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segunda-feira, 2 de abril de 2012

IDÉIAS

Faleceu, faz anos, Elias de Oliveira e Silva, membro da Academia Piauiense de Letras, primeiro ocupante da cadeira 28, patrocinada por Luísa Amélia de queirós Brandão, poetisa sentimental, de quem, ao tomar posse, na sessão solene de 18 de outubro de 1921, disse ele: Idólatra da poesia, sou irmão espiritual do artista que se ajoelha ante o seu ídolo sagrado. E, por muito amor a poesia foi que escolhi, para patrocinar a minha cadeira, o nome ilustre de Luísa Amélia de Queirós, a poetisa destemida que, num ambiente contrário aos surtos do seu talento, vibrava na emoção admirável dos seus sentimentos, cantando-os em versos espontâneos, feliz nas suas convicções, ardente nos seus arrebatamentos, inabaláveis na sua fé, invencível nas suas paixões e máscula nos seus formosos ideais de concórdia, de ilusão, de amor e de glória.

De feito, Elias, na mocidade, dedicou-se à poesia. Cultivou o soneto, e compôs alguns, que lembram a definição de Celso Pinheiro - quatorze versos cheirosos.

Lapidador delicado do soneto, terno, apaixonado dos traços femininos - Elias cultivou também a trova, elegante e gracioso, sempre voltado para a mulher, nos seus atrativos físicos - na mulher em que ele pouco ou nada acreditava.

Conheci Elias de Oliveira em Fortaleza, no tempo em cursei o antigo Liceu do Ceará. Elegante, estatura acima da mediana, cabeleira basta, olhos amortecidos, inteligência ágil, vibrante, voz forte, dominadora - gozava o saudoso acadêmico de grande conceito intelectual. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri, celebrado de aplausos. Argumentador seguro, culto, dominava a platéia, os jurados - terror da acusação quando se encontrava na defesa, terror da defesa quando auxiliava a acusação. Palavra fácil, corrente, por vez irônica, sustentada de conceitos graves, com que se revelava o grande estudioso da ciência penal. Nesse tempo conquistara já grande fama e respeito como jurista, autor de "Idéia do Direito da Filosofia Helênica" (1919), "Inconstitucionalidade de Impostos" (1920), "Crime de Calúnia" (1925), "Intervenção Federal nos Estados" (1930), "Homicídio Culposo" (1932), "Criminologia das Multidões" (1934), "Crime de Incêndio" (1934), "Injúria pela Imprensa" (1934). anos depois, em 1952, publicou ainda "Crimes contra a Economia Popular".
A obra que o colocou entre os mais notáveis estudiosos do assunto, no Brasil como em outros países, foi, sem dúvida, "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao Direito Criminal. Problema interessantíssimo o da multidão criminosa. Muitos, notadamente franceses e italianos, lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil - estudos quase sempre lacunosos - e mais completo que conheço antes de surgir o de Elias, é o de Scipio Sighele: A Multidão Criminosa.

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que antes escritores de nomeada procuraram, nos seus livros, revelar a psicologia das multidões, como d'Annuzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola foi real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

Como disse, li Sighele - extraordinário de observações, mas com falhas que foram supridas, no meu entendimento, por Elias de Oliveira. Certíssimo o conceito de multidão, no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora momentânea, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o "agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, qualidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas no inconsciente".

Esse recalque é o grande responsável pelo crime da multidão. Elias faz o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Aliás, observei, certa feita, em um trabalho intelectual, que os recalques freudianos estão nas manifestações dos campos de futebol brasileiro, como nas arenas das touradas espanholas.

O notável piauiense repudia as classificações de multidão de famosos criminalistas.


A. Tito Filho, 16/01/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de março de 2012

AINDA O IBIAPINA

Ainda Ibiapina já realizou no difícil trabalho da obra de ficção - embora eu descreia da obra de ficção e acredito em que os escritores, nos contos e nos romances, reproduzam fatos e episódios da vida, inclusive aqueles de que foram intérpretes. E quando o escritor não copia a vida real, produz a obra literária com adaptação de lendas e tradições populares. O "Fausto", de Goethe, promanou de um conto popular. O "Don Juan" tem origem folclórica. Rabelais inspirou-se na tenda de gigantes gauleses para a criação de "Gargantua". Gustavo Barroso observa muito bem que os temas dos povos são, em grande parte, o berço das literaturas.

Produzindo esforçadamente, numa terra em que vale sacrifício o trabalho da inteligência apurada, Fontes Ibiapina enriquece, dia por dia, o patrimônio intelectual do Piauí. Os seus livros de contos, os seus romances fixam tipos, costumes, linguajar deste pedaço regional brasileiro. Vai às fontes das manifestações da lama popular, recolhe a sabedoria das comunidades, a sua expressão espiritual, os seus sofrimentos - e faz o livro de fixação, como se estivesse em pintar quadro dos mais sérios e dos mais graves e vivos. Os homens de letras comunica-se por dois modos fundamentais: ou concebe a mensagem, reformando o pensamento existente, derribando preconceitos, sacudindo estruturas, ou faz da paisagem social e humana sua cópia integral, a própria mensagem artística. Assim Fontes Ibiapina: a sua mensagem se encontra na poderosa inteligência de observação para fixar o meio e o homem que nele habita.

Leio agora mais um livro de Ibiapina - "Congresso de Duendes" - reunião de estórias de gente e principalmente estórias de bichos. De bichos, na composição de fabulário, de que se extrai a indicação moralizadora, ou o substrato do conto, que se cifra, como queira um critico de valor, no vestígio sobre a figura humana do acontecido com a alimária em que ela se metamorfoseou. Há, na concepção de Ibiapina, verdadeiro conjunto de manifestações populares incorporadas, representativo das crendices mais fortes da coletividade piauiense.

Um grande folclorista adotou a tese de que os contos populares têm asas: eles voam através dos continentes, das raças e dos séculos. O folclore é um só. Escreveu Gustavo Barroso: "Poderia nunca, na minha vida infantil, tão descuidadosa e levada da breca, à beira do Pocinho, do Poço da Draga e nas praias do Peixe, do Meireles, do Arpoador - pensar que o brinquedo das pedras para ver quem teria mais filhos, no futuro, era objeto das cogitações folcloristas, e fora descrito por Minutius Félix e denominado pelos gregos de epostracismo?".

O folclore poderia dizer-se a história moral do homem, como insinua Câmara Cascudo. Melhor é identificá-lo como a história natural das coletividades, da sua alimentação, dos seus tabus, das suas orações, dos seus ritos, da sua vida diária, para o reconhecimento da cultura como conjunto de normas sociais de que participamos.

Daí porque o trabalho do escritor, quando procura a fonte folclórica com sustento do livro, há de compreender as manifestações populares no campo em que elas se manifestam, para anotar-lhes as variantes e oferecer a fisionomia da realidade cultural. Não se pode reproduzir o folclore na sua universidade, apenas. É necessário entendê-lo como a ciência do homem-comum. E o homem-comum é a preocupação de Ibiapina, para projetá-lo no quadro da vida urbana e da vida rural, - como, - como contadores de estórias de bichos, reproduzidas de gerações em gerações, como personagem de novelas de amor, de heroísmo, como personagem de facécias, de cenas de bravura para lavação da honra ofendida, sempre respeitoso com a mulher, - objeto das preocupações do macho numa terra de preconceitos, e mais: como personagem da violência de um mundo que o prepara para o ódio e para a vingança - o ódio e a vingança sugeridos e provocados pelo desequilíbrio dos processos da vida social.

Ibiapina utiliza-se dos bichos para ironizar os poderosos de desvirtudes políticas, e serve-se dos homens sem destino para que estes interpretem o drama das suas comunidades, nas quais os instintos não vivem, nem é possível que sobrevivam as outras estruturas da personalidade.

Quadro vivo, na eloqüência de cores e de ritmos - o pungente quadro do drama piauiense. E Ibiapina é o pintor da sociologia da comunidade a que ele próprio pertence, com o dever de fixá-la, como fixou, para que todos possam interpretá-la na nudez das suas grandes misérias.

O livro vale.


A. Tito Filho, 27/05/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 26 de março de 2012

OS PRIMEIROS TEMPOS

Poucos anos depois de fundada, Teresina teve o seu primeiro teatro, o Santa Teresa, época em que começaram a aparecer os primeiros clubes recreativos, mais freqüentes com a inauguração do Teatro 4 de Setembro, em 1894. No ano anterior, destinado à encenação de peças teatrais na nova casa de espetáculo, houve o grêmio dramático de Raimundo Artur Vasconcelos, Fócion Caldas e outros. No inicio do século XX funcionava "Filhos das Arte", de Jônatas Batista, Mário Batista e mais alguns. Pedro Silva e Jônatas Batista criaram o Clube Recreio Teresinense, que se dividiu, surgindo a entidade "Os Amigos do Palco", orientada por Pedro Silva, Luís Correia, Fenelon Castelo Branco e Higino Cunha. Intelectuais, senhoras e senhoritas deram inicio à Hora Artística Familiar, nos anos 20, representada nas manhãs de domingo, no Teatro 4 de Setembro, com exibição de recreativos, danças, cantos, instrumentos musicais. Tornou-se o encantamento de numeroso público.

Após 1930, várias agremiações literárias e de estudos sociais tiveram surgimento para ativar a vida intelectual de Teresina, a exemplo do Teatro Experimental Escolar, o Clube Telúrico, o Teatro Acadêmico da Faculdade de Direito e Meridiano.

De prestigiada atuação antes dos anos 30, houve a Arcádia dos Novos e o Cenáculo Piauiense de Letras.

O Instituto Histórico e Geográfico Piauiense é de 1918, de brilhante atividade até a presidência de Josias Carneiro da Silva, nos primeiros tempos da década de 70, encontrando-se desativado nos dias correntes.

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Em 1931, jovens da sociedade teresinense criaram uma curiosa sociedade a quem deram o nome de A CATERVA. Foram eles Jacob de Sousa Martins, Clemente Honório Parentes Fortes, Anízio de Abreu Cavalcanti, Ismar Bento Gonçalves, Raimundo de Moura Rego, Gonçalo Lopes Lima, José do Patrocínio da Silveira Caldas, Afonso Barbosa Ferreira, Firmino Ferreira Paz e Wagner de Abreu Cavalcanti. Tratava-se de "uma congregação unida por afinidade intelectual" e os criadores desejavam sobrepor-se ao marasmo da inteligência do meio. Reinava a pobreza material que não permitia iniciativas sérias.

O seminário dominical "O Lábaro" constituía a imprensa da mocidade. Nas suas páginas revelaram-se talentos. Tinha feitio literário, mas cessou de existir por razões financeiras.

Surgiu, a 3 de maio de 1931, "A VOZ DO NORTE", com rápida conquista de leitores cultos. Tinha aspecto sadio e nas suas páginas Moura Rego e Wagner Cavalcanti publicavam elogiadas concepções de prosa e poesia.

Nesse tempo vivia Antônio Lemos, o SEMANA, respeitável figura do jornalismo piauiense, que editava o órgão político a LIBERDADE, em cuja sede ele suportava pacientemente as declamações de Wagner, as piadas de Clemente Fortes, as sátiras de Afonso Ferreira.

Os rapazes conjugavam-se, espiritualmente, e formaram um bloco especial, A CATERVA, nome escolhido por Anízio Cavalcanti e aprovado pelos colegas.

Havia em Teresina um lugar de afluência de estudantes, o Arquivo e a Biblioteca Pública do Estado, e aí se liam livros de literatura e de outros gêneros. Nesse ambiente surgiu a idéia da fundação de um jornal literário, que foi A VOZ DO NORTE, e de uma entidade de sócios restritos, integrada dos setores do órgão, denominada A CATERVA, em que preponderava a afinidade moral e intelectual dos seus membros.

Um interessante e curioso grêmio cultural, que não tinha prazo de reunião. Os jovens que o constituíram puderam sacudir a sonolência intelectual dos teresinenses nesses inesquecíveis anos da década de 30.

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Um só desses grêmios continua em funcionamento. Tiveram vida efêmera.


A. Tito Filho, 14/04/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 13 de março de 2012

PADRE CHAVES

Monsenhor Joaquim Chaves, o Padre Chaves, como ele gosta de ser chamado, faz muitos anos que se dedica de corpo e alma a igreja do Amparo, a primeira de Teresina, a igreja de seu amor. Sacerdote virtuoso, coração de bondade e sentimento, venera-o a paisagem teresinense, a que ele tem doado o melhor de uma vida de trabalho espiritual intenso, rezando missa, batizando menino, casando noivos, confessando pecadores, confortando fiéis. Todos gostam das práticas religiosas que ele realiza, pois nelas gasta apenas os instantes preciosos, com o que exonera a gente da freguesia de demoradas cerimônias e predicas puxadas. Adota receita segura para não prejudicar a paciência do próximo, ao mesmo tempo em que se põe sempre solicito e amigo leal e correto, inexcedível no querer bem aos outros.

Ao lado da piedade, debruça-se sobre a pesquisa histórica, persistente, sustentado por capacidade de observar, e desse esforço surgiram escritos de valor, úteis, honestos, rico patrimônio para repasto dos estudiosos. O seu livro sobre Teresina, que se incorporou as festas comemorativas dos primeiros cem anos da cidade como documentário expressivo, lembra as fases iniciais da capital piauiense - as ruas, os cafés, os templos, as casas comerciais, o teatro, os furdunços carnavalescos, as manifestações religiosas, os episódios cívicos, o telegrafo, o barco de vapor, a higiene, a policia, as escolas, os passeios de cavalo - enfim o que ia nascendo, o que se ia criando, os passos inaugurais dos costumes e do progresso da comunidadezinha plantada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, o fundador, entre dois rios. E os forrós. E os serenos de baile. E a discurseira laudatória nos banquetes e bródios. Quantas cousas antigas, com cheiro de mofo, o bom Padre buscou em registros velhos e delas fez obra saborosa.

Neles o pesquisador preocupa-se sobretudo com a verdade e tem coragem de assentá-la e escrevê-la. As lições dos seus livros constituem fonte segura para conhecimento de variado aspecto da história do Piauí, que ele expõe e analisa com critério. Oferece estilo plástico, prosa ágil, sabe reviver o passado e os homens que o construíram, e faz crítica de forma imparcial e cuidadosa.

De mim, julgo-o historiador sereno, hábil, metódico, às vezes irreverente, apoiado sempre sobre invulgar capacidade de discernir e interpretar.

Teresina tem bons historiadores, como Pereira da Costa, Clodoaldo Freitas, Higina Cunha, para citar alguns mortos ilustres. Dos vivos muitos são os pesquisadores dos acontecimentos que se verificaram na cidade criada por José Antônio Saraiva.

O padre Chaves não se preocupou apenas com os episódios da vida histórica e política da cidade que tem o nome de gente nobre. Foi além, revelando, em livro curioso, aspectos sociais e pitorescos da cidadezinha tranqüila e afetiva. Antes dele, preocupado somente com os costumes do fim do século XIX, só Abdias Neves, num romance naturalista.

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Faz anos o padre Joaquim Chaves obteve o 1º lugar em concurso do governo do Estado, com a obra O PIAUÍ NAS LUTAS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL, obra de estudo sério, em que se definem personalidades e episódios sinalizadores de patriotismo invulgar na conquista da autonomia de nossas instituições, que expulsaram as armas portuguesas do território piauiense - trabalho que pode figurar entre os que nos legaram Pereira da Costa, Odilon Nunes, Clodoaldo Freitas, Anísio Brito, Carlos Porto, Esmaragdo de Freitas, Abdias Neves, para citar alguns mortos, e Wilson Brandão, Pe. Cláudio Melo, Bugyja Britto, Camilo Filho, entre os vivos.

Fez 2ª edição da obra em 1975, agora revisada pelo autor, na exaustiva tarefa de nova redação, o que se conseguiu com a cooperação da Academia Piauiense de Letras, para esta 3ª edição, sob os auspícios da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, dirigida pela inteligência de João Cláudio.


A. Tito Filho, 14/03/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de março de 2012

DA COSTA

Muitos, dezenas, estudaram Da Costa e Silva nos seus aspectos clássicos, e simbolistas, parnasianistas, no seu lirismo e no seu sensualismo, estas cousas de que o vulgo pé-rapado, não entende, nem deve entender.

Quando Dirceu Arcoverde me convocou para escolher as poesias que figurassem nos painéis da praça Da Costa e Silva, em número de quinze, escolhi depressa as que inspiraram na terra e nas paisagens piauienses, nas atividades do homem, nos quadros da natureza e nos sentimentos que exprimissem tristeza ou alegria, e no rio de presença perene no coração do poeta. E desse tipo de poemas encontrei doze. Completei a exigência com os versos de Fé, Esperança e Caridade, que o zepovão não entende, e com os hinos do Piauí.

Gosto de Da Costa quando ele se lembra do seu vilarejo, Amarante, pois aí lhe decorem os brincos da infância irrequieta. Admirava-a nos encantos naturais e não a deslembrou da igrejinha branca nem do povo feliz - o povo "que ri das próprias mágoas".

Ninguém recordou com tanto realismo o conhecido engenho de madeira.

Noutros versos fixa o espetáculo cruel da derrubada da mata, o baque da árvore, cujo tronco reverdece com a chuva, como se fosse o protesto da vida renovada "a Queimada" condena a alma desnaturada do homem, a natureza a chorar, calada. Em "O Inverno" está a ressurreição da natureza, e o poeta anuncia o amor e a abastança. O soneto "Aboio" canta o sertão, a vaquejada, a ferra dos animais, a rês desgarrada. Noutra inspiração, invoca a balsa, "a embarcação simples e boa", como ele diz.

Longe do Piauí, no Recife, a saudade, a angústia. Lembra-se da mãe, do rio, dos friorentos dias do fim do inverno, e cria um dos mais lindos e tocantes sonetos na língua portuguesa, - a cantiga das águas soluçantes, o caburé com frio, os gemidos dos canaviais, as barbas do Parnaíba famoso, o mugido dos bois da terra distante. No poema a definição sem defeito da saudade que o tortura - o olhar de minha mãe rezando, asa de dor do pensamento.

Gosto de Da Costa quando ele canta o Piauí. Não o aprecio nas poesias em que segue os caminhos das apelidadas escolas literárias, que a gente entende depois de tomar lições de estética. Melhor compreender o grande amarantino por intermédio do indestrutível Freud.

Da Costa, nas noites recifenses, fugindo da saudade por via da bebida - "Álcool!" Para esquecer os tormentos da vida e cavar, sabe Deus, um tormento maior" - Da Costa continua o maior cantor da terra natal e o apaixonado do riozão, cujas águas, no mundo infantil, lhe plasmaram o espírito e lhe deram, como prêmio, a perenidade de gratidão dos seus conterrâneos.

A poesia nascida dos sofrimentos interiores do poeta permanece imorredoura. Bendita cidade do Recife, que fez o poeta chorar por dentro e oferecer ao Piauí a melhor poesia de todos os tempos.


A. Tito Filho, 23/01/1992, Jornal O Dia

CLÓVIS E AMÉLIA

Clóvis Bevilaqua nasceu no Ceará. Esteve em Teresina como secretário do Governo do Piauí no começo da República. Casou-se com Amélia, filha de José Manuel de Freitas, pai e filha nascidos em Jerumenha, cidade piauiense. Clóvis adquiriu fama internacional de jurista, e ele muita a mereceu. Conheci-o no Rio de Janeiro em 1942. Tempos de bonde, o bonde de viagem monótona mas gostosa, e da pensão onde tinha minha residência à casa do jurista havia longo percurso de trilhos. Amélia escrevia bem. Fazia romance, crônicas e jornalismo.

O casal famoso, Clóvis e Amélia, gostava de receber amigos aos domingos, para o jantar. Uma vez Bugyja Britto, que parecia convidado permanente, convidou-me a fazer-lhe companhia e fui, assim, conhecer o grande jurisconsulto e esposa. Na visita obtive apetitosa refeição, em momento justo, pois hospedaria de estudante, dia de domingo, só dava almoço tipo ajantarado. Das seis da tarde por diante a quebradeira só permitia forrar o bucho com magra xícara de café com leite e um pãozinho lambusado de raríssima manteiga. A mesa de Clóvis tinha fartura e a bóia sabia bem. Enchi a pança, embora meu desejo principal fosse conhecer o mito Clóvis. Havia ele entrado na casa dos oitenta. Sempre numa cadeira de balanço, vestido de fraque. Não exonerava do traje a gravata. De encantadora simplicidade. Conversei com ele alguns instantes, acanhado, a modo de matuto que eu era. Lembrou-se o mestre de me dizer que dedicava muita simpatia ao Piauí, terra de sua mulher. Contou-me que trabalhou em Teresina, ao lado do primeiro governador republicano Taumaturgo de Azevedo.

Amélia, surda como diabo, conversava com um e com outro, em português, francês, inglês, de acordo com as exigências do visitante. A casa semelhava museu, bazar e jardim zoológico, ao mesmo tempo. Retrato de pessoas feias e bonitas pelas paredes, peças e mais peças de esculturas reboladas pelos cantos, bustos, jarros, baús, tapetes, santos. Bichos vivos, Gatos, cães, curicas, papagaios, chicos-pretos, corrupiões. Algazarra muita, inclusive dos interlocutores de Amélia gritando para que ela pudesse ouvir.


Clóvis morreu em 1944, manhãzinha. Amélia fez a viagem derradeira depois. Outras vezes engoli a boa e apetitosa chepa do casal. E nunca esqueci a hospitalidade dos dois bons velhinhos, o jurista e a romancista - e agora, neste 1987, revejo Amélia ao procurar dados seguros para preparar-lhe a biografia.


A. Tito Filho, 10/01/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 6 de março de 2012

O CORDEL

A literatura de cordel tem natureza nordestina, não resta dúvida. Promanou de fatores diversos, entre os quais o isolamento do homem rural, analfabeto, de religiosidade simples, enfrentando sacrifícios, a ouvir, pela boca das visitas esporádicas e nas feiras sertanejas, estórias de cangaço e cangaceiros, a padecer o drama das secas e a violência dos ricos, a memorizar assassínios entre famílias inimigas, de linguagem chã, comunicando-se com o emprego de vocábulo pobre e parco, por virtude da falta de relações humanas. Não há que dizer senão o trivial reduzido às circunstâncias da roça, da bóia, da chuva ou da falta dágua, da bicheira dos animais. Marido, mulher e filhos desses trechos de chão perdidos falam pouco porque não têm interlocutores. Daí que com poucas palavras se transmitiam, nos tempos velhos, idéias e impressões no ajuntamento familiar. A linguagem possuía sonoridade latina na boca desses matutos - jenta, lúa, men-ã, por janta, lua, manhã, eram modos de dizer da herança avoenga.

Violeiros, nos sortidos mercados semanais de vilas e cidades, recitavam versos e emocionavam platéias. Cantadores ofereciam o espetáculo dos desafios, sob aplausos, risos e admiração. Poetas populares cantavam façanhas, criavam mitos, lembravam santos milagreiros, reproduziam idílios de donzelas e príncipes encantados.

No século XIX, quase no final, iniciou-se a divulgação desse cancioneiro, - fisionomia do Nordeste, das suas crendices, dos seus feitos, dos seus heróis, da sua fé, também da sabedoria do homem que versejava. A revolução industrial que sacudiu os alicerces da sociedade já se tinha evidenciado, e cada vez que se escoavam os anos na voragem do tempo a máquina fazia outros prodígios. Desenvolveram-se as comunidades. Encurtaram-se distâncias. As fábricas produziram veículos, aparelhos de costurar, aeroplanos, remédios, instrumentos terríveis de matança. O cinema, o rádio, o rádio de pilha, a televisão e os sistemas educacionais alcançaram povoações e o livro multiplicou-se.

A literatura de cordel haveria de declinar com as profundas modificações verificadas na vida nordestina. Revolucionaram-se hábitos e costumes. Sepultaram-se preconceitos. Houve mudanças no comportamento do homem, da mulher, da família, do corpo social. Todos os processos culturais de vida padeceram severas influências da civilização industrial.

Declinou, é verdade, mas o cordel ressurgiu e cresceu, mais divulgado e vendido, por todos os cantos do país. Aprimoraram-se as edições e aumentou o seu mercado de vendas. Intrometeu-se na política partidária, cantando méritos de líderes estadistas. A nova vida do cordel se deu porque se tornou objeto de estudos sérios para análise dos temas e mensagens sociais e espirituais que ele transmite. Penetrou as universidades e vive no ensinamento dos críticos como irrecusável arte popular.


A. Tito Filho, 02/02/1992, Jornal O Dia

domingo, 4 de março de 2012

O CRONISTA JOÃO ISIDORO

Chamou-se João Isidoro da Silva França, português de origem, braço forte de José Antônio Saraiva na construção de Teresina, a primeira cidade brasileira levantada em traçado geométrico, no chão da mata derrubada. As outras são Belo Horizonte, Goiânia e Brasília.

Teresina não nasceu espontaneamente, mas de modo artificial, prevendo-se as ruas e praças. Planta de João Isidoro. No Piauí, os núcleos populacionais tiveram inicio nas fazendas de criação de gado, junto às quais se erguia o templo religioso - e assim começou a futura capital do Piauí na Chapada do Corisco, um lugar de rebanhos bovinos. Faltava a Casa de Deus e o mestre-de-obras de Saraiva logo riscou a planta da igreja Nossa Senhora do Amparo, inspirando-se nas linhas das igrejas nordestinas.

João Isidoro fixou-se na Chapada do Corisco em 1850. Construiu três casas de palhas, uma para a sua residência, esquina da atual rua Rui Barbosa, na Praça Marechal Deodoro, e as outras duas no rumo da hoje rua Álvaro Mendes, destinadas ao corpo policial e aos trabalhadores. Lançou-se a pedra fundamental do templo católico a 25 de dezembro de 1850. Houve banquete. Muito foguetório. Ia nascer uma cidade. As mulheres usaram vestidos bonitos e se enfeitaram de jóias caras, pois já havia o soçaite da época.

O fabuloso João Isidoro, como disse dele o historiador Moyses Castelo Branco Filho, contou os festejos a José Antônio Saraiva, em carta, por esta forma: "Ao depois de uma missa do Senhor Vigário dita do meu rancho pelas 11 horas da manhã, acompanhado de todas as autoridades da Vila e mais membros da Comissão e as senhoras das principais famílias todas bem ornadas de jóias e bons vestidos e mais os principais cidadãos da Vila, tendo também acompanhado o Alferes do Destacamento as autoridades junto com alguns praças... e mais imensidade de povos  de fora, que aqui se ajuntou, toda esta brilhante companhia... e marchou para o sítio da nova Matriz onde se achava a tropa formada e metendo o Senhor juiz de Direito na pedra solene duas moedas, uma de prata e outra de cobre, com o cunho do Império... o dito Sr. Juiz de Direito deu vivas a sua Majestade Imperial o Senhor D. Pedro Segundo e a S. Imperial Família e à Constituição do Império, e o Exmº Sr. Presidente da Província... e ao depois disto, deram-se três descargas à tropa de alegria".

Os convidados vieram da Vila do Poti, que hoje é o Poti Velho.

João Isidoro escreveria a primeira crônica social de Teresina.


A. Tito Filho, 26/01/1992, Jornal O Dia

sábado, 3 de março de 2012

CABEÇA DE CUIA

Faz poucos anos, Josias Carneiro da Silva publicou obra-prima, intitulada SIMPLÍCIO, SIMPLIÇÃO DA PARNAÍBA e ainda não cessaram os merecidos elogias que recebeu. Depois publicou livro de bichos lacustres e fluviais, parecidos com as que outras águas oferecem como o caboclo-d'água do São Francisco, o urarau ou gigantesco do Paraíba do Sul, a boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore revela a vida coletiva na sua cultura material e espiritual. As águas constituem fonte de lendas, mitos, fantasias, imaginações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia em que se atiram oferendas ao mar para que se libertem de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu: a Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro:

Enquanto seus filhos
ficaram chorando
ele está morando,
beijando, beijando
a iara bonita
no fundo do mar...

Josias reviveu monstros aquáticos, e realizou o seu mais brilhante estudo com o CABEÇA DE CUIA, que o talentoso João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte". Agora novamente, num trabalho erudito, o monstro aterrorizador de pescadores e donzelas dos rios Poti e Parnaíba figura como atração principal.

O abalizado folclorista ofereceu nova interpretação à crendice popular - a de que o CABEÇA DE CUIA, estuprador da própria mãe, foi por esta condenado a viver nos rios referidos e para o desencanto tinha que deflorar sete Marias, proeza hoje dificílima porque, como é óbvio, não existem mais mulheres virgens.

A lenda, segundo Josias, diz COMER - sete Marias, e as marias tinham receio de amar a medo de gravidez, pois a pílula anticoncepcional começa na década de 60. Na antiguidade mitológica a fecundação independia do contato masculino e das vias naturais receptivas - como sustenta Câmara Cascudo. Houve a crença da gravidez SINE CUNCUBITO. A cobra-grande amazônica engravida cunhãs sem cópula, como acredita o povo. Existiu época da fecundação oral e por causa disto se emprega comer na qualidade de ter relação sexual.

Cascudo conta que numa igreja do Recife existe um quadro, em que Nossa Senhora ajoelhada ouve o anjo mensageiro de Deus, e das alturas, desce em diagonal um raio luminoso, alcançando a orelha esquerda da mãe do Altíssimo. A fecundação teria sido por processo auricular. E o povo logo criou o conhecido dito EMPENHAR PELOS OUVIDOS.

O nosso saudoso Odylo Costa Filho fez soneto bonito, na CANTIGA INCOMPLETA. Fala do poder sexual das águas do Parnaíba:

Naquele tempo, nupciais e puras,
as mulheres vestiam-se de peixes,
uma camisa ou nada sobre a pele, nádegas, peito, púbis ofertados,
e o rio era possuído e as possuía
no mergulho auroral entre os barrancos.

D'Humiac escreveu obra curiosa sobre algumas grandes lendas da humanidade, afirmando que o mistério do mundo se explica pela imaginação e pela razão. Concluiu que os velhos mitos estão morrendo, porque o próprio povo, que a cria, nelas passa a desacreditar, com o correr dos tempos, por através da ciência. A imaginação passa a ser substituída pela razão.


A. Tito Filho, 21/04/1988, Jornal O Dia

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

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Meninote, chegava eu a Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

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Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

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Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

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Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo à outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

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Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

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Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

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Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 21/05/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 2 de março de 2012

LITERATURA PIAUIENSE

Gosto das lições de Nelson Werneck Sodré, claras, boas de aprender. Ajudam a cachola ao raciocínio, à compreensão. Magnífico no OFÍCIO DE ESCRITOR, livro que deveria figurar nas bibliotecas dos que pretendem íntima comunhão com os problemas literários. Qual deve ser o objetivo de escritor? Captar a realidade e transpô-la para a literatura, como se copiasse o espetáculo da vida social, da forma que fez Balzac com a avareza e Shakespeare com o ciúme. Necessário que se busquem os fundamentos populares da sociedade, pois a cultura de elite se deforma. A cultura oficial sempre se mostra aleijada e falsa. Só a cultura popular tem raízes certas. A literatura se completa exclusivamente com a participação do povo.

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Existe literatura piauiense? Creio que sim, uma vez que as obras dos nossos escritores revelam aspectos da vida social do homem piauiense, na paisagem geográfica piauiense e no momento histórico piauiense. E isto é literatura. Vejamos os autores mortos, a fim de que evitemos aborrecimentos por parte dos vivos que às vezes a gente deixa de citar.

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Circunstâncias históricas e mesológicas criaram para a literatura piauiense feição peculiar de responsabilidade do nosso isolamento geográfico e cultural, durante anos. Em razão disto, ainda se discute a respeito da existência de uma literatura piauiense. Cremos, porém, na sua existência, porque temos o homem piauiense na elaboração de processo literário num espaço geograficamente piauiense. Há, entre nós, aquela literatura regional definida por Stewart - localizada numa região e que retira substância real desse local: "Essa substância, primeiramente de fundo natural - clima, topografia, flora, fauna, etc. - como elementos que afetam a vida humana na região; e, em segundo lugar, das maneiras peculiares da sociedade humana estabelecida naquela região e que a fizeram distinta de qualquer outra”.

É este o sentido do regionalismo autêntico, como quer Stewart.

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No poeta José Coriolano figuram com nitidez e simplicidade a labuta da gente humilde, o acordar do dia, a vibração da floresta, os espetáculos da natureza piauiense. A descrição das nossas matas, os animais da floresta, o sertanejo nas caçadas ardilosas está em Teodoro Castelo Branco. Hermínio Castelo Branco fixou a fala, os hábitos, o desafio, o gado, a crendice, tipos de alimentação, hipocrisias eleitorais, cenas de casamento, tudo ligado à caboclada. Clodoaldo Freitas tem poesias sertanejas admiráveis, como José Manuel de Freitas enalteceu o interior piauiense na labuta dos currais. que dizer de Lucídio Freitas nos poemas em que cantou uma Teresina rica de sentimentos espirituais do seu tempo? Da Costa e Silva e a saudade, a terra natal, as cenas das enchentes, do incêndio da mata, do rio, da balsa, em quadros imorredouros de beleza e expressividade? A desolação e o martírio da seca se lêem em Martins Vieira. O grande Abdias Neves reproduz com exatidão a Teresina do fim do século XIX e começo do XX. Jamais esqueceram aspectos folclóricos e cenas provincianas poetas e prosadores como João Ferry, Artur Passos, Domingos Fonseca. Sem necessidade de encompridamento da lista, encerremos com Fontes Ibiapina, admirável fixador e intérprete do nosso regionalismo tão rico e pleno de força popular.

Existe literatura no Piauí - e os vivos têm lugar de destaque na moderna literatura nacional.


A. Tito Filho, 03/05/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 1 de março de 2012

ADELMAR ROCHA

Se vivo estivesse, Adelmar Soares da Rocha teria completado, a primeiro de janeiro de 1992, CEM ANOS de idade.

Nasceu em Aparecida, hoje Bertolínia (PI), a 1-1-1892. Pais: Bertolino Alves da Rocha. Faleceu no Rio de Janeiro (11-1-1973). Médico, trabalhou nos Estados do Maranhão, Piauí, São Paulo e Mato Grosso. Ingressou no Exército, como 2º tenente médico, em 1921, chegando ao generalato. Exerceu vários comandos, chefias e comissões. Diretor do Hospital Militar de Bagé (RS). Membro da Comissão Organizadora da filial da Cruz Vermelha de Campo Grande (MT). Diretor do Hospital de Campo Grande. Supervisor da Junta de Seleção do Contingente da Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial). Revolucionário em 1924, esteve exilado na Bolívia. Participou da Aliança Liberal (1930). Esteve fiel ao governo na revolução de são Paulo (1932). Deputado federal pelo Piauí em 1934 e no período de 1946 a 1951. Neste último mandato, como constituinte, apresentou emenda, transferindo as Fazendas Nacionais para o patrimônio do Piauí, com o nome de Fazendas Estaduais. Era detentor de várias condecorações por relevantes serviços prestados ao país. Conferencista culto, deixou numerosos trabalhos, de alto valor literário e histórico, entre os quais "Caxias como símbolo da grandeza militar da pátria e "Taunay". Grande orador parlamentar. Edgard Alfredo Guimarães: "... em cada um dos seus poemas palpitam, sonoras e emocionais, as vibrações dos seus nervos...". Remígio Fernandes: "... a arte foi a preocupação dominante, preocupação que se fez amargura e obsessão".

O acadêmico Edgard Nogueira, em 1973, no discurso de posse na Casa de Lucídio Freitas, escreveu esta notável opinião sobre o poeta: "... cantor da solidão, dos quadros da natureza, da infância, das paisagens, de Deus, da família; e de suas desilusões da vida, aquí e alí impregnado de sensualidade - triste quase sempre, quase sempre revoltado, buscando consolo nas flores, na esperança, no luar, nos astros e nos sonhos, na luz, no amor".


A. Tito Filho, 04/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OS CEM ANOS

Neste mês de dezembro, Edison da Paz Cunha, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, se vivo fosse, completaria cem anos de idade.

Nasceu em Teresina, a 15 de dezembro de 1881. Pais: Higino Cunha e Corina da Paz Cunha. Bacharel em Direito pela Faculdade do Recife (1912). Oficial de gabinete do governador Eurípedes de Aguiar. Diretor da Imprensa Oficial. Promotor Público. Em Parnaíba, onde passou a residir e faleceu em 1973, tornou-se notável advogado e mestre acatado da juventude.

Jornalista, jurista e conferencista. Escreveu ele sobre a própria personalidade: "Prosador e conferencista para estudantes, em estilo didático, adquirido no longo exercício do magistério. Não é poeta, mas nas horas vagas, faz versos quase maus, como diria o senhor Esmaragdo de Freitas".

Deixou os seguintes trabalhos: "Vozes Imortais" (crítica sobre membros da Academia Piauiense de Letras, vivos e mortos), "Correspondência para você", "Discurso na abertura do ano letivo do Ginásio Parnaibano" (1935) e "Razões Finais", em colaboração (estudo jurídico).

Sucedendo a Edison Cunha na Casa de Lucídio Freitas, o escritor J. Miguel de Matos definiu-lhe, como de grandeza a atividade intelectual e literária - versátil e poderosa de jornalista, de escritor, de advogado, de filósofo e de poeta.

A respeito de "Vozes Imortais" (Crestomatia da Academia Piauiense de Letras) escreveu Martins Napoleão: "Nesse trabalho de compilação e crítica, e inteligência vivacíssima do senhor Edison Cunha, sempre ao melhor serviço da Literatura, do Magistério e da Advocacia, resume exemplares de vinte e cinco anos de atividade intelectual dos titulares da APL, contribuindo, assim, e com esforço digno de louvor e estímulo, a comemorar o cumprimento do primeiro quarto de século de sua fundação, ocorrido em 30 de dezembro de 1942".

"Título e subtítulo da obra, em que se estão a trair, de uma vez, o beletrista, o professor e o advogado, bem cedo lhe revelam a intenção e objetivos: naquele - a capacidade de admirar, que distingue o homem de talento, cultuando a memória dos companheiros, através de suas produções escolhidas; nesse - a preocupação de ser útil aos outros homens, tão evidente no sentido da palavra crestomatia".

E adiante:

"O senhor Edison Cunha andou bem avisado em não querer cifrar-se a simples nótulas biográficas dos nossos acadêmicos, seguindo Humberto de Campos em relação aos seus ilustres consórcios: aduziu apreciações críticas que, sucintas e nervosas, ganham em intensidade, em interesse e em brilho, verdadeiros retratos em traços esquemáticos, vivos e impressionantes".


A. Tito Filho, 03/01/1992, Jornal O Dia