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quinta-feira, 29 de março de 2012

MONOTONIA

Basta que a autoridade proíba a exibição de programas ou quadros televisivos perniciosos, logo se enfurecem os falsos defensores da liberdade de comunicação, sob invocação de mandamento constitucional que veda toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. Esquecem os pregoeiros da total exibição de aspectos nocivos das cousas e dos fatos, como as pornografias e as cenas de degeneração moral - esquecem que a constituição de 1988 determina que se observem, nos programas de televisão, as finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas e se respeitem os valores éticos e sociais da pessoa e da família.

Já se escreveu que a TV no Brasil se tornou um processo de maus exemplos, deseducativo por excelência. A sua poderosa influência revolucionou hábitos familiares, sobretudo por através das novelas de conteúdo passional e emocional, em que filhos desrespeitam os pais e estes se entregam a cenas deprimentes no recesso do lar. Não se pode fugir à triste realidade de que os freios morais da sociedade brasileira estão quase desaparecidos graças à televisão. A própria linguagem, um dos mais sérios símbolos da pátria, se degrada nas descomposturas, no calão, na baixeza das expressões entre pessoas que bem deveriam respeitá-la como instrumento maior de transmissão do pensamento.

Há no Brasil, em todas as partes do território nacional, baixeza moral, política de espertezas, ausência de ética, fuga aos deveres mais caros - e quase a totalidade das mazelas que desencantam os brasileiros se deve à televisão.

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Analisem-se os programas que mais curiosidade despertam nas telas televisivas, além das novelas de dezenas de capítulos, de português desasseado, expressões chulas, cenas inconcebíveis de ridicularias.

Noite e dia, dia e noite, a mesma cousa levada a um público que se comporta passivamente ante o desrespeito à personalidade de crianças, adolescentes, moços, maduros e velhos. Sempre o mesmo cenário e os mesmos assuntos. Oferecimento de dinheiro fácil a uma platéia à cata das cédulas do apresentador milionário. Calouros humilhados, objeto de gargalhadas de tipos e tipas dos júris deseducados, depois que a vítima recebe um banho de pó ou cousa semelhante, por vezes prejudicial à saúde física também. Pobres criancinhas nos xôs desenxabidos que as tratam mal e lhes impõem atitudes de obediência a determinações arbitrárias. Chico Anísio, inteligência admirada, bem poderia criar programas para público inteligente, que busca humor verdadeiro, jamais a monotonia de uma escolinha cujas cenas são as mesmas, de tarde como de noite, numa debochativa crítica ao processo das aulas e aos estudantes e mestres deste Brasil cuja escola pública se encontra desacreditada, ao lado dos cursos particulares que exercem o papel de arrecadadores de altas quotas do universo de estudantes convocados por propaganda irreal e malsã.

A escolinha de Chico Anísio constitui severa censura ao ensino nacional e serve de péssimo exemplo aos jovens que vêem televisão, revelando só tipos de alunos que a freqüentam, o homossexual, os débeis mentais, os ridículos, os estropiados da língua, os imbecis, os embriagados, enfim uma fauna que caracteriza de modo às vezes absurdo, às vezes real, as aulas brasileiras.

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O governo Collor está no dever de consertar os programas da televisão brasileira. Nela, na TV, inexiste moral. Para angariar audiências, anulam-se os valores éticos. Rebaixa-se a sensibilidade do povo, com o ridículo em tudo, num deboche permanente aos problemas, dramas, derrotas e misérias dos brasileiros.

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Já no carnaval de 1922 se exibiram artistas nus como nasceram, inclusive um macho representante de Adão. Tudo de fora.


A. Tito Filho, 23/04/1992, Jornal O Dia

RETRATO

Se me lembro e quanto do velho processo de culpar os outros pelo que praticamos erradamente. Assim se dava na escola. As professorinhas de curso primário não conseguiam que os meninos aprendessem. Nem a palmatória das rabugentas mestras de antanho, feias, solteironas, que mantinham escolas particulares de ensinança do ABC e da tabuada, palmatória ameaçadora, só a muito custo conseguem meter na cachola da petizada o necessário à respectiva desasnação. A culpa, diziam eles, pertencia à família, que não educava os filhos para o estudo, mas incentivavam a deseducação e estimulavam a vadiação. Recebiam-se bolos a valer, para a aprendizagem da operação de dividir números inteiros.

O sujeito saia do primário e ingressava no ginásio, depois do exame de admissão rigoroso. Professores carrancudos, exigentes, não suportavam a burrice dos discípulos. E haja reprovações. Oito ou mais disciplinas se destinavam aos estudantes já taludos. Depois, o ensino superior com dificílimas provas no chamado vestibular.

Os professores do ensino ginasial culpavam o ensino primário pelas dificuldades em que se viam os estudantes. Péssima aprendizagem. Nas faculdades superiores, tropeços constantes, e logo os mestres atiravam a culpa no ensino antecedente. E se o ensino superior diplomava doutores ricos de burrice, a culpa tinha como responsável o curso de humanidades, nos velhos tempos chamados ginasial ou secundário.

Quando se buscava explicação na família, esta se defendia, e bem, culpando o governo, sempre de maus exemplos, e a sociedade dos homens, cujos modos de vida mereciam veementes censuras. Só aprendia o sujeito que quisesse.

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A promessa eleitoral de Collor, em que acreditaram 35 milhões de brasileiros, apoiou-se na morte da inflação. Apregoava o candidato que vinha um só tiro na arma poderosa, com o qual mataria, sem dó nem piedade, o bicho-papão da economia dos patrícios. A ministra Zélia, uma paixão, seqüestrou poupanças e aplicações dos dinheiros de pobres e ricos, para o objetivo de enterrar o regime inflacionário.

No dia da posse presidencial, a carne nessa tão maltratada Teresina custava duzentos cruzeiros o quilo. Carne de primeira, sem pelancas, sem osso. Hoje se compra o mesmo produto, carregado de sujeira, por quatro mil e quinhentos cruzeiros. Que os matemáticos calculem a percentagem do aumento.

O tiro saiu pela culatra. A inflação continua a sugar os raquíticos vencimentos de operários e dos funcionários públicos. Mas logo se encontrou o grande responsável: a exploração do comércio. A ministra, uma paixão, encontrou, como Sarney na época do cruzado a saída fácil do tabelamento. As prateleiras dos comerciantes esvaziaram-se, liberaram-se os preços, e o presidente fixou a responsabilidade dos empresários, e estes se explicaram com a alegação dos aumentos constantes do valor da matéria-prima. E assim por diante, distante e onerosos os processos de fabricar produtos. Alegou-se ainda os altos impostos oficiais e os escorchantes juros bancários.

Mas qual o grande aumentador de preços neste país? Simples, o próprio governo, nas taxas constantes de gasolina, energia, telefone, correio, com aumentos mensais. A verdade verdadeira está em que o Brasil representa a tragédia de um povo sem alimentação, sem saúde, sem escolas, sem transporte, sem que possa ao menos sobreviver, sustentado de salários vergonhosos.

Deus se apiede dos milhões miseráveis do Brasil.


A. Tito Filho, 16/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 28 de março de 2012

COMENTÁRIO

A 21 de abril, depois de muito sofrimento e irresponsabilidade de alguns médicos, morreu Tancredo Neves, presidente eleito da República. Ainda a 21 de abril decorreram mais de 30 anos da fundação de Brasília, cidade artificial criada por dois gênios, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Os dois projetaram-na para 500 mil habitantes, mas hoje ultrapassa os dois milhões de habitantes, cercada de favelas miseráveis por todos os lados, o que demonstra que o governo brasileiro jamais adotou medidas sérias em benefício da tranqüilidade social.

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Fez também a 21 de abril 200 anos do sacrifício de Tiradentes, na força armada no Largo da Lampadosa, um brasileiro como poucos, de coragem e de vergonha, que assumiu integral responsabilidade pelo movimento dos conjurados mineiros, seus companheiros de ideal. Não denunciou ninguém.

Anos passados era uma de civismo nacional o dia do protomártir da independência. As escolas, as instituições culturais, os organismo de governo promoviam significativas solenidades, para lembrar a memória de Tiradentes. Hoje, só por exceção, raras entidades promovem gestos de homenagens a quem tanto compreendeu os anseios patrióticos nacionais, dominados pela tirania portuguesa.

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Neste 1992 houve a Semana Santa, dias em que a Igreja realiza as cerimônias da paixão e morte de Cristo. Tempo de meditação. De modo geral o recolhimento espiritual dos fiéis começa 4ª feira e se prolonga 5ª, 6ª feira da via crucis rumo ao Calvário, sábado da aleluia, domingo da ressurreição. Cinco dias em que os católicos cumpriram as obrigações religiosas nos tempos e depois se recolheriam à intimidade dos lares, para comunhão com a família.

Que se deu este ano? O feriado nacional de Tiradentes caiu na 3ª feira. A Semana Santa encerrou-se domingo, dia 19. Logo a malandragem brasileira, com apoio oficial, enforcou o dia 20. E as coisas que deveriam ser sérias foram mandadas às favas. A Semana Santa e Tiradentes emendaram-se, sete dias de ódio, num país em que não há necessidade de trabalho nem esforço.

Estude-se o Brasil dos últimos 40 anos. Um país sem leitura séria, muito bem exemplificado pela Escolinha do Professor Raimundo, de alunos idiotas, imbecilizados, pândegas. Enterrou-se o civismo. O jovem não tem horizontes e responde com a droga e a violência. Menino-de-rua tornou-se profissão rendosa e altamente confortável.

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Em abril de 1992, a Semana Santa e Tiradentes transformaram-se num feriadão de estradas entupidas de carros que buscavam o vício e a promiscuidade das praias de sexo à mostra. Retrato de um Brasil doente, rico de preguiça e de menosprezo à dignidade nacional.


A. Tito Filho, 12/05/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de março de 2012

A TELEVISÃO

Estudiosos em geral depõem que a televisão se tornou um processo dos mais ativos para que se inquiete o homem, sobretudo o futuro do homem, a criança, quando deveria ser importantíssimo meio de educar as coletividades para a vida. Observe-se que as novelas, de platéias numerosas e obcecadas, de conteúdo passional e emocional, dia por dia transformadas em coceira nacional - as novelas deformam personalidades, impõem hábitos, ensinam condutas violentas, deterioram a língua pátria. Pior do que as mazelas condenadas, a televisão brasileira vem praticando a perversidades do empobrecimento cultural do Brasil, e assim se uniformizam costumes regionais da pátria enorme.

Pouco a pouco desaparecem os agradáveis piqueniques de famílias e amigos, pobres e ricos, substituídos pelos americanizados coquetéis nos clubes, em que a elegância faz que se delicia de salgadinhos sem gosto, enfeitados de rodelinhas de azeitonas e salsichas, bem assim doses duplas de uísque gelado que a propaganda insinua como benfeitor das coronárias. Institui-se por força da publicidade a civilização dos enlatados. Sumiram-se as danças típicas, e em lugar delas vigoram os trejeitos, as macaquices, a barulheira e o histerismo do roquenrol, que o anticivismo importou dos norte-americanos, que aqui ganham milhões nos festivais de praça pública. A cozinha dos quitutes gostosos dos nossos avós se transformou na fábrica dos pratos sofisticados de denominação estrangeira nos restaurantes de toda parte. O cinema tem fundamento na violência, no sexo, no adultério, na vileza das ações humanas. A criança desconhece as encantadoras estórias da boca da noite, antes do sono tranqüilo. Hoje se educam nos xôs das xuxas. A língua nacional circula deformada no iê-iê-iê da nação inteira. Não há diferença de tratamento no caso dos pronomes TU e VOCÊ. Ambos se põem na mesma frase do individuo que conversa com o semelhante. A novela orienta a juventude, a maturidade, a velharia para o desrespeito recíproco. Pais e filhos se xingam e se insultam. Os bicheiros, os assaltantes, os traficantes de droga, os vendedores de crianças ganham admiração generalizada. Aos estudantes servem de exemplo as conquistas fáceis e a facilidade de ganhar dinheiro sem o trabalho correspondente. Dinheiro a rodo lucram os profissionais da esperteza. Projeta-se o criminoso e esquece-se a vítima. Não se mostra a atividade honesta, não se elogiam os que cumprem o dever. As bocas deseducadas proferem baixezas como expressões naturais, de pessoas inteligentes e que atuam conforme a moda vigorante. Não se vê na televisão, salvo raramente, a realidade brasileira, o quadro das suas populações sofridas, angustiadas, nenhuma delas exceto alguma vez por exceção, demonstra o mínimo interesse em que os brasileiros conheçam os progressos culturais das regiões do país. Desaparecem pouco a pouco as festas civicas e populares. Até o carnaval carioca, pleno de bom humor antigamente, festa de encantamento e beleza, perdeu as suas características de rua e de clubes, liquidadas pelos bilhões de cruzados gastos na estroinice das escolas de samba do peladismo pátrio e nas baixezas e perversões sexuais dos bailes de degenerados.

A televisão pratica verdadeiro crime espiritual, uniformizando o Brasil. Música, cantoria, cozinha, vestuário, usos, hábitos, costumes, estória, sexo, brinquedos infantis, teatro, cinema, linguajar, lendas, diversões - tudo se vai bitolando para que se eduque um pobre povo abandonado e que se orienta para comprar, para gastar dinheiro na imposição de quanta impostura o industrial fabrique - educação para a conquista de um falso conforto. Os canais de propaganda insinuam que o afeto se reduz ao presente para a mãe, para o namorado, para o pai, e haja dinheiro para enriquecimento sempre maior dos que fabricam e dos que vendem. Desapareceram as práticas regionais. Sufocou-se a arte verdadeira. Impera a subliteratura. A deformação é geral. O Brasil está totalmente submisso a uma civilização empacotado.


A. Tito Filho, 07/01/1992, Jornal O Dia

O NU DAS MULHERES

Deus colocou o homem no jardim do passeio. Achou que não era bom que o homem estivesse só. Fez cair pesado sono sobre ele, tomou uma de suas costelas e transformou-a numa mulher. Entregou a varoa ao varão, ambos nus e vergonha não sentiam. Como se vê, o nu dessas criaturas vem de raízes bíblicas. Mas a serpente sagaz fez que Eva comesse o fruto proibido e ela deu-o também ao marido e ele também comeu. Abriram-se os olhos de ambos e, percebendo que estavam nus, cobriram-se de folhas de figueira. E por aí se contam os fatos.

Deus os fez nus e eles se envergonharam e esconderam os possuídos da forma mais simples que foi possível, depois da comilança da maça.

Os séculos se foram, na vertiginosa passagem dos anos. Cada dia homem e mulher mais se metiam debaixo de pesadas roupas. Chegaria ao mundo a civilização dos norte-americanos, que instituiu a produção em massa de produtos industriais e necessariamente deveriam criar nos dois sexos a filosofia da compra, ou processo civilizatório do consumismo. Criaram-se anúncios comerciais por através de um processo de condicionamento de reflexos. Revistas, jornais, cinema, cartazes, televisão, envoltório dos mais diversos objetos - de sabonetes, de rádio, de pente, de perfume, de pó-de-arroz, de brilhantina, de loção, de alpergata, - tudo começou a estampar mulher quase nuas, nádegas descobertas, por trás fio-dental, seios perfurantes ou balançando com o topless, sueteres colados para maior realce de pontos e lugares e saliências provocantes de sensualidade. Peças íntimas cada vez mais reduzidas expunham-se em vitrinas. Realçava-se a esbelteza do busto à custa de acolchoamentos. O método mais certo de atrair fregueses para a filosofia da compra esteve na exibição de corpos femininos desnudos, ao lado dos produtos anunciados. Em tudo a sexualização dos sentidos. Estabeleceram-se os concursos de misses, as misses de remelexos lascivos para a cupidez das platéias estrondeantes em palmas demoradas para exaltação da carne. Simplesmente, o nu da propaganda, sem aspecto artístico de espécie alguma. Não se tratava de um nu de Ticiano, mas do nu comercial, convocativo. Cada hora que passava a mulher perdia roupa até que chegou ao peladismo total e constante nas buates, nas praias, nas ruas - e a gente já cansou de ver tanta fêmea despida que o feitiço virou contra o feiticeiro. As revistas de nu total e sexo explicito estão sobrando e os editores já apelam para o sexo mulher versus animal. Uma estupidez este fim de século XX. Se o escrivão de Pedro Álvarez Cabral chegasse hoje ao Brasil, escreveria ao rei dando a notícia do descobrimento e das mulheres que os marujos encontraram: "Ali andavam entre três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olhamos, não se envergonharam".

Alguns idiotas pensam que o nu é progresso e mostra a beleza feminina - mas os idiotas jamais aplaudiriam que suas respeitáveis mães, esposas e filhas desfilassem nuinhas em pêlo pelas praias, pelas ruas, pelos becos de folia momesca ou frequentassem os motéis luxentos e luxuriantes de camas giratórias. Nu é bonito e bom na mãe do distinto amigo, na esposa do próximo, na filha de alheios pais.


A. Tito Filho, 11/03/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de março de 2012

CAPITÃES DE AREIA

"Capitães da Areia", de Jorge Amado, inteirou cinqüenta anos, publicado que foi em 1937. Livro que pouca gente leu, pois neste país número reduzidíssimo lê cousas sérias, úteis, decentes. Machado de Assis vale como ilustre desconhecido. Muito citado, e citado mal, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras vive nas bibliotecas públicas e raras particulares sem leitores e consultores.

A Bahia passou uma semana revivendo as páginas candentes de "Capitães da Areia", analisando problemas e sensibilizando a sociedade para o drama dos menores abandonados - personagens de Jorge Amado nessa obra-lição. Estudaram-se temas que o escritor insinua como o direito da criança ao respeito, a criança e o direito da pessoa humana, a visão cristã do menor, a questão social do menor - e outros, em conferências pronunciadas por gente de sopapo, da espécie de Dalmo Dallari e Marcos Villaça.

Convém transcrever a mensagem de Jorge Amado sobre "Capitães da Areia", a criatura na expressão clara do criador e que faz corar os que têm vergonha na cara. Leiamos, mão na consciência, a ver a quem pertence a culpa neganda: "Os molecotes atrevidos, o olhar vivo, o gesto rápido, a gíria de malandro, os rostos chupados de fome, vos pedirão esmola. Praticam também pequenos furtos. Há 50 anos escrevi um romance sobre eles. Os conheci naquela época, são hoje homens, malandros do cais, com cachaça e violão, operários de fábrica, ladrões fichados na Polícia, mas os Capitães da Areia continuam a existir, enchendo as ruas, dormindo ao léu. Não são um bando surgindo ao acaso, coisa passageira na vida da cidade. É um fenômeno permanente, nascido da fome que se abate sobre as classes pobres. Aumenta diariamente o número de crianças abandonadas. Os jornais noticiam constantes malfeitos desses que têm como único corretivo as surras na Polícia, os maus tratos sucessivos. Parecem pequenos ratos agressivos, sem medo de coisa alguma, de choro fácil e falso, de inteligência ativíssima, soltos de língua, conhecendo todas as misérias do mundo numa época em que as crianças ricas ainda criam cachos e pensam que os filhos vêm de Paris no bico de uma cegonha.

Triste espetáculo das ruas da Bahia, os Capitães da Areia. Nada existe que eu ame com tão profundo amor quanto estes pequenos vagabundos, ladrões de onze anos, assaltantes infantis, que os pais tiveram de abandonar por não ter como alimentá-lo. Vivem pelo areal do cais, por sob as pontes, nas portas dos casarões, pedem esmola, fazem recados, agora conduzem turistas ao mangue. São vítimas, um problema que a caridade dos bons de coração não resolve. Que adiantam os orfanatos para quinze ou vinte? Que adiantam as colônias agrícolas para meia dúzia? Os Capitães da Areia continuam a existir. Crescem e vão embora mas já muitos outros tomaram os lugares vagos. Só matando a fome dos pais pode-se arrancar à sua desgraçada vida essas crianças sem infância, sem brinquedos, sem carinhos maternais, sem escola, sem lar e sem comida. Os Capitães da Areia esfomeados e intrépidos!".    


A. Tito Filho, 25/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

DEUS E O PETRÓLEO

Vulgarizam-se no Brasil duas falsas afirmações, a da que Deus é brasileiro e a de que o petróleo é nosso. A NÓRDICA, conceituada editora nacional, publicou o excelente livro DEUS NÃO É BRASILEIRO NEM O PETRÓLEO É NOSSO, em que o autor, numa linguagem ao alcance de leigos e doutores, demonstra a verdade das cousas e dos fatos.

Já diz o velho ditado que "Deus ajuda a quem cedo madruga". E os brasileiros precisam dar-se conta disso. Só com esforço, dedicação, sacrifício e muita coragem, podemos fazer do Brasil um país digno de Deus, que - ao contrário do que se propaga - não é brasileiro, mas já nos ajudou muito.

Esta é a intenção deste livro onde o autor, Murilo Sampaio, expõe, com grande lucidez e nos mínimos detalhes, a situação do petróleo no Brasil, Petróleo que - também, ao contrário do que se propaga - não é nosso. Pelos menos, não é de todos os brasileiros, nem como acionistas, nem como consumidores.

Então, de quem é a Petrobrás?

A análise da Petrobrás, neste livro é abrangente. Vai desde a sua história até as possibilidades de reconfiguração empresarial e gerencial. E inclui, ainda, todas as possíveis reações das pessoas e grupos que, hoje, estão engajados, de uma forma ou de outra, no segmento petróleo.

Extrapolando, o autor faz também algumas considerações sobre o papel do Estado, não apenas em relação à Petrobrás, mas a essa Empresa maior chamada Brasil.

É a hora de todos os brasileiros repensarem o futuro do seu país.


A. Tito Filho, 08/04/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 6 de março de 2012

ESCOLAS

Quando me entendi em Teresina as mães viviam em casa, amamentando os pequerruchos, ou no preparo de mamadeiras ou dando fraldas, bem assim educando os meninos até que, aos sete anos, ingressavam na escola primária, ou no grupo escolar. A garotada começava o estudo de manhãzinha e nele permanecia até as onze horas, no bom recitativo da tabuada e na soletração de palavras. Os estabelecimentos pertenciam ao governo. Exigência apenas da fardinha caprichada, sapato ou botina e meia. Certamente que por baixo havia a calcinha das meninas, que os machos andavam descuecados. Havia escolas particulares, de professores e professoras, de irrisório pagamento.

Ainda no começo da década de 30, segundo me contam, existiam na capital piauiense dois educandários oficiais de ensino secundário, o Liceu e a Escola Normal. Ensino integralmente gratuito, a rapaziada só gastava a farda e o calçado ganho dos pais. Um prestígio de dar inveja a situação de liceísta e normalista. A merenda, que hoje pernosticamente se chama lanche, se fazia numa espécie de quiosque das imediações, geralmente constituída de garapa de cana e um pãozinho redondo, de nome caramujo.

Dois estabelecimentos particulares havia, cada qual de muito conceito, ambos com internato e externato: o Colégio Diocesano de homens e o Colégio das Irmãs de mulheres, que ainda desafiam os tempos. Os internos tinham saída aos domingos - e a gente via pelas ruas fardados donzelos e donzelas, pálidos, como quem viu alma do outro mundo, depois de seis dias prisioneiros.

Professores famosos, os do ensino primário e os do secundário. Capazes, sérios, respeitados. Mestres que fizeram história e educação.

Quase os estudantes não gastavam com livros, se não os que queriam nas raras livrarias da cidade. As aulas eram suficientes para o aprendizado, o que não acontece hoje, com aulas mastigadas, incompreensíveis pelos pobres e abandonados pupilos. Tanto faz que entendam ou não o ensinamento, nada se repete.

Hoje as mães vivem nas ruas. Instituíram-se creches, onde os meninos aprendem a engatinhar. Em seguida, escola maternal. Depois, jardim, alfabetização - e a seguir o primeiro e o segundo graus, tudo em estabelecimento de negócios particulares. As escolas do governo, ditas hoje do primeiro e segundo grau, oferecem péssimas condições de ensino, razão pela qual os pais se sacrificam nas escolas particulares, de elevado preço e exigências absurdas de vinte cadernos, coleções de madeira, de cera, hidrocor, figurinhas de jogador de futebol, resmas de chamex, cinco tesouras, um binóculo, vinte rolos de papel higiênico, trinta pacotes de absorventes para as mulheres, vinte folhas de estêncil, uma máquina de escrever, um computador dos Estados Unidos e contribuições para as festocas. Os jovens, machos e fêmeas, carregam tanto peso que ficam tortos de um dos lados - fora lencinho de papel, toalha, escova de dente, pasta, sabonete, desodorante, roupa de banho e outros ingredientes que me fogem da memória. Tudo moderno e amplamente atual.


A. Tito Filho, 02/04/1992, Jornal O Dia

sábado, 3 de março de 2012

ONTEM E HOJE

Quem viu os carnavais antigos nunca esquece a alegria e o entusiasmo dos foliões. As fantasias bonitas, os bailes de intensa animação, as melodias inesquecíveis, os préstitos, as batalhas de confetes, - rodelinhas coloridas atiradas pelos foliões uns aos outros, e as lança-perfume, as serpentinas, os cordões, os blocos, o corso - tudo isto se resume em muita saudade de tempos maravilhosos.

De certo tempo a este ano de 1989, o carnaval transformou-se nos bailes e nas ruas, em exibição de bumbuns e seios, numa concorrência erótica das mais perniciosas, beirando o fescenino, o cinismo, o integro despudoramento de fêmeas bem pagas para os gestos e as posturas desavergonhadas pelos rendimentos da publicidade.

No recinto dos clubes a paisagem de desolação moral se torna chocante, com homens e mulheres em cenas degradantes, mostrando as vergonhas que Deus mandou que fossem cobertas. Que dizer da selva dos homossexuais?

Neste país se aboliu a censura para a falta de respeito. Não existem mais normas que devam reger os princípios de moralidade pública. A própria Constituição Federal garante o imoralismo.

O carnaval brasileiro se resume nos bailes de nus dos clubes elegantes e nos desfiles de luxo das escolas de samba, estas patrocinadas pelos cofres públicos - e os Estados e municípios vão copiando a prática e ovacionando a falta de decoro por todos os cantos e recantos.

O célebre Dom Quixote, de Cervantes, que todo cidadão já devia ter lido, mostra, nas suas páginas irreverentes, que as sociedades se modificam nos seus hábitos e costumes e no tipo de moral que passam a adotar, e não podem voltar ao passado.

No Rio, uma escola de samba de grande fama exibiu o LIXO da atual sociedade outrora cantada como maravilhosa. Desfilaram mendigos e outros párias - todos de ricas caracterizações luxuosas e caríssimas. O luxo e o lixo em mistura teatral, e a escola queria no desfile o Cristo Redentor, cuja dignidade foi preservada por decisão da Justiça, a pedido do cardeal Eugênio Sales.

Sinal dos tempos. Parece que a loucura da carne e do dinheiro está levando a humanidade à completa insensibilidade espiritual.


A. Tito Filho, 06/03/1992, Jornal O Dia

EMPREGO

Ninguém recusa a evidência da inchação populacional. Vigora o cresci e multiplicai bíblico. Raras as coletividades no mundo que adotaram o planejamento familiar, como se fez em algumas da Europa, sobretudo nos países nórdicos. No Brasil, quanto mais pobre o casal, mais menino. Mulher rica usa pílula anticoncepcional. Garota de segunda ou terceira classe cria bucho. As cidades grandes, plenas de convocações para a vida supérflua e dissipadora, de empregos enganosos, se transformaram em megalópoles faveladas, nas quais os pobres tropeçam em mil dificuldades, para que possam comer e vestir. Enfim, vegetar, ao menos. A indústria arrancou a mulher do lar. As fábricas produzem todas as utilidades, o leite, a salsicha, o doce, a massa de tomate, a feijoada, o tempero, o pão, por preços triplicados. A chamada alta costura, de empresários inteligentes, costureiros que gastam fortunas em publicidade, faz que as fêmeas enlouqueçam. Criaram-se os clubes sociais e de uísque, sob capa de caridade cristã, para desfile de vestidos caríssimos, comprados a peso de ouro, nas butiques que enriqueceram as proprietárias. Gastando a rodo, a mulher do soçaite precisa de muito cobre, finanças fortes, a fim de que acompanhe a moda e sustente o HOBBY alegre dos comes e bebes e recepções festivas.

A classe média, sem renda, as cousas da barriga e os panos nos queimas das lojas vendedoras custando os olhos da cara. O chefe de família apenas remediado, dinheiro contado para os pirões de cada dia, não pode sustentar os desejos de três ou quatro mocinhas que reclamam dos pais, sandálias, desodorante, xampu e tecidos de cetim, fora JEANS e US-TOP, que elas vêem noite após noite nos anúncios de televisão.

Faminto também é gente. A classe do salário mínimo igualmente fabrica mocinhas e estas necessitam de cobrir as excelências.

A solução está no emprego. Já não existem garotas como antigamente, um vestidinho por mês, perfume de brilhantina Flor do Amor e Tentação.

Criem-se empregos. Na alta-roda, existe a Marani, como se chama a mulher do Marajá. Na classe média, o burro de carga tem no lar rabos-de-saia desocupadas e os dinheiros que ganha do governo mal chegam para os pirões do almoço. Naturalmente que as meninas querem emprego. Na classe dita assalariada, a falta de dinheiro dos cofres públicos para as despesas das moças bem desenvolvidas de anseios provoca mais problemas sociais. Elas querem pouco, somente um contratinho de zeladora.

O jeito está no emprego. Cem mil funcionários, duzentas mil, a metade de licença, muitas dispensadas de serviço, algumas em Tóquio, Rio de Janeiro, na Holanda, e no batente, as que sabem trabalhar.

Haja emprego. Se acaso eu pudesse, se papai do céu me desse, eu vivia cercado de funcionários por todos os lados, como uma ilha de felicidade.


A. Tito Filho, 04/04/1992, Jornal O Dia