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segunda-feira, 2 de abril de 2012

ARTE

As comunidades humanas de vez em quando padecem provocações, que resultam de cousas diversas - crimes, intempéries da natureza, epidemias, atitudes passionais dos grandes ajuntamentos humanos, imprevidência das pessoas ou dos governos e outros. Teresina tem sofrido também, no curso de sua história, dias aflitivos e penosos.

Em 1875 houve o pânico, tempo em que a varíola matava por todos os recantos da cidade, que ocupava apenas a parte plana da margem do rio Parnaíba. Frei Serafim de Catânia tornou-se o piedoso confortador dos padecentes: "Jamais recuou da porta do pestoso, simples trapo de carnes podres, caindo aos pedaços, sem feições reconhecíveis, momento terrível de miséria humana. Esse quadro, muitas vezes renovado, não o abateu durante longas jornadas a qualquer hora do dia ou da noite. Ao ouvido dos desgraçados, sem desfalecimentos nem tardanças, trazia a paz da consolação suprema" - assim escreveu o ilustre Elias Martins. Dois anos depois da varíola, a seca de 77. Centenas de retirantes chegavam ao Piauí, vindos do Ceará. E para o Piauí não tardou a penúria, fome, a morte. Teresina abrigou multidão de exaustos e doentes.

As cheias formidáveis dos dois rios que banham a cidade, de tempos em tempos inundam habitações, sobretudo as choupanas da pobreza sofredora - e desabrigadas sem conta permanecem até que as águas baixem e seja possível reaver as chocas miseráveis ou o levantamento de novas.

O cerco da Coluna Prestes, entre 1925 e 1926, vinda pelo sul do Estado, fez que grande parte da população, espavorida, abandonasse a cidade e tomasse os caminhos do norte, por medo da fuzilaria ensurdecedora e perigosa.

Os acontecimentos iniciais em 1943 correspondem, porém, a cenas dantescas e tragédias gregas, tantas as violências contra pobres pessoas se provocaram, promovidas por agentes policiais. Era o governo do médico Leônidas Melo, que, interventor federal no Piauí, em virtude de certos atos contra direitos alheios, conquistou sérias inimizades políticas. Vigorava a ditadura e os jornais sofriam censura prévia. A chefia de Polícia estava sob as ordens do coronel Evilásio Gonçalves Vilanova. Foi o tempo dos terríveis incêndios de casebres de palha de Teresina. Comunicavam-se por bilhetes o dia e a hora em que as labaredas subiam aos céus na queima da casa escolhida - e os moradores a abandonavam, e no exato momento do aviso as línguas de fogo consumiam tudo, teto e paredes, e os trastes da vida diária.

Desespero e choro. Nada se salvava, tudo se transformava em cinza, os cacos da cozinha e os farrapos de pano da dormida e do coro.

Os elementos de oposição culpavam as autoridades, desejosas de acabar com as choupanas de palha da capital, feias e miseráveis, ou o governo atribuía o crime aos adversários para puni-los severamente na qualidade de incendiários. Pensava-se também na existência de indivíduos, piromaníacos para a satisfação da mórbida personalidade. Chegou-se a acusar da hediondez o próprio chefe de Polícia, por intermédio de policiais de confiança com a intenção ambiciosa de derribar o interventor federal e assumir o comando da administração. As rodas oficiais consideravam mandantes das queimações o médico José Cândido Ferraz, que despontava como o mais afoito elemento contra o governo ditatorial na política piauiense.

Alta noite homens humildes, presos pela polícia e acusados de autoria, nas clareiras da mata de Teresina rumo de Morrinhos, eram submetidos a torturas intensas e impiedosas. Contam que alguns morreram.

Do Rio de Janeiro veio delegado especial para as investigações - e apesar de trabalho exaustivo e bem orientado e das suspeitas levantadas, não se chegou a nenhuma conclusão definitiva.

Vitor Gonçalves Neto fixou tenebrosos aspectos dos incêndios que afligiram a pacata comunidade teresinense desses dias de luta e de lágrimas. O talento de escritores, como ele, sabe explorar essas tragédias e revelar-lhe os cenários e as vítimas da forma que as reproduzissem em toda a eloqüência da sua crueza. Vítor utilizou-se da verdadeira arte popular, e à sociedade de hoje, já distante dos trágicos dias passados, transmitiu a força dum sentimento coletivo para os deveres das grandes solidariedades nas dores que o homem tem padecido em todos os tempos da humanidade.


A. Tito Filho, 18/01/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 30 de março de 2012

RESTAURANTES

Não encontrei notícia do primeiro restaurante de Teresina. Anotei reclame de jornal que oferecia os préstimos do Hotel Teresinense, em 1875, ao público: bifes e carne assada, no almoço: sopa, carne cozida e assada no jantar. Pratos abarrotados. Comia-se até fartar. Li, em jornal do anos seguinte, sobre o estabelecimento de José Pico, com o nome de CASA DO PASTO - e ele era vaidoso da sua tenda de comedoria: anunciava comidas italianas, francesas, portuguesas e inglesas. Aos domingos, PANELADAS DE MOCOTÓS.

Quando vim de Barras, terra boa do Piauí, lugar do meu nascimento, para Teresina, acompanhando o pai e a madrasta, filho único que eu era, - a família alugou casa na rua da Glória (Lisandro Nogueira), mas depressa se arrumaram os trens e deu-se a muda para a rua São José (Félix Pacheco). Nos dias dominicais, o saudoso genitor me mandava ao Bar Carvalho, o mais freqüentado da cidade - café, sorvete, chocolate, refrescos, no amplo salão de frente para a Praça Rio Branco; por trás outra sala espaçosa, em que se alinhavam as mesas para o almoço e o jantar. Que comida! Zecão, o popularíssimo proprietário, contratou cozinheiro espanhol, o Gumercindo, cheio de banhas, o criador de um prato que dava água na boca, pois o cheiro bom da iguaria obrigava as papilas gustativas a extraordinário funcionamento - o filé de grelha, feito na chapa do fogão, e o mestre cuca o enfeitava com duas azeitonas, um pouco de alface, farofa e umas vinte ervilhas.

Lá ia eu, a carregar marmitas, buscar a bóia do domingo, no Bar Carvalho. Meu pai dava folga à competente e carnuda cabocla cozinheira no dia do Senhor. Na mercearia defronte da residência, do português José Gonçalves Gomes, completava-se o almoço com a gostosa sardinha de Portugal.

Conheci o restaurante do DOUTOR, especialista em mão-de-vaca e panelada. De segunda classe. refeição apetitosa, que o freguês carregava de pimenta malagueta de soprar o vento. Alguns cachorros vadios aguardavam, olhos pedintes, o osso que os mal-educados atiravam ao chão, depois de limpá-los, como roedores.

Na década de 40, Pedro Quirino fundou o RESTAURANTE ACADÊMICO, com freguesia de operários e doutores. Comida boa, barata, limpa, elogiada.

Nesses bons tempos comer representava um gesto de sabedoria. Comer desofisticadamente. Comer sem tinturas, comer sem estrangeirice, comer sem bebida de refrigerantes engarrafados, nisto vale sabedoria. Sabedoria de vida.

Teresina ingressou na ERA dos acepipes sem graça e sem gosto. Paga-se o luxo, a gorjeta gorda, a notícia no jornal. Refeições melosas, coloridas, de preço sem peias. Naqueles velhos tempos, o garçom punha o prato de arroz e o escolhido no cardápio defronte do cliente e este ficava a vontade, usando os pirões da forma que lhe aprouvesse. De algum tempo a esta data, o empregado comanda o modo de servir - e de colheres, treinado, vai botando em escolhidos espaços do prato uma porçãozinha de cada cousa que compõe o raquítico almoço ou jantar de gente de dinheiro fácil. Existem pratos do universo internacional, mais caros e mais intragáveis.

Restaurantes dos velhos tempos da Teresina de dinheiro pouco, dinheiro de pé-de-meia, - da Teresina do Manuel Português, que vendia empada, e uma só punha o sujeito de barriga cheia, sem necessidade de almoço ou jantar. Empada sadia, que dispensava o óleo de rícino para limpar as tripas.

O que passou, passou - verdade estabelecida por Gervantes no tempo em que os homens escreviam para a eternidade.


A. Tito Filho, 26-27/04/1992, Jornal O Dia

POMBAIS

José Eduardo Pereira, inteligente e culto, jornalista arguto e atualizado, tratou, nesta página, faz dois ou três dias, dos conjuntos habitacionais de Teresina, e trouxe à baila angustiantes problemas relacionados com a cidade. Um sobre quem administra a capital do Piauí, o outro a respeito das casinholas que uma multimilionária companhia de habitação constrói para auferir lucros inacreditáveis à custa da perversidade com os pobres. Parece que se trata de órgão de banqueiros nacionais ou financiadoras internacionais. Não sei.

No começo do século um bom governador fez o abastecimento dágua canalizada de Teresina, e outro, Miguel Rosa, inaugurou a luz elétrica, conquistas que ainda hoje permanecem com o Estado. A raquítica rede de esgotos de algumas ruas centrais foi obra estadual.

No caso da construção de obras, os governadores bem que poderiam efetuar as derribadas dos prédios antigos, mas submeter as novas construções a rigorosa obediência de normas urbanísticas, e assim também relativamente às modificações nas cousas públicas.

Veio abaixo o prédio em que se abrigam várias repartições e no lugar se quis levantar o centro administrativo do Piauí.  O esqueleto monumental, por falta de dinheiro, foi vendido, e no lugar se encontra o espigão do Ministério da Fazenda, quebrando-se o alinhamento da rua Rui Barbosa. Liquidou-se a praça Pedro II, tão bonita, de muitas recordações espirituais, e no lugar se estabeleceu grande concentração de prostitutas, alcoólatras, veados, viciados em droga e pivetes. A quem cabe a nova feição? Ao governo estadual. Outro governador pôs por terra a velha penitenciária e construiu o vaidoso Verdão, depois que se inutilizou o trânsito em ruas da cidade. Antes, houve o governante que mandou construir um prédio no meio da praça Demóstenes Avelino, e o espalhafato horroroso continua lá, agora de propriedade particular, e nele, no prédio, se vendem carnes, bofes, vísceras, cabeças de porco, peixes e outros produtos, espalhando-se fedentina por todos os arredores.

São inúmeros os exemplos nocivos. Ninguém sabe quem administra a cidade. Antigamente essas práticas aberrantes constituíram crime contra o patrimônio popular.

Observe-se o caso desses conjuntos habitacionais em que residem os humildes párias de Teresina e os milhares que, vindos do interior, foge ao tristissimo quadro da zona rural e das comunidadezinhas mortas, cada vez mais pobres e sem condições de vida. Nessas centenas de casinholas, todas do mesmo jeito, se alojam famílias de cinco, seis ou mais pessoas. Com pouco tempo esses POMBAIS passam a favelas e se enriquecem de biroscas, prostibulos, freges, botecos, bocas-de-fumo e crimes. Meninas que ainda não menstruam já constituem raparigagem. Os últimos tipos residenciais receberam o nome de EMBRIÃO, constituídos de saleta, quarto e banheiro. Só. Nessas residências os casais só se relacionam sexualmente depois da última novela, quando a filharada consegue dormir. Se um menino ou menina acorda arregala os olhos na presença do espetáculo dos pais pelados.

Esses conjuntos habitacionais são feios, casas emendadas uma nas outras. Alguns felizardos ganham fortuna na venda de terrenos para que nestes se levantem esses prediozitos que ofendem a dignidade de todos os enteados de Deus, filhos da injustiça dos homens maus, os banqueiros, e dos políticos de boa fé, que apenas agravam problemas comunitários.


A. Tito Filho, 11/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 28 de março de 2012

COMADRE PULU

Este ano de 88 passei a Semana Santa em casa, na leitura leve de revistas e de boas piadas do barão de Itararé, que eu conheci no Rio de Janeiro, famoso e querido. Também vi na televisão e meditei.

Na quarta-feira, boca da noite, minha comadre Pulu, batizada Pulquéria, ainda apetecível, pesar dos seis molecotes que já botou no mundo, me apareceu para requerer de meus magros bolsos o respectivo jejum. Dei-lhe um pedaço de bacalhau do lado do rabo, sardinha, macarrão, feijão, doce, uns trocados para os temperos e o transporte nos luxuosos ônibus da cidade. Perguntei pelo Bitonho, marido dela. O caboclo obteve licença na penitenciária para repouso religioso em casa.

Minha boa comadre nunca pôde passar a Semana Santa na praia, comendo peixe e bebendo uísque, os casais alegres, mas sem a lembrança de Deus, comem e bebem que adoecem, buscam os especialistas para cura dos andaços, que eles chamam disenteria.

O mundo está assim mesmo - disse eu à mãe do meu afilhado Toinho, já um pouco taludo, o mais velho dos dois filhos, que sonha com um emprego público, sem concurso e sem trabalho - o mundo está dividido entre os que deglutem bacalhoadas no repuxo do uísque e os que comem piabinhas fritas do rio Parnaíba, empurradas com boa cana.

Os programas de televisão estavam normais ainda na sexta-feira, morte de Cristo, que veio ao mundo para salvar as mulheres e os homens. Deus na Bíblia teve a desobediência da esperta Eva comendo a maça de que ela provou e gostou e deu-a, safada, a Adão. Aí Deus mandou Jesus habitar na terra - e Judas praticou a canalhice. Mulher e homem são, como se vê, farinha do mesmo saco, aquela engana Deus, este traiu Jesus.

Meditei em tudo. Na quaresma dos bons tempos, os sermões nas igrejas, o pano rôxo cobrindo santo e santas. As procissões silenciosas, as donas ricas vestidas de seda preta, as pobres com os mulambos tingidos de luto. Os anjinhos de asas as vestidoras de anjos, solteironas narigudas. Velhotas tabaquentes, cheirando a rapé. Havia o pessoal das irmandades religiosas, metidos na opa. Lembro-me do Zé Pindoba acompanhando o andor, cabeça baixa, como que arrependido das safadezas praticadas na sua quitanda de secos e molhados. A matraca de vez em quando convocava atenções, com as batidas fortes e espantadoras. Bons tempos.

Recordei estas cousas antigas, bonitas, e minha comadre Pulu me ajudou nas lembranças. Em casa, caminhava-se devagar, falava-se baixo ninguém ria. Não se deixava varrer casa em que pessoa alguma tomasse banho. Raros jejuavam de verdade. Comia-se muito, peixe, bacalhau, maxixe, jerimum, canjica e as inesquecíveis frigideiras. As beatas, sim, quase nada engoliam. Minha tia Iaiá, que Deus a tenha no seu reino, passava a sexta-feira santa de preto, ajoelhada horas seguidas, rezando terços, sem nada na barriga.

Comadre Pulu despediu-se, deu-me quebra-costelas demorado, pediu que a visitasse no casebre. Comunicou-me a notícia do almoção que ia preparar na quinta e na sexta-feira. Estava enjoada de jejuar o ano todo. Só escapava da fome nos dias maiores da Semana Santa, pelas boas graças do comadre caridoso. Ainda pretendia comprar, com os cobres que lhe dei, uma cachacinha para ajudar no apetite.

Gosto de minha comadre Pulu. conformado. Temente a Deus. Cozinha bem, embora, em casa, pouco acenda fogo, salvo o próprio. Vive de lavações e gomações de roupa de gente rica - aquela gente das mansões e das festanças à custa dos papagaios bancários e da inflação desnaturada e perversa.


A. Tito Filho, 16/04/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 26 de março de 2012

OS PRIMEIROS TEMPOS

Poucos anos depois de fundada, Teresina teve o seu primeiro teatro, o Santa Teresa, época em que começaram a aparecer os primeiros clubes recreativos, mais freqüentes com a inauguração do Teatro 4 de Setembro, em 1894. No ano anterior, destinado à encenação de peças teatrais na nova casa de espetáculo, houve o grêmio dramático de Raimundo Artur Vasconcelos, Fócion Caldas e outros. No inicio do século XX funcionava "Filhos das Arte", de Jônatas Batista, Mário Batista e mais alguns. Pedro Silva e Jônatas Batista criaram o Clube Recreio Teresinense, que se dividiu, surgindo a entidade "Os Amigos do Palco", orientada por Pedro Silva, Luís Correia, Fenelon Castelo Branco e Higino Cunha. Intelectuais, senhoras e senhoritas deram inicio à Hora Artística Familiar, nos anos 20, representada nas manhãs de domingo, no Teatro 4 de Setembro, com exibição de recreativos, danças, cantos, instrumentos musicais. Tornou-se o encantamento de numeroso público.

Após 1930, várias agremiações literárias e de estudos sociais tiveram surgimento para ativar a vida intelectual de Teresina, a exemplo do Teatro Experimental Escolar, o Clube Telúrico, o Teatro Acadêmico da Faculdade de Direito e Meridiano.

De prestigiada atuação antes dos anos 30, houve a Arcádia dos Novos e o Cenáculo Piauiense de Letras.

O Instituto Histórico e Geográfico Piauiense é de 1918, de brilhante atividade até a presidência de Josias Carneiro da Silva, nos primeiros tempos da década de 70, encontrando-se desativado nos dias correntes.

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Em 1931, jovens da sociedade teresinense criaram uma curiosa sociedade a quem deram o nome de A CATERVA. Foram eles Jacob de Sousa Martins, Clemente Honório Parentes Fortes, Anízio de Abreu Cavalcanti, Ismar Bento Gonçalves, Raimundo de Moura Rego, Gonçalo Lopes Lima, José do Patrocínio da Silveira Caldas, Afonso Barbosa Ferreira, Firmino Ferreira Paz e Wagner de Abreu Cavalcanti. Tratava-se de "uma congregação unida por afinidade intelectual" e os criadores desejavam sobrepor-se ao marasmo da inteligência do meio. Reinava a pobreza material que não permitia iniciativas sérias.

O seminário dominical "O Lábaro" constituía a imprensa da mocidade. Nas suas páginas revelaram-se talentos. Tinha feitio literário, mas cessou de existir por razões financeiras.

Surgiu, a 3 de maio de 1931, "A VOZ DO NORTE", com rápida conquista de leitores cultos. Tinha aspecto sadio e nas suas páginas Moura Rego e Wagner Cavalcanti publicavam elogiadas concepções de prosa e poesia.

Nesse tempo vivia Antônio Lemos, o SEMANA, respeitável figura do jornalismo piauiense, que editava o órgão político a LIBERDADE, em cuja sede ele suportava pacientemente as declamações de Wagner, as piadas de Clemente Fortes, as sátiras de Afonso Ferreira.

Os rapazes conjugavam-se, espiritualmente, e formaram um bloco especial, A CATERVA, nome escolhido por Anízio Cavalcanti e aprovado pelos colegas.

Havia em Teresina um lugar de afluência de estudantes, o Arquivo e a Biblioteca Pública do Estado, e aí se liam livros de literatura e de outros gêneros. Nesse ambiente surgiu a idéia da fundação de um jornal literário, que foi A VOZ DO NORTE, e de uma entidade de sócios restritos, integrada dos setores do órgão, denominada A CATERVA, em que preponderava a afinidade moral e intelectual dos seus membros.

Um interessante e curioso grêmio cultural, que não tinha prazo de reunião. Os jovens que o constituíram puderam sacudir a sonolência intelectual dos teresinenses nesses inesquecíveis anos da década de 30.

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Um só desses grêmios continua em funcionamento. Tiveram vida efêmera.


A. Tito Filho, 14/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de março de 2012

A PRAÇA E O PARQUE

O mestre-de-obras João Isidoro da Silva França, escolhido por José Antônio Saraiva, encarregou-se da construção da igreja do Amparo e para dirigir os trabalhos construiu casa de palha, de três divisões - uma de residência, outra dos soldados, a última dos escravos. A primeira situava-se na esquina do grande largo, onde se encontra hoje o Banco do Nordeste, seguida das demais, no rumo da rua que agora se denomina Álvaro Mendes. Na praça enorme ficariam os principais prédios públicos.

Partindo-se da igreja do Amparo, no rumo do Parnaíba dava-se sensível abaixamento do nível do terreno, e em virtude de tal circunstância o povo chamava a parte do logradouro de bacia - local em que, durante muitos anos, se armavam os bons e inesquecíveis circos visitantes, em que os molecotes do seu tope gostavam de passear em bicicletas alugadas e em que as alunas da Escola Normal faz mais de 40 anos, praticavam educação física.

Diz-se que Saraiva tinha hospedagem na casa de João Isidoro e nela assinou alguns papéis oficiais. Se verdadeiro o fato, o segundo palácio do Governo situou-se no lugar da Justiça Federal, até 1856, quando passou ao edifício do atual Museu do Piauí.

Nesse bonito e comprido largo foram construídos o antigo Tribunal de Justiça, o Departamento da Fazenda, o Teatro Santa, a Escola Normal, além de outras repartições.

Chamavam ao logradouro inicialmente Largo do Palácio. Passou a Praça da constituição. Ao depois, Praça Marechal Deodoro, nome dos dias que correm.

Muitos confundem a Praça Marechal Deodoro com o Parque da Bandeira - mas este foi criação do prefeito Lindolfo Monteiro, no tempo do Governo Leônidas Melo, em 1941. O governante da cidade arborizou certa área do terreno, adquiriu pássaros de linda plumagem e alguns bichos, colocou-os em viveiros e alojamentos próprios. Cercou todo de arame farpado. Com a vitória da oposição a Leônidas, em 1947, os partidários da UDN triunfante - segundo contam - carregaram quase toda a passarada e bicharada e a totalidade do arame, modesto prêmio aos vencedores.

Recompôs-se o Parque - outros pássaros e outros bichos novamente participavam da curiosidade dos visitantes. Deu-se, porém, reforma total do belo patrimônio de Teresina. Retiraram-se os animais bípedes e os quadrúpedes. Em redor das plantações, grades imponentes. Local de aprazível lazer, parece-me obra do ex-prefeito Joel Ribeiro, no primeiro Governo Alberto Silva.

Não se confundam as cousas. Existe Praça Marechal Deodoro e existe Parque da Bandeira. Este fica situado naquela, melhor dizendo: o Parque faz parte da Praça. Caracterizando-se: o Parque é a parte cercada da Praça.


A. Tito Filho, 13/02/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 13 de março de 2012

PADRE CHAVES

Monsenhor Joaquim Chaves, o Padre Chaves, como ele gosta de ser chamado, faz muitos anos que se dedica de corpo e alma a igreja do Amparo, a primeira de Teresina, a igreja de seu amor. Sacerdote virtuoso, coração de bondade e sentimento, venera-o a paisagem teresinense, a que ele tem doado o melhor de uma vida de trabalho espiritual intenso, rezando missa, batizando menino, casando noivos, confessando pecadores, confortando fiéis. Todos gostam das práticas religiosas que ele realiza, pois nelas gasta apenas os instantes preciosos, com o que exonera a gente da freguesia de demoradas cerimônias e predicas puxadas. Adota receita segura para não prejudicar a paciência do próximo, ao mesmo tempo em que se põe sempre solicito e amigo leal e correto, inexcedível no querer bem aos outros.

Ao lado da piedade, debruça-se sobre a pesquisa histórica, persistente, sustentado por capacidade de observar, e desse esforço surgiram escritos de valor, úteis, honestos, rico patrimônio para repasto dos estudiosos. O seu livro sobre Teresina, que se incorporou as festas comemorativas dos primeiros cem anos da cidade como documentário expressivo, lembra as fases iniciais da capital piauiense - as ruas, os cafés, os templos, as casas comerciais, o teatro, os furdunços carnavalescos, as manifestações religiosas, os episódios cívicos, o telegrafo, o barco de vapor, a higiene, a policia, as escolas, os passeios de cavalo - enfim o que ia nascendo, o que se ia criando, os passos inaugurais dos costumes e do progresso da comunidadezinha plantada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, o fundador, entre dois rios. E os forrós. E os serenos de baile. E a discurseira laudatória nos banquetes e bródios. Quantas cousas antigas, com cheiro de mofo, o bom Padre buscou em registros velhos e delas fez obra saborosa.

Neles o pesquisador preocupa-se sobretudo com a verdade e tem coragem de assentá-la e escrevê-la. As lições dos seus livros constituem fonte segura para conhecimento de variado aspecto da história do Piauí, que ele expõe e analisa com critério. Oferece estilo plástico, prosa ágil, sabe reviver o passado e os homens que o construíram, e faz crítica de forma imparcial e cuidadosa.

De mim, julgo-o historiador sereno, hábil, metódico, às vezes irreverente, apoiado sempre sobre invulgar capacidade de discernir e interpretar.

Teresina tem bons historiadores, como Pereira da Costa, Clodoaldo Freitas, Higina Cunha, para citar alguns mortos ilustres. Dos vivos muitos são os pesquisadores dos acontecimentos que se verificaram na cidade criada por José Antônio Saraiva.

O padre Chaves não se preocupou apenas com os episódios da vida histórica e política da cidade que tem o nome de gente nobre. Foi além, revelando, em livro curioso, aspectos sociais e pitorescos da cidadezinha tranqüila e afetiva. Antes dele, preocupado somente com os costumes do fim do século XIX, só Abdias Neves, num romance naturalista.

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Faz anos o padre Joaquim Chaves obteve o 1º lugar em concurso do governo do Estado, com a obra O PIAUÍ NAS LUTAS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, obra de estudo sério, em que se definem personalidades e episódios sinalizadores de patriotismo invulgar na conquista da autonomia de nossas instituições, que expulsaram as armas portuguesas do território piauiense - trabalho que pode figurar entre os que nos legaram Pereira da Costa, Odilon Nunes, Clodoaldo Freitas, Anísio Brito, Carlos Porto, Esmaragdo de Freitas, Abdias Neves, para citar alguns mortos, e Wilson Brandão, Pe. Cláudio Melo, Bugyja Britto, Camilo Filho, entre os vivos.

Fez 2ª edição da obra em 1975, agora revisada pelo autor, na exaustiva tarefa de nova redação, o que se conseguiu com a cooperação da Academia Piauiense de Letras, para esta 3ª edição, sob os auspícios da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, dirigida pela inteligência de João Cláudio.


A. Tito Filho, 14/03/1992, Jornal O Dia

sábado, 10 de março de 2012

NAMORADOS

No meu tempo não havia estas datas comemorativas, os dias disto e daquilo: dia das mães, do papai, do vovô, da vovó, da criança. Cada ramo profissional tem o seu: dia da aeromoça, dia do comerciante, dia do comerciário, da meretriz, do funcionário público, do motorista. A indústria e o comércio deveriam criar outros, como o dia do netinho, da titia, do coveiro. Que tal uma data que lembre as COROAS, mulheres que deram o tiro na macaca e que são as mais apetitosas rabos-de-saia da paróquia? Por extensão, também se assinalava a data homenageadora das BONECAS, outra das DONDOCAS. O dia-guei e o dia-sapatão. Nestes dois últimos as vendas seriam espetaculares.

Já se festeja o dia dos namorados, o que não acontecia alguns anos atrás. Também já não se namora como antigamente, o casalzinho de mãos dadas apenas para que o público visse tanta inocência nas praças animadas das retretas musicais, ou no uso de certas bolinações na penumbra dos cinemas.

Nos tempos atuais as farmácias estiveram repletas de moços e moças na compra do melhor presente para os receios de cada qual: as camisinhas. Módicas de preço e de resultados mais ou menos seguros nos motéis que já estão cobrando por minuto de ocupação das camas redondas e filmes de ensinança pornográfica.

Minha primeira namorada foi uma matutinha muito alva, filha de latifundiário do antigo Marruás, hoje Porto. A menina com os pais comparecia nos festejos de Nossa Senhora dos Remédios. A gente dançava mal nos bailes de primeira que iam das dez da noite às duas da madrugada. Amor platônico, que a gente não sabia ainda das senvergonhices da vida.

Já taludo, consegui em Teresina namorar um morenão cheio de carnes, cabelos negros, bonita como quê, e ao lado dela, assistindo a filme de amor, aprendi a arte sublime da bolinação, como se dizia o pegamento nas saliências do colo bem feito. A garota também sabia adotar as suas liberdades provocativas.

E segui o meu destino de namorador constante, e vivi momentos inesquecíveis e deliciosos. Foram tantos. Mas a gente ficava nessas primícias encantadoras dos primeiros contactos. Avançava-se um pouco, e mais não se fazia nem se tentava, salvo se quisesse descontar o vale e sujeitar-se ao casório infalível.

Hoje se namora de modo diferente. Extinguiram-se as virgens, feitas as exceções ilustres e de praxe. Os namorados buscam as tardes e as noites nos motéis, ou nos relvados das praças esquecidas, ainda nas areias das coroas dos rios, no tempo de estio, também debaixo dos pés de pau. E nos automóveis todo tempo, em posições dramáticas.


A. Tito Filho, 20/03/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

TIPOS

Teresina, ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1988, cento e trinta e seis anos de nascida, por mãos de José Antônio Saraiva, sob auspícios da bondosa imperatriz. A cidade está sendo homenageada, festejada, cantada em verso e elogiada em prosa. Uma centena de historiadores conta episódios, recorda coretos e pracinhas onde namoravam moças-donzelas. Nelas hoje habitam quase só DONZELOS. O baiano macho que CHANTOU a cidade na Chapada do Corisco, depois de derrubar a mataria de muitos bichos, está em todos os jornais. A seu lado trabalhava um português inteligente, o João Isidoro, mestre-de-obras de competência proclamada.

Ninguém recordou os tipos populares da antigamente gostosa comunidade, os doidos-mansos, que faziam rir a meninada travessa e os maduros e os velhos.

Noutros tempos, existiu MARTINIANA, de alcunha CAPITOA, negrona corpulenta, voz forte, sempre disposta. Nasceu na primeira capital do Piauí. Em Teresina exercia a função de quitandeira. Contam que tinha atividade viril. Gostava de furdunço e fazia voz de homem para mulheres invertidas. Andava de enorme chapéu de palha de carnaúba na cabeça. No rebuliço de enorme corpulência, caminhava nas ruas tocando pandeiro e recitando quadrilhas que ela mesma fabricava.

Pelo começo do século houve o BALAIEIRO, católico desses de irmandade: Criou o velho CHUMAR, o mesmo que beber cachaça ou outro ingrediente de espírito. Gostava de sentar-se à porta de casa, tardezinha, a tocar viola desafinada. Tratava conhecidos e desconhecidos por MEU BEM e a todos pedia dinheiro para CHUMAR.

Outro foi Feliciano, o MAROMBA. Inteligente. Físico bonito. Rebentava rapadura na cabeça. Brincalhão. Zangado semelhava o capeta. Subia e descia rua com um caixãozinho de defunto debaixo do sovaco, em que, segundo afirmava, conduzia ANJO, menininho que morria bem cedo, sem pecado e sem batismo e tinha morada eterna num lugar chamado LIMBO.

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Relacionei os tipos populares que não conheci. Encontrei-os na crônica de jornais velhos. Quando me entendi nestes espaços de José Antônio Saraiva, a doidice mansa tinha outros representantes. Dondon era dono de jornal. Atacava gente graúda. Um dia os poderosos o puseram no hospício. Quando saiu, mais xingou os políticos e escreveu que passou dez dias no asilo, seis por conta do governo e quatro por sua conta. Vendia capim em lombo de jumento. Ensinou jegue a cumprir voz de comando: esquerda, direita e alto. Calçava alpargatas vistosas, oferecendo pelas vias públicas capim aos burros de Teresina. MARIA SAPATÃO deixou saudades. Nenhum parentesco tinha com o SAPATÃO de hoje em dia, pois assim chamada em virtude de usar sapatos enormes. Negra gorduchona, beiços imensos, dentes alvos, peitões caídos, barriguda e bunduda, enfeitava-se com um dilúvio de pulseiras ordinárias nos braços roliços, anéis nos dedos, até no polegar. Andando rua acima, rua abaixo, mostrava um toque de nobreza idiota. JAIME DOIDO tornou-se admirado porque rejeitava dinheiro. AVIÃO ainda não passou desta para pior morada. Põe caixa de papelão na cabeça e sai a enchê-la de quanta besteira apanha pelas calçadas. Imita velhos filmes de aviação: faz o ronco da aeronave e o acompanha de movimentos ondeados da mão direita espalmada. Imita o MOCINHO e mata os bandidos covardes. Perito em furtar peru no Natal.

Todos merecem homenagem de homens e mulheres, pesquisadores e historiadores, uns trezentos, neste aniversário da cidade que Saraiva idealizou e construiu. Homenagem dos presentes e dos pósteros. Davam espetáculo na via pública. De graça. Um deles prossegue nas representações. Atores mais talentosos do que os bons de juízo da Federativa República do Brasil.


A. Tito Filho, 31/01/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de março de 2012

ANTANHO

Fazem-se preparativos para uns dias de gala em homenagem ao centenário do querido Teatro 4 de Setembro. Registrou a crônica que no dia 4 de Setembro de 1889, quase no fim dos tempos imperiais, senhoras ilustres, de chiques vestidos da moda na barra da saia, perto do osso gostoso, foram ao presidente da Província do Piauí, Teófilo dos Santos. Queriam um teatro na capital. O primeiro magistrado deferiu o pedido e admitiu que os bagarotes para a construção estavam nas arcas do tesouro público. Podiam as matronas providenciar a planta. A 21 de setembro houve a pedra fundamental e a respectiva discursaria. Obra concluída em 1894 e inaugurada a 21 de abril.

Nos idos de 1938 e 1939, trabalharam no 4 de Setembro notáveis companhias teatrais, como as de Jaime Costa, Barreto Júnior, Álvaro Pires, Procópio ferreira e outras, sem que se consiga esquecer Marquise Branca, a adorável Marquise, carnes de exemplar brancura, no comando de garotas livres, vestidas de calcinhas até o meio das coxas, mas de pedaços da barriga de fora. As partes pudibundas mais sérias ainda ficavam escondidas, só apareciam os montes apetitosos por trás e pela frente. Esses espetáculos eram condenados pela beatice dos dois sexos e pelo puritanismo de casadas receosas e maridos safados. Só os freqüentavam machacás solteiros, atraídos pelas meninas escandalosas. Os chamados homens direitos se viam privados, caladões nas cheirosas redes caseiras, sonhando de olhos abertos com os repastos lascivos ofertados por Marquise Branco. Uma delas, minha querida Zezé Gonçalves, punha a platéia louca, babujando despudor, na hora de cantar, cigarro no canto direito da boca pintada, cabelo pega-rapaz, vestida à moda de rapariga, aquele tango argentino rico de volúpia. Ela, olhos mortos, num gesto de doação, voz lânguida, virava a cabeça da gente: FUMANDO ESPERO AQUILO QUE MAIS QUERO...


A. Tito Filho, 12/04/1992, Jornal O Dia

DA COSTA

Muitos, dezenas, estudaram Da Costa e Silva nos seus aspectos clássicos, e simbolistas, parnasianistas, no seu lirismo e no seu sensualismo, estas cousas de que o vulgo pé-rapado, não entende, nem deve entender.

Quando Dirceu Arcoverde me convocou para escolher as poesias que figurassem nos painéis da praça Da Costa e Silva, em número de quinze, escolhi depressa as que inspiraram na terra e nas paisagens piauienses, nas atividades do homem, nos quadros da natureza e nos sentimentos que exprimissem tristeza ou alegria, e no rio de presença perene no coração do poeta. E desse tipo de poemas encontrei doze. Completei a exigência com os versos de Fé, Esperança e Caridade, que o zepovão não entende, e com os hinos do Piauí.

Gosto de Da Costa quando ele se lembra do seu vilarejo, Amarante, pois aí lhe decorem os brincos da infância irrequieta. Admirava-a nos encantos naturais e não a deslembrou da igrejinha branca nem do povo feliz - o povo "que ri das próprias mágoas".

Ninguém recordou com tanto realismo o conhecido engenho de madeira.

Noutros versos fixa o espetáculo cruel da derrubada da mata, o baque da árvore, cujo tronco reverdece com a chuva, como se fosse o protesto da vida renovada "a Queimada" condena a alma desnaturada do homem, a natureza a chorar, calada. Em "O Inverno" está a ressurreição da natureza, e o poeta anuncia o amor e a abastança. O soneto "Aboio" canta o sertão, a vaquejada, a ferra dos animais, a rês desgarrada. Noutra inspiração, invoca a balsa, "a embarcação simples e boa", como ele diz.

Longe do Piauí, no Recife, a saudade, a angústia. Lembra-se da mãe, do rio, dos friorentos dias do fim do inverno, e cria um dos mais lindos e tocantes sonetos na língua portuguesa, - a cantiga das águas soluçantes, o caburé com frio, os gemidos dos canaviais, as barbas do Parnaíba famoso, o mugido dos bois da terra distante. No poema a definição sem defeito da saudade que o tortura - o olhar de minha mãe rezando, asa de dor do pensamento.

Gosto de Da Costa quando ele canta o Piauí. Não o aprecio nas poesias em que segue os caminhos das apelidadas escolas literárias, que a gente entende depois de tomar lições de estética. Melhor compreender o grande amarantino por intermédio do indestrutível Freud.

Da Costa, nas noites recifenses, fugindo da saudade por via da bebida - "Álcool!" Para esquecer os tormentos da vida e cavar, sabe Deus, um tormento maior" - Da Costa continua o maior cantor da terra natal e o apaixonado do riozão, cujas águas, no mundo infantil, lhe plasmaram o espírito e lhe deram, como prêmio, a perenidade de gratidão dos seus conterrâneos.

A poesia nascida dos sofrimentos interiores do poeta permanece imorredoura. Bendita cidade do Recife, que fez o poeta chorar por dentro e oferecer ao Piauí a melhor poesia de todos os tempos.


A. Tito Filho, 23/01/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 5 de março de 2012

O VELHO CLUBE

Senhores da mais alta evidência, pelo dinheiro e pelo prestígio político e intelectual, fundaram a sociedade recreativa Clube dos Diários, no ano do centenário da Independência do Brasil, 1922. Coube a primeira presidência ao comerciante e proprietário Antônio Ferraz. Deu-se o baile inaugural a 31 de dezembro do mesmo ano, na casa residencial do negociante Antônio Campos, batizada de CAMPINA MODESTA. Disseram-me depois que a festa esteve maravilhosa. Presença da fina flor da alta roda, mulheres vestidas de muito luxo e beleza. Anotaram-se na crônica da época nomes prestigiosos de homens e suas famílias, como Matias Olimpio, Miguel Rosa, Valdivino Tito, Jarbas Martins, Mário Baptista, Evandro Rocha, Sotero da Silveira, Simplício Mendes, Antonino Freire, Heli Castelo Branco, Antônio Costa Araújo Filho, Heitor Castelo Branco, Álvaro Freire, Agripino Oliveira, Antônio Chaves, Dídimo Castelo Branco, Joel Oliveira, com destaque especial para o solteirão governador João Luís Ferreira e outros.

Em 1927, houve a festiva inauguração da sede própria, no terreno doado pelo governador Matias Olimpio, a mesma que atravessou os anos até hoje, e que, de vez em quando, sofria alterações para atendimento dos novos sócios que se filiavam ano por ano. A atual sede está aumentada mais ou menos da metade do que foi antigamente.

Tornou-se essa sociedade recreativa o centro social da intensa atividade. Era a instituição querida dos teresinenses. Deslumbrantes as suas festas dançantes. Muitos namoros, noivados e casamentos tiveram inicio nos seus salões. Homenagens a políticos, banquetes, recepções ainda hoje estão na lembrança da cidade. Carnavais formidáveis vivem na recordação permanente de velhos foliões. Ali se realizaram conferencias literárias e posses acadêmicas aclamadíssimas. Eleições de misses. Reuniões de objetivo vário.
Ainda na década de 60 o Clube dos Diários, apesar do nascimento e florescimento de outros grêmios, mantinha-se altivo, como uma relíquia, freqüentado por uma sociedade que já afrouxava os freios morais de homens e mulheres. A juventude entregava-se aos primeiros passos da constatação de costumes nas coletividades humanas.

Nos fins dos anos 60 e principio da década seguinte, a agremiação tão querida entrou em decadência e chegou ao estado que chegou, requentada pelos que apreciam o jogo noturno e madrugadino, por homossexuais dos dois tipos, garotos vadios, pivetes. Ainda algumas personalidades ilustres nela espairecem, chorando intimamente as recordações de um tempo romântico que não volta mais. O ambiente está hoje de sujeira e integral desagregação física, do solo ao teto. Sombra dorida de um passado de riqueza espiritual. Em tudo, os fantasmas dos que bailaram, cantaram e se divertiram na magia de um mundo maravilhoso que a imbecilidade dos homens maus não soube preservar.


A. Tito Filho, 05/04/1992, Jornal O Dia

ANTIGUIDADES

A história de Teresina guarda muita cousas pitorescas e inesquecíveis. Abaixo se relacionam algumas.

PIPIRAS. As pipiras viveram no tempo da fábrica de tecidos, assim chamadas porque merendavam bananas.

CURICAS. Eram as empregadas domésticas, que não se sentavam à mesa dos patrões, mas recebiam o prato de comida por cima do peitoril que separava a sala de refeição da pequena área descoberta no interior da casa. Manoel Joaquim, conforme me contou o fabuloso Antônio Sales, testemunha ocular da velha Teresina, realizava o baile das curicas. Havia ainda o concurso de misse curica.

FREGES. Vendiam bóias fartas e saborosas em alguns pontos da cidade. A garapa de cana procedida de São Joaquim e Acarape, em ancoretas e cabaças. Comprava-se o caneco com um pedaço de beiju. Dias festivos, na porta do Teatro 4 de Setembro ou dos arcos, vendiam-se manuês, arroz-doce, jenjibirra, frito de porco, frutas e outras guloseimas.

MATINÊS. Antes da luz elétrica, os bailes se realizavam de tarde, a partir do meio-dia, porque de noite a iluminação se fazia de lampiões acesos de tardezinha e apagados às dez da noite.

CHAFARIZES. Funcionavam na rua da Glória (Lisandro Nogueira), na avenida Frei Serafim, na antiga rua Santo Antônio (Olavo Bilac), no Bairro São João, no Largo do Poço (praça Landri Sales).

BANHOS. Os homens tinham os chamados portos para banho: o Pau-d'Água, em frente à atual praça Da Costa e Silva, e os das Tabocas, abaixo da ponte metálica.

QUITANDAS. Bem sortidas. Carne-de-sol, porco salgado, toucinho, banha derretida, bacalhau, sardinha portuguesa, pães de massa grossa e sovado, manteiga proveniente da Europa em latas grandes, vendida no retalho. E deliciosos vinhos portugueses.

CALÇAMENTO. Conta-se que o primeiro calçamento de Teresina foi obra de Domingos Monteiro, intendente e prefeito três vezes. Ruas apenas empiçarradas. No verão se levantava muita poeira, chamada PÓ MAMBIRA, pois a irreverência popular apelidara o administrador de Mambira. Conheci Domingos Monteiro, cidadão honesto, trabalhador, culto e dedicado aos problemas da cidade.

QUITUTES. Muito apreciados: os rebuçados de dona Loló, as cocadas da Totonha, a panelada da Luziana, o assado de panela do Filomeno, o cuscuz do João Olegário, os refrescos de pega-pinto, os bolos de dona Quequé, os sorvetes do Café Avenida, as empadas do Manuel Português, as mãos-de-vaca do Doutor. O Bar Carvalho servia filé e fígado de grelha de sabor ainda presente na saudade de quem os comeu, feitos por Gumercindo, Guimarães, José Bebé, Ludgero e o auxiliar Mundico.

MATO. Batia-se o mato das ruas duas ou três vezes por ano. Quando não se conseguiam operários, os serviços se confiavam aos presos da penitenciária.

ENTERROS. Os caixões se levavam a mão por carregadores ou pessoas amigas do defunto. Gente rica pagava mais, com direito a banda de música: os adultos, marcha fúnebre, valsa para as moças virgens, dobrados para os rapazes. Principais funcionários das funerárias: Anísio Veras e Benedito Caixão.


A. Tito Filho, 01/04/1992, Jornal O Dia

domingo, 4 de março de 2012

O CRONISTA JOÃO ISIDORO

Chamou-se João Isidoro da Silva França, português de origem, braço forte de José Antônio Saraiva na construção de Teresina, a primeira cidade brasileira levantada em traçado geométrico, no chão da mata derrubada. As outras são Belo Horizonte, Goiânia e Brasília.

Teresina não nasceu espontaneamente, mas de modo artificial, prevendo-se as ruas e praças. Planta de João Isidoro. No Piauí, os núcleos populacionais tiveram inicio nas fazendas de criação de gado, junto às quais se erguia o templo religioso - e assim começou a futura capital do Piauí na Chapada do Corisco, um lugar de rebanhos bovinos. Faltava a Casa de Deus e o mestre-de-obras de Saraiva logo riscou a planta da igreja Nossa Senhora do Amparo, inspirando-se nas linhas das igrejas nordestinas.

João Isidoro fixou-se na Chapada do Corisco em 1850. Construiu três casas de palhas, uma para a sua residência, esquina da atual rua Rui Barbosa, na Praça Marechal Deodoro, e as outras duas no rumo da hoje rua Álvaro Mendes, destinadas ao corpo policial e aos trabalhadores. Lançou-se a pedra fundamental do templo católico a 25 de dezembro de 1850. Houve banquete. Muito foguetório. Ia nascer uma cidade. As mulheres usaram vestidos bonitos e se enfeitaram de jóias caras, pois já havia o soçaite da época.

O fabuloso João Isidoro, como disse dele o historiador Moyses Castelo Branco Filho, contou os festejos a José Antônio Saraiva, em carta, por esta forma: "Ao depois de uma missa do Senhor Vigário dita do meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da Comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila, tendo também acompanhado o Alferes do Destacamento as autoridades junto com alguns praças... e mais imensidade de povos  de fora, que aqui se ajuntou, toda esta brilhante companhia... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada e metendo o Senhor juiz de Direito na pedra solene duas moedas, uma de prata e outra de cobre, com o cunho do Império... o dito Sr. Juiz de Direito deu vivas a sua Majestade Imperial o Senhor D. Pedro Segundo e a S. Imperial Família e à Constituição do Império, e o Exmº Sr. Presidente da Província... e ao depois disto, deram-se três descargas à tropa de alegria".

Os convidados vieram da Vila do Poti, que hoje é o Poti Velho.

João Isidoro escreveria a primeira crônica social de Teresina.


A. Tito Filho, 26/01/1992, Jornal O Dia