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segunda-feira, 2 de abril de 2012

IDÉIAS

Faleceu, faz anos, Elias de Oliveira e Silva, membro da Academia Piauiense de Letras, primeiro ocupante da cadeira 28, patrocinada por Luísa Amélia de queirós Brandão, poetisa sentimental, de quem, ao tomar posse, na sessão solene de 18 de outubro de 1921, disse ele: Idólatra da poesia, sou irmão espiritual do artista que se ajoelha ante o seu ídolo sagrado. E, por muito amor a poesia foi que escolhi, para patrocinar a minha cadeira, o nome ilustre de Luísa Amélia de Queirós, a poetisa destemida que, num ambiente contrário aos surtos do seu talento, vibrava na emoção admirável dos seus sentimentos, cantando-os em versos espontâneos, feliz nas suas convicções, ardente nos seus arrebatamentos, inabaláveis na sua fé, invencível nas suas paixões e máscula nos seus formosos ideais de concórdia, de ilusão, de amor e de glória.

De feito, Elias, na mocidade, dedicou-se à poesia. Cultivou o soneto, e compôs alguns, que lembram a definição de Celso Pinheiro - quatorze versos cheirosos.

Lapidador delicado do soneto, terno, apaixonado dos traços femininos - Elias cultivou também a trova, elegante e gracioso, sempre voltado para a mulher, nos seus atrativos físicos - na mulher em que ele pouco ou nada acreditava.

Conheci Elias de Oliveira em Fortaleza, no tempo em cursei o antigo Liceu do Ceará. Elegante, estatura acima da mediana, cabeleira basta, olhos amortecidos, inteligência ágil, vibrante, voz forte, dominadora - gozava o saudoso acadêmico de grande conceito intelectual. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri, celebrado de aplausos. Argumentador seguro, culto, dominava a platéia, os jurados - terror da acusação quando se encontrava na defesa, terror da defesa quando auxiliava a acusação. Palavra fácil, corrente, por vez irônica, sustentada de conceitos graves, com que se revelava o grande estudioso da ciência penal. Nesse tempo conquistara já grande fama e respeito como jurista, autor de "Idéia do Direito da Filosofia Helênica" (1919), "Inconstitucionalidade de Impostos" (1920), "Crime de Calúnia" (1925), "Intervenção Federal nos Estados" (1930), "Homicídio Culposo" (1932), "Criminologia das Multidões" (1934), "Crime de Incêndio" (1934), "Injúria pela Imprensa" (1934). anos depois, em 1952, publicou ainda "Crimes contra a Economia Popular".
A obra que o colocou entre os mais notáveis estudiosos do assunto, no Brasil como em outros países, foi, sem dúvida, "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao Direito Criminal. Problema interessantíssimo o da multidão criminosa. Muitos, notadamente franceses e italianos, lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil - estudos quase sempre lacunosos - e mais completo que conheço antes de surgir o de Elias, é o de Scipio Sighele: A Multidão Criminosa.

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que antes escritores de nomeada procuraram, nos seus livros, revelar a psicologia das multidões, como d'Annuzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola foi real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

Como disse, li Sighele - extraordinário de observações, mas com falhas que foram supridas, no meu entendimento, por Elias de Oliveira. Certíssimo o conceito de multidão, no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora momentânea, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o "agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, qualidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas no inconsciente".

Esse recalque é o grande responsável pelo crime da multidão. Elias faz o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Aliás, observei, certa feita, em um trabalho intelectual, que os recalques freudianos estão nas manifestações dos campos de futebol brasileiro, como nas arenas das touradas espanholas.

O notável piauiense repudia as classificações de multidão de famosos criminalistas.


A. Tito Filho, 16/01/1992, Jornal O Dia

MISSÃO ACADÊMICA

As academias de letras, no Brasil, quase todas ou todas, inclusive a brasileira, limitam-se a reuniões de seus membros, para elogios mútuos, recepções de novos acadêmicos e respectiva discurseira. A mania generalizada está em escrever poemas e contos, meio pelo qual conseguem o estrelato, poesia e prosa as mais das vezes representativas de cruel subliteratura.

A Academia Piauiense de Letras foge ao figurino geral. Nela se apresentaram grandes poetas, a exemplo de Martins Napoleão, Moura Rego, Martins Vieira, Lucídio Freitas, entre outros, e notáveis prosadores, do tope de Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, João Pinheiro, Abdias Neves, Artur Passos, para lembrar alguns. Entre os vivos existem muitos que honram o sodalício.

A Academia, porém, não ficou nos poetas, nos romancistas, nos contistas. Convocou matemáticos, médicos, engenheiros, juristas, enfim aqueles que se projetaram em qualquer ramo do saber humano. Nem só poetas e prosadores bastam à representação cultural das comunidades.

O jornal teresinense "Correio do Piauí", em editorial do dia 15 de março, escreveu com justiça as palavras seguintes, sob o título APL - UMA VANGUARDA NO PIAUÍ: "Graça Aranha, em famoso discurso na Academia Brasileira de Letras, afirmava: 'se a Academia não se renova, morra a Academia'. Todos, inclusive os próprios acadêmicos, querem, de vez em quando, atacar a instituição que abriga os 40 eleitos que compõem seu quadro. Elas, entretanto, estão de pé e assim continuaram por toda a vida. Haverá sempre uma continuidade dos seus trabalhos. Por isso eles são 'imortais'.

"Trazendo o assunto para a Academia Piauiense de Letras, devemos dizer que, apesar de atacada, nunca saiu para o contra-ataque e nem deixou de cumprir com as suas atividades estatuárias. Devemos dizer, até, que em determinados momentos foi a APL o único órgão a se posicionar contra desmandos governamentais e a propor inovações. Mesmo sendo de linha conservadora, a Academia Piauiense de Letras tem se mostrado, em alguns aspectos, progressista".

"Basta lembrar que foi a Academia Piauiense de Letras a trazer o Cavaleiro da Esperança, o Prestes, ao Piauí para debate. E ainda em um momento que ele era considerado 'elemento perigoso'. Foi a Academia Piauiense de Letras a trazer o médico Eustáquio Portella para falar sobre a Maconha - assunto tabu. Eustáquio chegou, inclusive, a defender o uso da mesma. Outros exemplos poderíamos dar. Contudo, os dois ilustram muito bem o ar de modernidade que é respirado, de quando em vez, na casa de Lucídio Freitas".

"Presidida pelo Mestre A. Tito Filho, recém-eleito para mais um mandato, temos em suas próprias palavras que as 'Academias não devem ocupar apenas as meras conversações de caráter literário, a portas fechadas, em que mais freqüentes são os elogios recíprocos. As academias, antes de tudo, têm obrigações educacionais e culturais para com a coletividade, condenando a amoralidade dos dirigentes governamentais e as futilidades das elites empanturradas de dinheiro de origens obscuras'".

"Mais adiante A. Tito Filho afirma que a Academia Piauiense de Letras 'não se calará diante de escândalos sem conta e frente ao desalento geral de vil pobreza abandonada, sem a alimentação, moradia, saúde, escola e à qual resta a confiança em Deus, que assumiu nossa humanidade e nasceu num estábulo em Belém'".

"Poucas entidades, mesmo as consideradas de esquerda, assumem tal postura, tal compromisso. E o que é mais importante, têm sustentáculo moral para fazerem-se respeitadas".

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Muitas outras personalidades a APL trouxe a Teresina, como o médico Correia Lima, autoridade em AIDS, que ofereceu magnífica aula a centenas de estudantes na Escola Técnica; Afonso Tarantino, notável pneumologista; Assis Brasil, Esdras Nascimento e Afrânio Coutinho, para palestras na Universidade; Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras, e muitos outros, para cumprimento da missão social acadêmica.


A. Tito Filho, 19/03/1992, Jornal O Dia

OS HUMILDES

Na Academia Piauiense de Letras possuo o meu voto. Nunca pedi que os colegas acadêmicos me concedessem o voto que lhes pertence para a eleição de candidato de minhas simpatias, pois se assim fosse Possidônio Queiroz já estaria sentado numa poltrona da Casa de Lucídio Freitas, por incontestável merecimento. Humilde, simples, bondoso, amigo leal, sincero, correto nas atitudes, tem memória privilegiada, conhecimento profundo da história do Piauí e de sua antiga capital, Oeiras, riquíssima de tradições, e de grandezas cívicas. Possidônio e Oeiras se confundem fraternos, amada e amante de amor eterno. Raros no Piauí escrevem como Possidônio, linguagem escorreita, na usança do português popular ou da língua clássica quando quer, e num ou noutro tem o respeito dos mestres como ele.

Gosto de Possidônio, consultório da gente de Oeiras. Venero-o. Colocou a cultura piauiense a serviço dos sentimentos de sua pátria maior, Oeiras, cuja glória abastece o Piauí sem memória e Teresina mutilada de ambições nefastas.

Casualmente folheio um jornalzinho antigo de Oeiras e nele deparo com um trabalho de Possidônio, uma crônica, gênero difícil, que ele domina facilmente. Homenagei-o transcrevendo-a. Leiam-na. Curiosa, concepção pular, como tudo que presta, intitulada O HOMEM QUE DAVA LEITE:

"Parece que ainda estou a ver. Estatura mediana, gordo, por isso mesmo parecendo mais baixo, xingador, amante da boa pinga, palavroso, quase valente, festeiro, vaqueiro hábil e corajoso, autoritário no meio onde morava; eis, em rápidas pinceladas, o retrato do nosso herói, - Raimundo José de Figueiredo, ou, simplesmente, Raimundo Figueiredo, como era tratado.

Há quarenta anos atrás, todo mundo o conhecia em Oeiras. Residente no interior do município, no lugar Malhada Real, há poucas léguas da sede, vinha constantemente à cidade. Aqui privava com as pessoas mais categorizadas. Muitos gostavam de ouvi-lo, porque a conversa entremeada de palavras menos doce, de constantes invocações ao Diabo e de pilhérias salgadas, despertavam gargalhadas estrepitosas.

Raimundo Figueiredo nunca vinha à cidade sem palitó. A camisa, porém, lhe aparecia por baixo do palitó, na frente e atrás, porque a trazia sempre por fora das calças. Isto dava um aspecto bizarro.

Quando moço foi acometido de pertinaz moléstia, que, por pouco o não levou à sepultura. Permaneceu em estado de coma por vários dias. Restabelecido, contava, grave, sentencioso, que estivera no inferno e que lá muita gente conhecida, cujos nomes declinava. Desde então, tornou-se famigerado praguejador, vomitando injúrias, a cada momento.

O que vai dito bastava para a definição do homem, que veio do "outro mundo" sobremodo amigo do Tinhoso, amigo, de tal forma que não lhe podia nunca tirar o nome da boca. Entretanto, não é sob este aspecto, que lhe querem focalizar a personalidade. O que vamos dizer de Raimundo Figueiredo é que ele era um homem que dava leite, e dava muito leite.

Gostava de dizer, de afirmar essa faculdade que possuía, que de certa forma, o colocava acima dos outros homens, que não sabiam dar leite. E não admitia que ninguém lhe duvidasse da assertiva. A mais de uma pessoa, por duvidar do que ele dizia, sujou a cara e a roupa de leite. Era desacreditá-lo, e ele, num movimento rápido, sacava de sob as vestes um peito enorme, referto do liquido branco, e, sem mais demora, mandava contra o incrédulo um forte esguicho que o molhava todo.

Raimundo Figueiredo amamentou a mais de um filho. Não gostava de ouvir choro de criança. Por isso, quando a mulher saía para lavar roupa e a criança tinha fome, ele acalentava o filho pequeno, dando-lhe o peito a mamar. Daí, lhe adveio o criar leite, e muito leite. Cabra macho, não enjeitava contenda.

Genecomasto, na expressão da palavra, possuía mamas enormes. Nesse particular poucas mulheres lhe levavam a palma. Podia tirar, dos grandes peitos, sempre refetos, como costumava afirmar, copos de leite. Isso, eu o ouvi dizer mais de uma vez.

Gostava muito de sambar, de comandar as danças nos folguedos roceiros. Nas festas de casamento, nunca deixava de pronunciar discursos bombásticos, geralmente muito aplaudidos.


Era perdido por mulheres. Casado, tinha cinco ou seis filhos do matrimônio e vários de contrabando. Se fosse vivo estaria escandalizado por ver tantos homens operando-se no desejo de se transformarem em mulheres. Não fez nenhuma operação. E, no entanto, tinha seios enormes e amamentou crianças. Cousas da vida".


A. Tito Filho, 23/05/1992, Jornal O Dia

sábado, 17 de março de 2012

IMPRESSÃO

Em 1959, busquei recursos médicos no Rio de Janeiro. Sai de Teresina cedinho, nos aviões DC-3, que realizavam um chatíssimo pinga-pinga: Bom Jesus da Lapa, Salvador, Ilhéus, Montes Claros, Belo Horizonte, Vitória, finalmente a velha capital brasileira, aonde se chegava pelas oito horas da noite. Gerardo Vasconcelos, bondoso dia por dia, me deu carta de recomendação a um doutor dirigente de casa de saúde e às portas destas bati e tive recado de falta de vaga. Mandaram-me para outro hospital, até que alguém, morto ou restabelecido, desocupasse quarto.

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Estabeleci-me, de modo provisório, noutra casa de saúde, e nela recebi assistência de um doutor magro, fino, mas sabido como diabo. Depois que me auscultou, e de natural e até demorado interrogatório, consentiu em que eu tinha muita fome. E já noite puxada me conseguiu ovos, presunto e pão.

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De manhã, solzão, aberto, recebi a visita do diretor do hospital, de faces e queixo barbudos, bem cheios de barba - uma barba negra, muito negra e bem cuidada. Era o piauiense de nomeada, de fama justa, Correntino Nogueira Paranaguá. Conversou comigo um bom pedaço de tempo, lhano, afável, deixando-me forte impressão de homem honesto, simples e correto.

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Durante anos não tive oportunidade de rever Correntino. Mas não saiu da memória o seu gesto bondoso da visita, e de encorajar-me com a esperança de breve reencontro com a saúde.

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Em 1976, publiquei livro a respeito das ruas, avenidas e praças de Teresina, biografando vultos ilustres homenageados, ou oferecendo a significação dos nomes de outras vias públicas. Ano seguinte, Correntino mandava-me carta, em que salientava natural decepção ao sentir que a capital piauiense não possuía um beco sequer chamado Joaquim Nogueira Paranaguá, pai do missivista, que reais e relevantes serviços concedeu à coletividade nacional. A voz do filho reclamava a honraria, que os poderes competentes haviam esquecido. Levei o caso ao Prefeito Wall Ferraz, e a justiça foi feita.

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1978. A Academia Piauiense de Letras, em janeiro, promoveu festas comemorativas dos seus sessenta anos de existência laboriosa e útil e convidou piauienses radicados noutras terras para a comunhão das alegrias acadêmicas. Um deles: Correntino Paranaguá - prestimoso, atento aos deveres do coleguismo, educado, culto, presente em todas as solenidades acadêmicas.

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Tive a boa sorte, a sorte de habitar a sua amizade sincera e leal. Mantivemos correspondência. E dele merecia atitude que muito me confortou o espírito: a leitura destas páginas, escritas com o sentimento da verdade histórica e social, e sobremodo com o objetivo de rememorar a figura paterna, íntegra, humana, sensível ao sofrimento alheio, devotada ao bem público, temente a Deus, estudioso, capaz de sacrifícios, incansável trabalhador pela sua terra e pela sua gente.

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Joaquim Nogueira Paranaguá diplomou-se médico, fidelíssimo ao juramento da formatura. Utilizou-se da política partidária para a prática do civismo. Como administrador, de pequenos recursos materiais e tempo escasso, soube cumprir o dever. Teve luta admirável em favor da educação do homem - do homem que ele pretendia consciente e integral de virtudes. Escritor e cientista, pôs a serviço do povo os dons de privilegiada inteligência. Nunca esmoreceu para não desmerecer, como queria e ensinava Oswaldo Cruz. Nele se harmonizavam a força de vontade no espírito, o bom senso nas determinações, a honestidade nos princípios, a energia nos atos, a confiança em si mesmo, a fé em Deus. Filho, esposo e pai amantíssimo.

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Este trabalho de Correntino Paranaguá vale lições de história do sul do Piauí e das lutas da sua gente heróica. A narrativa acolhe desavenças partidárias, cangaço, cheiro de pólvora, também trabalho de liderança, esforço educacional, esperanças de novos tempos - e tudo aqui está fiel: a paisagem, os quadros da adolescência, a cidade pequena, os rios, os tipos humanos e seus caracteres, os episódios políticos, a face negativa de certos homens, os dramas da vida, a dor e a alegria, a coragem de ser forte, as árvores, os bichos, as lendas, o sol e a chuva, a doença, a crendice, a superstição - como se tudo fosse fotografado por um observador perspicaz, bem servido de vastos conhecimentos, dos estudos sociais e psicológicos, do modo sério de narrar a história e nela situar personagens e fatos memoráveis que a explicam e justificam.

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No autor, antes de mais nada o intérprete do passado remoto e do passado recente do Piauí. As figuras parecem vivas, tal o engenho com que são projetadas. E ressalte-se, como virtude de poucos, de raros até, a linguagem singela, bem conduzida, conveniente ao estilo do narrador de boa cepa.

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Em todo cenário do livro, no Piauí e noutras paisagens brasileiras, a gente sente a presença de Joaquim Nogueira Paranaguá, a beleza de suas lutas, os processo educacionais que o sensibilizaram, o seu feitio de querer bem ao semelhante, o seu apostolado - afinal o Homem, que soube servir, com amor verdadeiro, a família e a coletividade, obediente aos ditames de Deus.


A. Tito Filho, 25/05/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 5 de março de 2012

O VELHO CLUBE

Senhores da mais alta evidência, pelo dinheiro e pelo prestígio político e intelectual, fundaram a sociedade recreativa Clube dos Diários, no ano do centenário da Independência do Brasil, 1922. Coube a primeira presidência ao comerciante e proprietário Antônio Ferraz. Deu-se o baile inaugural a 31 de dezembro do mesmo ano, na casa residencial do negociante Antônio Campos, batizada de CAMPINA MODESTA. Disseram-me depois que a festa esteve maravilhosa. Presença da fina flor da alta roda, mulheres vestidas de muito luxo e beleza. Anotaram-se na crônica da época nomes prestigiosos de homens e suas famílias, como Matias Olimpio, Miguel Rosa, Valdivino Tito, Jarbas Martins, Mário Baptista, Evandro Rocha, Sotero da Silveira, Simplício Mendes, Antonino Freire, Heli Castelo Branco, Antônio Costa Araújo Filho, Heitor Castelo Branco, Álvaro Freire, Agripino Oliveira, Antônio Chaves, Dídimo Castelo Branco, Joel Oliveira, com destaque especial para o solteirão governador João Luís Ferreira e outros.

Em 1927, houve a festiva inauguração da sede própria, no terreno doado pelo governador Matias Olimpio, a mesma que atravessou os anos até hoje, e que, de vez em quando, sofria alterações para atendimento dos novos sócios que se filiavam ano por ano. A atual sede está aumentada mais ou menos da metade do que foi antigamente.

Tornou-se essa sociedade recreativa o centro social da intensa atividade. Era a instituição querida dos teresinenses. Deslumbrantes as suas festas dançantes. Muitos namoros, noivados e casamentos tiveram inicio nos seus salões. Homenagens a políticos, banquetes, recepções ainda hoje estão na lembrança da cidade. Carnavais formidáveis vivem na recordação permanente de velhos foliões. Ali se realizaram conferencias literárias e posses acadêmicas aclamadíssimas. Eleições de misses. Reuniões de objetivo vário.
Ainda na década de 60 o Clube dos Diários, apesar do nascimento e florescimento de outros grêmios, mantinha-se altivo, como uma relíquia, freqüentado por uma sociedade que já afrouxava os freios morais de homens e mulheres. A juventude entregava-se aos primeiros passos da constatação de costumes nas coletividades humanas.

Nos fins dos anos 60 e principio da década seguinte, a agremiação tão querida entrou em decadência e chegou ao estado que chegou, requentada pelos que apreciam o jogo noturno e madrugadino, por homossexuais dos dois tipos, garotos vadios, pivetes. Ainda algumas personalidades ilustres nela espairecem, chorando intimamente as recordações de um tempo romântico que não volta mais. O ambiente está hoje de sujeira e integral desagregação física, do solo ao teto. Sombra dorida de um passado de riqueza espiritual. Em tudo, os fantasmas dos que bailaram, cantaram e se divertiram na magia de um mundo maravilhoso que a imbecilidade dos homens maus não soube preservar.


A. Tito Filho, 05/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 1 de março de 2012

ADELMAR ROCHA

Se vivo estivesse, Adelmar Soares da Rocha teria completado, a primeiro de janeiro de 1992, CEM ANOS de idade.

Nasceu em Aparecida, hoje Bertolínia (PI), a 1-1-1892. Pais: Bertolino Alves da Rocha. Faleceu no Rio de Janeiro (11-1-1973). Médico, trabalhou nos Estados do Maranhão, Piauí, São Paulo e Mato Grosso. Ingressou no Exército, como 2º tenente médico, em 1921, chegando ao generalato. Exerceu vários comandos, chefias e comissões. Diretor do Hospital Militar de Bagé (RS). Membro da Comissão Organizadora da filial da Cruz Vermelha de Campo Grande (MT). Diretor do Hospital de Campo Grande. Supervisor da Junta de Seleção do Contingente da Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial). Revolucionário em 1924, esteve exilado na Bolívia. Participou da Aliança Liberal (1930). Esteve fiel ao governo na revolução de são Paulo (1932). Deputado federal pelo Piauí em 1934 e no período de 1946 a 1951. Neste último mandato, como constituinte, apresentou emenda, transferindo as Fazendas Nacionais para o patrimônio do Piauí, com o nome de Fazendas Estaduais. Era detentor de várias condecorações por relevantes serviços prestados ao país. Conferencista culto, deixou numerosos trabalhos, de alto valor literário e histórico, entre os quais "Caxias como símbolo da grandeza militar da pátria e "Taunay". Grande orador parlamentar. Edgard Alfredo Guimarães: "... em cada um dos seus poemas palpitam, sonoras e emocionais, as vibrações dos seus nervos...". Remígio Fernandes: "... a arte foi a preocupação dominante, preocupação que se fez amargura e obsessão".

O acadêmico Edgard Nogueira, em 1973, no discurso de posse na Casa de Lucídio Freitas, escreveu esta notável opinião sobre o poeta: "... cantor da solidão, dos quadros da natureza, da infância, das paisagens, de Deus, da família; e de suas desilusões da vida, aquí e alí impregnado de sensualidade - triste quase sempre, quase sempre revoltado, buscando consolo nas flores, na esperança, no luar, nos astros e nos sonhos, na luz, no amor".


A. Tito Filho, 04/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OS CEM ANOS

Neste mês de dezembro, Edison da Paz Cunha, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, se vivo fosse, completaria cem anos de idade.

Nasceu em Teresina, a 15 de dezembro de 1881. Pais: Higino Cunha e Corina da Paz Cunha. Bacharel em Direito pela Faculdade do Recife (1912). Oficial de gabinete do governador Eurípedes de Aguiar. Diretor da Imprensa Oficial. Promotor Público. Em Parnaíba, onde passou a residir e faleceu em 1973, tornou-se notável advogado e mestre acatado da juventude.

Jornalista, jurista e conferencista. Escreveu ele sobre a própria personalidade: "Prosador e conferencista para estudantes, em estilo didático, adquirido no longo exercício do magistério. Não é poeta, mas nas horas vagas, faz versos quase maus, como diria o senhor Esmaragdo de Freitas".

Deixou os seguintes trabalhos: "Vozes Imortais" (crítica sobre membros da Academia Piauiense de Letras, vivos e mortos), "Correspondência para você", "Discurso na abertura do ano letivo do Ginásio Parnaibano" (1935) e "Razões Finais", em colaboração (estudo jurídico).

Sucedendo a Edison Cunha na Casa de Lucídio Freitas, o escritor J. Miguel de Matos definiu-lhe, como de grandeza a atividade intelectual e literária - versátil e poderosa de jornalista, de escritor, de advogado, de filósofo e de poeta.

A respeito de "Vozes Imortais" (Crestomatia da Academia Piauiense de Letras) escreveu Martins Napoleão: "Nesse trabalho de compilação e crítica, e inteligência vivacíssima do senhor Edison Cunha, sempre ao melhor serviço da Literatura, do Magistério e da Advocacia, resume exemplares de vinte e cinco anos de atividade intelectual dos titulares da APL, contribuindo, assim, e com esforço digno de louvor e estímulo, a comemorar o cumprimento do primeiro quarto de século de sua fundação, ocorrido em 30 de dezembro de 1942".

"Título e subtítulo da obra, em que se estão a trair, de uma vez, o beletrista, o professor e o advogado, bem cedo lhe revelam a intenção e objetivos: naquele - a capacidade de admirar, que distingue o homem de talento, cultuando a memória dos companheiros, através de suas produções escolhidas; nesse - a preocupação de ser útil aos outros homens, tão evidente no sentido da palavra crestomatia".

E adiante:

"O senhor Edison Cunha andou bem avisado em não querer cifrar-se a simples nótulas biográficas dos nossos acadêmicos, seguindo Humberto de Campos em relação aos seus ilustres consórcios: aduziu apreciações críticas que, sucintas e nervosas, ganham em intensidade, em interesse e em brilho, verdadeiros retratos em traços esquemáticos, vivos e impressionantes".


A. Tito Filho, 03/01/1992, Jornal O Dia