA-LEI, que no original inglês se chama RIDE THE DARK TRAIL. Gostei de mais um livro de aventuras de caubóis da época dos conquistadores e dos choques com os índios, cruéis e hostis na defesa do seu patrimônio. Era o reino do gado e do ouro da Califórnia, um mundo novo, selvagem com os fracos, dos homens de ferro, cuja vida dependia da faca e do revólver. Violência é a história da estrada de ferro e a do telégrafo. Um mundo de liberdade para libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substitutos da mulher.

Quem não se recorda do SALOON? Lei da pistola sobre o balcão de bebida e sobre a mesa das cartas de baralho, do xerife selvagem e do pistoleiro heróico. Quanta recordação tenho de Búfalo Bill, Calamity Jane, Bill Doolin, Wyatt Earp, Pat Garret, Jesse James, Doc Holiday, Bat Masterson, nomes que o livro, o cinema e os quadrinhos se encarregam de universalizar e que ganharam popularidade.

Nunca esqueci os nomes célebres dos atores cinematográficos que participaram de filmes inesquecíveis a respeito do oeste. A história dos rios de gado, do ladrão de reses, do perigo, a história de um excesso de vitalidade. Álcool e pistola, pôquer e roleta, matanças, a lei do COLT, num ambiente de apetites sexuais de seres viris sem que houvesse mulheres. Daí o mito da mulher como demonstrou André Bazin. Ainda a meretriz desses tempos era redimida, como a gente vê nos filmes, pelo amor ou pela morte.

Sempre me atraiu a literatura do oeste dos Estados Unidos. Fenimore Cooper, Zane Grey e outros povoaram a minha imaginação de aventuras, de desafios, de heróis e heroínas contraditórios. Dos atuais autores Dee Brown está na minha admiração, com obra segura, iniciada com um romance baseado na vida do desbravador David Crockett. Esse escritor fez relatos históricos que deram nova feição aos estudos sobre a conquista do oeste, como ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO.

Nunca pude esquecer Gary Cooper, Buck Jones, Tim McCoy, John Wayne, que interpretaram os melhores filmes de faroeste, e ainda hoje eles me reaparecem na televisão, em histórias saudosas, como NO TEMPO DAS DILIGENCIAS e do maravilhoso JORNADAS HERÓICAS. Que dizer dos seriados da adolescência dourada, quando a gente via semanalmente um pedaço do filme, aguardando-se de modo ansioso o domingo seguinte?

Não durmo, nas minhas noites teresinenses, sem a leitura de um bom livrinho de caubói. O saloon, o forasteiro, o uísque ordinário, os revólveres de cada lado do tipo, o pôquer, a corista, o sujeito do piano desafinado, os bandidões barbudos, cuspindo o pretume do tabaco, a mocinha da cidade, toda pureza, a pradaria, o deserto e as serpentes, o lacrau, a forca. De tudo resta o assalto a banco, um assalto mais civilizado.

Não sei se morreu mesmo Louis L'Amour, que de vez em quando me concedeu bonitas páginas de aventuras do velho oeste para que eu matasse as saudades de filmes da meninice risonha.


A. Tito Filho, 10/04/1992, Jornal O Dia