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segunda-feira, 2 de abril de 2012

IDÉIAS

Faleceu, faz anos, Elias de Oliveira e Silva, membro da Academia Piauiense de Letras, primeiro ocupante da cadeira 28, patrocinada por Luísa Amélia de queirós Brandão, poetisa sentimental, de quem, ao tomar posse, na sessão solene de 18 de outubro de 1921, disse ele: Idólatra da poesia, sou irmão espiritual do artista que se ajoelha ante o seu ídolo sagrado. E, por muito amor a poesia foi que escolhi, para patrocinar a minha cadeira, o nome ilustre de Luísa Amélia de Queirós, a poetisa destemida que, num ambiente contrário aos surtos do seu talento, vibrava na emoção admirável dos seus sentimentos, cantando-os em versos espontâneos, feliz nas suas convicções, ardente nos seus arrebatamentos, inabaláveis na sua fé, invencível nas suas paixões e máscula nos seus formosos ideais de concórdia, de ilusão, de amor e de glória.

De feito, Elias, na mocidade, dedicou-se à poesia. Cultivou o soneto, e compôs alguns, que lembram a definição de Celso Pinheiro - quatorze versos cheirosos.

Lapidador delicado do soneto, terno, apaixonado dos traços femininos - Elias cultivou também a trova, elegante e gracioso, sempre voltado para a mulher, nos seus atrativos físicos - na mulher em que ele pouco ou nada acreditava.

Conheci Elias de Oliveira em Fortaleza, no tempo em cursei o antigo Liceu do Ceará. Elegante, estatura acima da mediana, cabeleira basta, olhos amortecidos, inteligência ágil, vibrante, voz forte, dominadora - gozava o saudoso acadêmico de grande conceito intelectual. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri, celebrado de aplausos. Argumentador seguro, culto, dominava a platéia, os jurados - terror da acusação quando se encontrava na defesa, terror da defesa quando auxiliava a acusação. Palavra fácil, corrente, por vez irônica, sustentada de conceitos graves, com que se revelava o grande estudioso da ciência penal. Nesse tempo conquistara já grande fama e respeito como jurista, autor de "Idéia do Direito da Filosofia Helênica" (1919), "Inconstitucionalidade de Impostos" (1920), "Crime de Calúnia" (1925), "Intervenção Federal nos Estados" (1930), "Homicídio Culposo" (1932), "Criminologia das Multidões" (1934), "Crime de Incêndio" (1934), "Injúria pela Imprensa" (1934). anos depois, em 1952, publicou ainda "Crimes contra a Economia Popular".
A obra que o colocou entre os mais notáveis estudiosos do assunto, no Brasil como em outros países, foi, sem dúvida, "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao Direito Criminal. Problema interessantíssimo o da multidão criminosa. Muitos, notadamente franceses e italianos, lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil - estudos quase sempre lacunosos - e mais completo que conheço antes de surgir o de Elias, é o de Scipio Sighele: A Multidão Criminosa.

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que antes escritores de nomeada procuraram, nos seus livros, revelar a psicologia das multidões, como d'Annuzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola foi real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

Como disse, li Sighele - extraordinário de observações, mas com falhas que foram supridas, no meu entendimento, por Elias de Oliveira. Certíssimo o conceito de multidão, no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora momentânea, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o "agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, qualidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas no inconsciente".

Esse recalque é o grande responsável pelo crime da multidão. Elias faz o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Aliás, observei, certa feita, em um trabalho intelectual, que os recalques freudianos estão nas manifestações dos campos de futebol brasileiro, como nas arenas das touradas espanholas.

O notável piauiense repudia as classificações de multidão de famosos criminalistas.


A. Tito Filho, 16/01/1992, Jornal O Dia

MISSÃO ACADÊMICA

As academias de letras, no Brasil, quase todas ou todas, inclusive a brasileira, limitam-se a reuniões de seus membros, para elogios mútuos, recepções de novos acadêmicos e respectiva discurseira. A mania generalizada está em escrever poemas e contos, meio pelo qual conseguem o estrelato, poesia e prosa as mais das vezes representativas de cruel subliteratura.

A Academia Piauiense de Letras foge ao figurino geral. Nela se apresentaram grandes poetas, a exemplo de Martins Napoleão, Moura Rego, Martins Vieira, Lucídio Freitas, entre outros, e notáveis prosadores, do tope de Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, João Pinheiro, Abdias Neves, Artur Passos, para lembrar alguns. Entre os vivos existem muitos que honram o sodalício.

A Academia, porém, não ficou nos poetas, nos romancistas, nos contistas. Convocou matemáticos, médicos, engenheiros, juristas, enfim aqueles que se projetaram em qualquer ramo do saber humano. Nem só poetas e prosadores bastam à representação cultural das comunidades.

O jornal teresinense "Correio do Piauí", em editorial do dia 15 de março, escreveu com justiça as palavras seguintes, sob o título APL - UMA VANGUARDA NO PIAUÍ: "Graça Aranha, em famoso discurso na Academia Brasileira de Letras, afirmava: 'se a Academia não se renova, morra a Academia'. Todos, inclusive os próprios acadêmicos, querem, de vez em quando, atacar a instituição que abriga os 40 eleitos que compõem seu quadro. Elas, entretanto, estão de pé e assim continuaram por toda a vida. Haverá sempre uma continuidade dos seus trabalhos. Por isso eles são 'imortais'.

"Trazendo o assunto para a Academia Piauiense de Letras, devemos dizer que, apesar de atacada, nunca saiu para o contra-ataque e nem deixou de cumprir com as suas atividades estatuárias. Devemos dizer, até, que em determinados momentos foi a APL o único órgão a se posicionar contra desmandos governamentais e a propor inovações. Mesmo sendo de linha conservadora, a Academia Piauiense de Letras tem se mostrado, em alguns aspectos, progressista".

"Basta lembrar que foi a Academia Piauiense de Letras a trazer o Cavaleiro da Esperança, o Prestes, ao Piauí para debate. E ainda em um momento que ele era considerado 'elemento perigoso'. Foi a Academia Piauiense de Letras a trazer o médico Eustáquio Portella para falar sobre a Maconha - assunto tabu. Eustáquio chegou, inclusive, a defender o uso da mesma. Outros exemplos poderíamos dar. Contudo, os dois ilustram muito bem o ar de modernidade que é respirado, de quando em vez, na casa de Lucídio Freitas".

"Presidida pelo Mestre A. Tito Filho, recém-eleito para mais um mandato, temos em suas próprias palavras que as 'Academias não devem ocupar apenas as meras conversações de caráter literário, a portas fechadas, em que mais freqüentes são os elogios recíprocos. As academias, antes de tudo, têm obrigações educacionais e culturais para com a coletividade, condenando a amoralidade dos dirigentes governamentais e as futilidades das elites empanturradas de dinheiro de origens obscuras'".

"Mais adiante A. Tito Filho afirma que a Academia Piauiense de Letras 'não se calará diante de escândalos sem conta e frente ao desalento geral de vil pobreza abandonada, sem a alimentação, moradia, saúde, escola e à qual resta a confiança em Deus, que assumiu nossa humanidade e nasceu num estábulo em Belém'".

"Poucas entidades, mesmo as consideradas de esquerda, assumem tal postura, tal compromisso. E o que é mais importante, têm sustentáculo moral para fazerem-se respeitadas".

X   X   X

Muitas outras personalidades a APL trouxe a Teresina, como o médico Correia Lima, autoridade em AIDS, que ofereceu magnífica aula a centenas de estudantes na Escola Técnica; Afonso Tarantino, notável pneumologista; Assis Brasil, Esdras Nascimento e Afrânio Coutinho, para palestras na Universidade; Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras, e muitos outros, para cumprimento da missão social acadêmica.


A. Tito Filho, 19/03/1992, Jornal O Dia

OS HUMILDES

Na Academia Piauiense de Letras possuo o meu voto. Nunca pedi que os colegas acadêmicos me concedessem o voto que lhes pertence para a eleição de candidato de minhas simpatias, pois se assim fosse Possidônio Queiroz já estaria sentado numa poltrona da Casa de Lucídio Freitas, por incontestável merecimento. Humilde, simples, bondoso, amigo leal, sincero, correto nas atitudes, tem memória privilegiada, conhecimento profundo da história do Piauí e de sua antiga capital, Oeiras, riquíssima de tradições, e de grandezas cívicas. Possidônio e Oeiras se confundem fraternos, amada e amante de amor eterno. Raros no Piauí escrevem como Possidônio, linguagem escorreita, na usança do português popular ou da língua clássica quando quer, e num ou noutro tem o respeito dos mestres como ele.

Gosto de Possidônio, consultório da gente de Oeiras. Venero-o. Colocou a cultura piauiense a serviço dos sentimentos de sua pátria maior, Oeiras, cuja glória abastece o Piauí sem memória e Teresina mutilada de ambições nefastas.

Casualmente folheio um jornalzinho antigo de Oeiras e nele deparo com um trabalho de Possidônio, uma crônica, gênero difícil, que ele domina facilmente. Homenagei-o transcrevendo-a. Leiam-na. Curiosa, concepção pular, como tudo que presta, intitulada O HOMEM QUE DAVA LEITE:

"Parece que ainda estou a ver. Estatura mediana, gordo, por isso mesmo parecendo mais baixo, xingador, amante da boa pinga, palavroso, quase valente, festeiro, vaqueiro hábil e corajoso, autoritário no meio onde morava; eis, em rápidas pinceladas, o retrato do nosso herói, - Raimundo José de Figueiredo, ou, simplesmente, Raimundo Figueiredo, como era tratado.

Há quarenta anos atrás, todo mundo o conhecia em Oeiras. Residente no interior do município, no lugar Malhada Real, há poucas léguas da sede, vinha constantemente à cidade. Aqui privava com as pessoas mais categorizadas. Muitos gostavam de ouvi-lo, porque a conversa entremeada de palavras menos doce, de constantes invocações ao Diabo e de pilhérias salgadas, despertavam gargalhadas estrepitosas.

Raimundo Figueiredo nunca vinha à cidade sem palitó. A camisa, porém, lhe aparecia por baixo do palitó, na frente e atrás, porque a trazia sempre por fora das calças. Isto dava um aspecto bizarro.

Quando moço foi acometido de pertinaz moléstia, que, por pouco o não levou à sepultura. Permaneceu em estado de coma por vários dias. Restabelecido, contava, grave, sentencioso, que estivera no inferno e que lá muita gente conhecida, cujos nomes declinava. Desde então, tornou-se famigerado praguejador, vomitando injúrias, a cada momento.

O que vai dito bastava para a definição do homem, que veio do "outro mundo" sobremodo amigo do Tinhoso, amigo, de tal forma que não lhe podia nunca tirar o nome da boca. Entretanto, não é sob este aspecto, que lhe querem focalizar a personalidade. O que vamos dizer de Raimundo Figueiredo é que ele era um homem que dava leite, e dava muito leite.

Gostava de dizer, de afirmar essa faculdade que possuía, que de certa forma, o colocava acima dos outros homens, que não sabiam dar leite. E não admitia que ninguém lhe duvidasse da assertiva. A mais de uma pessoa, por duvidar do que ele dizia, sujou a cara e a roupa de leite. Era desacreditá-lo, e ele, num movimento rápido, sacava de sob as vestes um peito enorme, referto do liquido branco, e, sem mais demora, mandava contra o incrédulo um forte esguicho que o molhava todo.

Raimundo Figueiredo amamentou a mais de um filho. Não gostava de ouvir choro de criança. Por isso, quando a mulher saía para lavar roupa e a criança tinha fome, ele acalentava o filho pequeno, dando-lhe o peito a mamar. Daí, lhe adveio o criar leite, e muito leite. Cabra macho, não enjeitava contenda.

Genecomasto, na expressão da palavra, possuía mamas enormes. Nesse particular poucas mulheres lhe levavam a palma. Podia tirar, dos grandes peitos, sempre refetos, como costumava afirmar, copos de leite. Isso, eu o ouvi dizer mais de uma vez.

Gostava muito de sambar, de comandar as danças nos folguedos roceiros. Nas festas de casamento, nunca deixava de pronunciar discursos bombásticos, geralmente muito aplaudidos.


Era perdido por mulheres. Casado, tinha cinco ou seis filhos do matrimônio e vários de contrabando. Se fosse vivo estaria escandalizado por ver tantos homens operando-se no desejo de se transformarem em mulheres. Não fez nenhuma operação. E, no entanto, tinha seios enormes e amamentou crianças. Cousas da vida".


A. Tito Filho, 23/05/1992, Jornal O Dia

DESERTIZAÇÃO


Era no tempo das cousas sérias, e uma das seriedades da vida brasileira residia nos concursos de magistério. Encontrava-me na direção do Colégio Estadual do Piauí, educandário que hoje se denomina Zacarias de Góis, o fundador, ainda em Oeiras, antiga capital, nos anos de 1845, então chamado Liceu.

Promovi alguns concursos no tradicional colégio e era empolgante assistir aos exames respectivos, como a difícil defesa de tese que os candidatos escreviam sobre assunto da disciplina.

Lembro-me bem do concurso de Geografia do Brasil, com três candidatos: Darcy Fontenele de Araújo, Delfina Boavista e João Gabriel Baptista, professores cultos, admirado e com muita experiência didática. Cinco mestres de reconhecida idoneidade intelectual compunham a banca examinadora: Simplício Mendes, Álvaro Ferreira, Valdemar Sandes, Lysandro Tito de Oliveira e James Azevedo.

Desejo neste modesto artigo de jornal relembrar que os três candidatos alcançaram, merecidamente, notas distintas, que os aprovou para a cadeira pretendida, em caráter vitalícia.
Concurso famoso, de muita repercussão.

Dos três candidatos, Darcy Fontenele de Araújo alcançou o primeiro lugar. A tese que ofereceu à consideração dos examinadores intitulou-se "A Desertização do Nordeste Brasileiro e do Vale do Parnaíba" - discutida valente e brilhantemente pelo autor.

Eis as conclusões a que chegou Darcy, ao escrever o seu magnífico trabalho, no ano de 1951:

"I - O regime fluvial das caatingas e carrascos do Vale do Parnaíba é idêntico ao da zona semi-árida do Nordeste brasileiro, tanto em relação às médias pluviométricas, como no que diz respeito à distribuição das chuvas anuais. Duas são as estações: uma chuvosa e outra seca.

II - Registram-se no Vale do Paraíba os mesmos fatores que concorrem para a agravação da aridez ou desertização do Nordeste: a) verões prolongados; b) devastação do revestimento vegetal do solo, inclusive das margens dos rios, praticado pelo homem; c) as secas periódicas.

III - A desertização do Nordeste e do Vale do Parnaíba não tem impedido o aumento de população nas duas regiões. Do adensamento demográfico tem resultado a intensificação da ação humana sobre o meio físico, como fator de desertização nas duas regiões.

IV - Reflete-se no Parnaíba a desertização do seu vale, através do empobrecimento dos grandes afluentes. Esta e outras causas que atuam negativamente sobre o curso do rio poderão levá-lo sucessivamente à extrema debilidade, ao regime dos rios nordestinos e, finalmente num estágio mais avançado, em fundo impossível de ser determinado, poderão transformá-lo num oeud, do tipo saariano, descendo do planalto para perder-se nos areais do leito, sem atingir o termo da longa caminhada até o oceano e constituindo simples vestígios de uma bacia hidrográfica desaparecida".

O problema do rio Parnaíba, como vê, mostra-se antigo. Difícil a salvação.


A. Tito Filho, 22-23/03/1992, Jornal O Dia

DONDON

No cartório do registro civil de Livramento, hoje José de Freitas, deve constar o nome de Antônio Castelo Branco, que o Piauí todo conhece pela alcunha de Dondon, fundador em Teresina de jornal famoso, a que deu o nome de "O Denunciante" e em cuja edição de número 12, de 18 de maio de 1927, lemos, na última página, os dez mandamentos que o jornalista escreveu para que fosse possível o seu segundo casamento com a mesma mulher. Ei-los, mudando-se a grafia da época para adaptá-la aos dias correntes:

"Assim como tem o velho e o novo é muito natural que tenha o velho e o novo casamento com a mesma mulher... e hoje véspera do meu casamento fazendo 25 anos que sou casado, neste caso venho festejar as bodas... propondo um novo casamento com a mesma mulher, visto como o primeiro não prestou... porém com as seguintes condições: 1) não ter (minha mulher) contato com sua irmã Porcina Dias Ribeiro. 2) não ter contato com qualquer um dos filhos que se achar em desavença comigo. 3) nada fazer sem me ouvir, nem que seja para mudar uma palha de um lugar para outro. 4) eu não estando em casa não deve sair para parte alguma nem que seja na vizinhança... e nem andar na rua depois das seis horas da tarde. 5) se achar em casa sempre na hora do café pela manhã, na hora do almoço, na hora do jantar. 6) todas as vezes que tiver conhecimento de que o Bispo Dom Severino Vieira de Melo tem de pregar, deve largar o que estiver fazendo para ir ouvir o sermão do mesmo. 7) no lugar em que nos encontramos sempre que houver missa aos domingos, temos que irmos juntos. 8) saímos juntos de braços dados sempre que eu entender. 9) fico com os poderes de aumentar ou diminuir todos os mandamentos do novo casamento, sempre que julgar preciso. 10) cumprindo todos estes mandamentos, terá direito a tudo que estiver no meu alcance".

Dondon deu muito trabalho aos políticos piauienses de todas as categorias: governadores, deputados, homens de governo. Contou pelo jornal a luta de governo. Contou pelo jornal a luta desenvolvida para adquirir tipografia. E escreveu que a vitória lhe custou o seguinte: 1) Custou-me no começo de 1919 o major do Exército Antônio da Costa Araújo Filho apoderou-se de três vacas minhas, sem o meu consentimento. 2) Custou-me no dia 13 para amanhecer 14 de maio de 1925 terem querido tirar a minha vida a traição e que ainda recebi três bordoadas, pro este motivo deu em resultado eu passar 21 meses e quatro dias em casa sem sair à rua. 3) Custou-me no dia 19 de setembro de 1924 mandarem-me meter na cadeia, quando foi no dia 8 de outubro do mesmo ano tornaram a me meter na cadeia e esta segunda vez ainda acharam pouco, da cadeia ainda me mandaram para ser internado no asilo dos doidos, onde passei dias contra a minha vontade e dois por minha conta...".

Jornalismo saboroso, com defeitos e qualidades, muito lido pelos teresinenses da década de 1920. As edições esgotavam-se rapidamente. Uma delas, a que tratou dos enterros na cidade, tornou-se antológica, e ainda hoje é citada das mais interessantes reportagens da imprensa da capital piauiense. Mas a história dos enterros será contada noutra oportunidade.

Dizia-se que Dondon tinha alguns parafusos frouxos, mas a verdade está em que raros possuíam tanta inteligência quanto ele.


A. Tito Filho, 18/03/1992, Jornal O Dia 

sexta-feira, 30 de março de 2012

POMBAIS

José Eduardo Pereira, inteligente e culto, jornalista arguto e atualizado, tratou, nesta página, faz dois ou três dias, dos conjuntos habitacionais de Teresina, e trouxe à baila angustiantes problemas relacionados com a cidade. Um sobre quem administra a capital do Piauí, o outro a respeito das casinholas que uma multimilionária companhia de habitação constrói para auferir lucros inacreditáveis à custa da perversidade com os pobres. Parece que se trata de órgão de banqueiros nacionais ou financiadoras internacionais. Não sei.

No começo do século um bom governador fez o abastecimento dágua canalizada de Teresina, e outro, Miguel Rosa, inaugurou a luz elétrica, conquistas que ainda hoje permanecem com o Estado. A raquítica rede de esgotos de algumas ruas centrais foi obra estadual.

No caso da construção de obras, os governadores bem que poderiam efetuar as derribadas dos prédios antigos, mas submeter as novas construções a rigorosa obediência de normas urbanísticas, e assim também relativamente às modificações nas cousas públicas.

Veio abaixo o prédio em que se abrigam várias repartições e no lugar se quis levantar o centro administrativo do Piauí.  O esqueleto monumental, por falta de dinheiro, foi vendido, e no lugar se encontra o espigão do Ministério da Fazenda, quebrando-se o alinhamento da rua Rui Barbosa. Liquidou-se a praça Pedro II, tão bonita, de muitas recordações espirituais, e no lugar se estabeleceu grande concentração de prostitutas, alcoólatras, veados, viciados em droga e pivetes. A quem cabe a nova feição? Ao governo estadual. Outro governador pôs por terra a velha penitenciária e construiu o vaidoso Verdão, depois que se inutilizou o trânsito em ruas da cidade. Antes, houve o governante que mandou construir um prédio no meio da praça Demóstenes Avelino, e o espalhafato horroroso continua lá, agora de propriedade particular, e nele, no prédio, se vendem carnes, bofes, vísceras, cabeças de porco, peixes e outros produtos, espalhando-se fedentina por todos os arredores.

São inúmeros os exemplos nocivos. Ninguém sabe quem administra a cidade. Antigamente essas práticas aberrantes constituíram crime contra o patrimônio popular.

Observe-se o caso desses conjuntos habitacionais em que residem os humildes párias de Teresina e os milhares que, vindos do interior, foge ao tristissimo quadro da zona rural e das comunidadezinhas mortas, cada vez mais pobres e sem condições de vida. Nessas centenas de casinholas, todas do mesmo jeito, se alojam famílias de cinco, seis ou mais pessoas. Com pouco tempo esses POMBAIS passam a favelas e se enriquecem de biroscas, prostibulos, freges, botecos, bocas-de-fumo e crimes. Meninas que ainda não menstruam já constituem raparigagem. Os últimos tipos residenciais receberam o nome de EMBRIÃO, constituídos de saleta, quarto e banheiro. Só. Nessas residências os casais só se relacionam sexualmente depois da última novela, quando a filharada consegue dormir. Se um menino ou menina acorda arregala os olhos na presença do espetáculo dos pais pelados.

Esses conjuntos habitacionais são feios, casas emendadas uma nas outras. Alguns felizardos ganham fortuna na venda de terrenos para que nestes se levantem esses prediozitos que ofendem a dignidade de todos os enteados de Deus, filhos da injustiça dos homens maus, os banqueiros, e dos políticos de boa fé, que apenas agravam problemas comunitários.


A. Tito Filho, 11/02/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de março de 2012

BACANAL

Corria 1964. Era março. Principiozinho do mês, um ou dois no calendário, parti de Teresina, por terra, no rumo do Rio de Janeiro. Viagem de bom recreio. Da viagem participava José Fernandes do Rego, meu primo, brilhante jornalista, e uns três amigos dele. Primeiro Fortaleza, onde se abasteceu o carro do necessário, desde a gasolina a bebedoria e comedoria. A dormida dava-se debaixo das árvores frondosas, com riacho por perto. Redes boas de descanso. Percurso longo, por estradas ainda sem asfalto. Em Campina Grande, café e uns beijuzinhos de côco ralado por cima. Cuzcuz e muita manteiga sertaneja. Depois, João Pessoa e Recife, no primeiro governo Miguel Arrais. Prosseguiu-se até Penedo, nas Alagoas, lugar de muita gente doente, boa feira de artesanatos, restaurantes de panelada e mocotó de vaca. Travessia do São Francisco, em pontão. Aracaju em seguida, bonitinha, dengosa, noitada alegre na praça grandona. Perto o palácio do governador da época, depois deposto, Seixas Dória. Agora Salvador, de ruas velhas, ladeirentas, comida apimentada que dava para soprar os peitos. Daí para frente, pela asfaltada Rio-Bahia, chegou-se à segunda capital brasileira, a cidade dita maravilhosa, que eu já conhecia como a palma da minha mão.

Hospedei-me com o primo José Rego, no seu apartamento da rua das Laranjeiras, visitado por gente famosa do tipo de Oscar Niemeyer, Raul Riff, por alguns comunistas de prestígio e figuras outras do governo comunistas de prestígio e figuras outras do governo João Goulart. Estive no comício do dia 13 de março, misturado com o poviléu entusiasmado e faminto. O presidente, ao lado da esposa, incentivava os aplausos com promessas de melhorar a vida do pobre. Pelas onze da noite, cansado, retornei à minha hospedagem.

Dia seguinte, José Rego me fazia convite para uma festa de aniversário no apartamento de amiguinha sua, no bairro do Flamengo. Cada convidado devia comparecer com o presente de comida ou bebida. A festa teria inicio às 11 da manhã.

De mim, não conhecia praticamente pessoa alguma. Muitos rapazes e moças, sentados, em palestrações alegres e por vezes gargalhantes. Consumia-se boa quantidade de álcool. Pastel em quantidade. Pelas duas da tarde, vi chegar uma garota do Piauí, filha adotiva de falecido magistrado, minha antiga aluna no velho Liceu.

Iniciaram-se as danças pelas 15 horas. Os pares, homens e mulheres, bêbedos, dançavam como se estivessem numa cama de casal. Houve um grito de comando, alto, para que todos tirassem a parte de cima das vestes. Todos nus da cintura para cima. Seios saltavam. Orgia sexual em que garotas e coroas se entregavam despudoradamente. Cenas de invulgar erotismo. Pouco depois, todos pelados machos e fêmeas.

Num canto, em mesa discreta, fiquei ao lado de José Rêgo, dois rapazes e duas moças, conversando e espiando o gratuito espetáculo. Chamei minha ex-aluna, inteligente, baixinha, mas bonita. Veio até mim, puxou cadeira, sentou-se, começou a chorar. Gostava de cocaína. Julgava-se desgraçada, infeliz, prostituta, ordinária. Dei-lhe alguns conselhos que ela recusou, considerando-se perdida.

Era o começo das bacanais de luxúria, bacanais de depravamento, como as de Roma na antiguidade, promovidas pelos Neros e Calígulas, tipos integralmente degenerados.

Quatro anos mais tarde, em 1968, em Paris, a juventude decretava a rebelião total contra os restos de beleza de uma sociedade hipócrita mas que pelo menos viveu inesquecíveis momentos de alegria.


A. Tito Filho, 29-30/03/1992, Jornal O Dia

AINDA O IBIAPINA

Ainda Ibiapina já realizou no difícil trabalho da obra de ficção - embora eu descreia da obra de ficção e acredito em que os escritores, nos contos e nos romances, reproduzam fatos e episódios da vida, inclusive aqueles de que foram intérpretes. E quando o escritor não copia a vida real, produz a obra literária com adaptação de lendas e tradições populares. O "Fausto", de Goethe, promanou de um conto popular. O "Don Juan" tem origem folclórica. Rabelais inspirou-se na tenda de gigantes gauleses para a criação de "Gargantua". Gustavo Barroso observa muito bem que os temas dos povos são, em grande parte, o berço das literaturas.

Produzindo esforçadamente, numa terra em que vale sacrifício o trabalho da inteligência apurada, Fontes Ibiapina enriquece, dia por dia, o patrimônio intelectual do Piauí. Os seus livros de contos, os seus romances fixam tipos, costumes, linguajar deste pedaço regional brasileiro. Vai às fontes das manifestações da lama popular, recolhe a sabedoria das comunidades, a sua expressão espiritual, os seus sofrimentos - e faz o livro de fixação, como se estivesse em pintar quadro dos mais sérios e dos mais graves e vivos. Os homens de letras comunica-se por dois modos fundamentais: ou concebe a mensagem, reformando o pensamento existente, derribando preconceitos, sacudindo estruturas, ou faz da paisagem social e humana sua cópia integral, a própria mensagem artística. Assim Fontes Ibiapina: a sua mensagem se encontra na poderosa inteligência de observação para fixar o meio e o homem que nele habita.

Leio agora mais um livro de Ibiapina - "Congresso de Duendes" - reunião de estórias de gente e principalmente estórias de bichos. De bichos, na composição de fabulário, de que se extrai a indicação moralizadora, ou o substrato do conto, que se cifra, como queira um critico de valor, no vestígio sobre a figura humana do acontecido com a alimária em que ela se metamorfoseou. Há, na concepção de Ibiapina, verdadeiro conjunto de manifestações populares incorporadas, representativo das crendices mais fortes da coletividade piauiense.

Um grande folclorista adotou a tese de que os contos populares têm asas: eles voam através dos continentes, das raças e dos séculos. O folclore é um só. Escreveu Gustavo Barroso: "Poderia nunca, na minha vida infantil, tão descuidadosa e levada da breca, à beira do Pocinho, do Poço da Draga e nas praias do Peixe, do Meireles, do Arpoador - pensar que o brinquedo das pedras para ver quem teria mais filhos, no futuro, era objeto das cogitações folcloristas, e fora descrito por Minutius Félix e denominado pelos gregos de epostracismo?".

O folclore poderia dizer-se a história moral do homem, como insinua Câmara Cascudo. Melhor é identificá-lo como a história natural das coletividades, da sua alimentação, dos seus tabus, das suas orações, dos seus ritos, da sua vida diária, para o reconhecimento da cultura como conjunto de normas sociais de que participamos.

Daí porque o trabalho do escritor, quando procura a fonte folclórica com sustento do livro, há de compreender as manifestações populares no campo em que elas se manifestam, para anotar-lhes as variantes e oferecer a fisionomia da realidade cultural. Não se pode reproduzir o folclore na sua universidade, apenas. É necessário entendê-lo como a ciência do homem-comum. E o homem-comum é a preocupação de Ibiapina, para projetá-lo no quadro da vida urbana e da vida rural, - como, - como contadores de estórias de bichos, reproduzidas de gerações em gerações, como personagem de novelas de amor, de heroísmo, como personagem de facécias, de cenas de bravura para lavação da honra ofendida, sempre respeitoso com a mulher, - objeto das preocupações do macho numa terra de preconceitos, e mais: como personagem da violência de um mundo que o prepara para o ódio e para a vingança - o ódio e a vingança sugeridos e provocados pelo desequilíbrio dos processos da vida social.

Ibiapina utiliza-se dos bichos para ironizar os poderosos de desvirtudes políticas, e serve-se dos homens sem destino para que estes interpretem o drama das suas comunidades, nas quais os instintos não vivem, nem é possível que sobrevivam as outras estruturas da personalidade.

Quadro vivo, na eloqüência de cores e de ritmos - o pungente quadro do drama piauiense. E Ibiapina é o pintor da sociologia da comunidade a que ele próprio pertence, com o dever de fixá-la, como fixou, para que todos possam interpretá-la na nudez das suas grandes misérias.

O livro vale.


A. Tito Filho, 27/05/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 28 de março de 2012

CONTO E CRÔNICAS

O velho e bom dicionarista Morais definia conto como a narração fabulosa, a história imaginária. De crônica dizia que era a história escrita conforme a ordem dos tempos.

Livros didáticos de literatura citam o chamado gênero narrativo, que compreende história, romance, conto, novela. Esses mesmos livros didáticos costumam ensinar que a história abrange as monografias, anais, memórias, biografias, crônicas. O romance - dizem tais autores - é o desenvolvimento, em prosa, de um assunto. Conto é romance curto. Novela, a forma intermediária entre o conto e o romance, distinguindo-se por apresentar diálogos rápidos, narrações ligeiras.

Littré definiu como história, verdadeira ou imaginada, narração falada ou escrita. Para ele, os contos são acontecimentos da vida real ou as próprias tradições populares cheias de aventuras extraordinárias - aquelas aventuras que, em forma de contos, ingressaram na obra de Maupassant e Daudet.

Dicionários moderníssimos registram crônica como narração histórica, segundo a ordem dos tempos, anotações de episódios, relatos de acontecimentos principais de determinada época, e nos primeiros tempos da literatura portuguesa e estudioso encontra os cronicons ou cronicões ou crônicas medievais, simples repertórios de sucessos da época.

Crônica é, ainda, noticiário de jornais, anotação do quotidiano, comentário do que, no dia-a-dia da vida, aflige e alegra, escandaliza, enternece, entusiasma - e daqui, modernamente, decorrem as crônicas do crime, dos episódios mundanos, aos quais se empresta certo sabor de crítica.

A crônica, entretanto, assumiu posição de verdadeiro gênero literário, embora o fato de ser divulgada em jornal não implique em sua desvalia, como mostra Afrânio Coutinho.

Já disse que crônica se relacionava com o relato cronológico dos fatos sucedidos em qualquer lugar. Também revele que a crônica se identifica com o registro jornalístico, mas esses conteúdos, que explicam às vezes o emprego da palavra pelos antigos e pela voz corrente, não é o conteúdo da crônica como gênero literário. "Crônica, literalmente - diz Afrânio Coutinho - corresponde a pequenas produções em prosa, de natureza livre, em estilo coloquial, provocadas pela observação dos sucessos cotidianos ou semanais, refletidos através de um temperamento artístico".

Sendo a crônica, como queria Álvaro Moreyra, "ligada à vida cotidiana, tem que valer-se da língua falada, coloquial (de conversação), adquirindo inclusive certa expressão dramática no contato da realidade da vida diária".

Da crônica disse Eduardo Portela: a) que não a caracteriza a coerência mas ambigüidade; b) vive presa ao dilema do circunstante; e c) devem ser superadas as suas condições jornalísticas e a sua base urbana para que possa ela construir uma vida além da notícia.

O conto é narrativa dentro da ficção. Não se restringe à vida quotidiana, nem ao circunstante, mas desborda da idéia do tempo e do espaço, localizando os seus panoramas no chão desta terra ou no limitado território da pura imaginação - como ensinou Menotti del Picchia.

Escrita em estilo coloquial, provoca-se a crônica com a observação do quotidiano, enquanto a essência da ficção (conto) está na fuga do espírito às convenções do nosso universo pela descoberta de mundos novos (Menotti). No conto, há transporte para qualquer área da vida (passado ou futuro) e nele existem elementos básicos, da forma lecionada por Álvaro Lins: personagem, ambiência, ação.

Não é o caso de lembrar o aspecto técnico do conto, preso a regras tradicionais de começo, meio e fim, ao suspense, e à intriga. Modernamente, o conto sintetiza elementos fornecidos pelo ambiente e pela pesquisa psicológica - imagem do homem e da realidade, de significado e alcance universais.

Certo é que algumas vezes a lição tem a objetividade do quotidiano e realiza, assim, a crônica - mas também se verifica que a ambigüidade da crônica não raro a conduz ao conto.


A. Tito Filho, 21/02/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de março de 2012

O VAPOR

Naquele tempo, depois dos folguedos de primeiro de janeiro, o pessoal que vinha a Teresina costumava recitar nos momentos de despedida:

Eu vô me embarcá
Qui o vapô já apitô
Inté para o ano
Se nós vivo fô.

Era a saudade no coração dos visitantes, que retornavam pelo rio aos seus pagos queridos.

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No governo do presidente Oliveira Junqueira constitui-se a Companhia de Navegação do rio Parnaíba, em 1858. Antes da promissora circunstância, já os poderes públicos haviam encomendado, no Rio de Janeiro, aos estaleiros navais de Ponta d'areia, o primeiro vapor para o rio Parnaíba, lançado ao mar a 12 de agosto daquele ano. Sofreu reparos no percurso. Em abril de 1859 chegou ao Recife.

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O bom do padre Joaquim Chaves conta a história: "Foi assim que no dia 19 de abril, às três horas da tarde, soltando silvos profundos e prolongados, contando vagarosamente as águas do rio e deixando para trás uma esteira branca de espumas, o Uruçuí aproximou-se de Teresina e, majestoso, ancorou em frente à praça da Constituição" - que, esclarecemos, hoje tem o nome de Marechal Deodoro.

Padre Chaves passa a narrar o entusiasmo da cidade: "Os sinos do Amparo batiam a rebate, foguetes estouravam por todos os lados e uma imensa mole humana corria pressurosa para o rio, descendo por todas as ruas. Até os aleijados e doentes, carregados em redes por negros escravos, demandavam o rio, apressados, para verem de perto aquilo que mais lhes parecia um sonho. De fato, para muitos dos espectadores aquele gigante de ferro, daquele tamanho, boiando n'água, constituía um enigma insolúvel. Era preciso ver para crer".

Imensa a alegria generalizada. O vapor mudaria muita cousa nos costumes do Piauí e de Teresina.

Comandou o Uruçuí o 1º tenente da Marinha - Álvaro de Carvalho, que teve homenagem de jantar oferecido pelo presidente do Piauí, Antônio Correia do Couto. Houve ainda festa dançante.

As autoridades e convidados realizaram passeio em frente de Teresina, subindo e descendo o rio.

A 24 de janeiro iniciou a primeira viagem no rumo de Parnaíba. Fez viagens freqüentes durante nove anos. Naufragou em 1867, no lugar Coroa da Aurora, abaixo da povoação de Nazaré. Partiu-se em três pedaços.

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Viajei nesses navios de vapor, tão agradáveis, duas vezes, pelo rio São Francisco. E a 18 de janeiro de 1947, comprei passagem num gaiola, em Floriano, chegando a Teresina no dia seguinte, manhãzinha, no momento em que o povo começava a votar para a escolha do governador do Piauí. Beleza de viagem.

Os tempos passavam e os gaiolas foram desaparecendo do riozão famoso e da paisagem de Teresina - até que se sumiram, deixando um rol de saudades.


A. Tito Filho, 15/03/1992, Jornal O Dia


sábado, 17 de março de 2012

IMPRESSÃO

Em 1959, busquei recursos médicos no Rio de Janeiro. Sai de Teresina cedinho, nos aviões DC-3, que realizavam um chatíssimo pinga-pinga: Bom Jesus da Lapa, Salvador, Ilhéus, Montes Claros, Belo Horizonte, Vitória, finalmente a velha capital brasileira, aonde se chegava pelas oito horas da noite. Gerardo Vasconcelos, bondoso dia por dia, me deu carta de recomendação a um doutor dirigente de casa de saúde e às portas destas bati e tive recado de falta de vaga. Mandaram-me para outro hospital, até que alguém, morto ou restabelecido, desocupasse quarto.

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Estabeleci-me, de modo provisório, noutra casa de saúde, e nela recebi assistência de um doutor magro, fino, mas sabido como diabo. Depois que me auscultou, e de natural e até demorado interrogatório, consentiu em que eu tinha muita fome. E já noite puxada me conseguiu ovos, presunto e pão.

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De manhã, solzão, aberto, recebi a visita do diretor do hospital, de faces e queixo barbudos, bem cheios de barba - uma barba negra, muito negra e bem cuidada. Era o piauiense de nomeada, de fama justa, Correntino Nogueira Paranaguá. Conversou comigo um bom pedaço de tempo, lhano, afável, deixando-me forte impressão de homem honesto, simples e correto.

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Durante anos não tive oportunidade de rever Correntino. Mas não saiu da memória o seu gesto bondoso da visita, e de encorajar-me com a esperança de breve reencontro com a saúde.

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Em 1976, publiquei livro a respeito das ruas, avenidas e praças de Teresina, biografando vultos ilustres homenageados, ou oferecendo a significação dos nomes de outras vias públicas. Ano seguinte, Correntino mandava-me carta, em que salientava natural decepção ao sentir que a capital piauiense não possuía um beco sequer chamado Joaquim Nogueira Paranaguá, pai do missivista, que reais e relevantes serviços concedeu à coletividade nacional. A voz do filho reclamava a honraria, que os poderes competentes haviam esquecido. Levei o caso ao Prefeito Wall Ferraz, e a justiça foi feita.

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1978. A Academia Piauiense de Letras, em janeiro, promoveu festas comemorativas dos seus sessenta anos de existência laboriosa e útil e convidou piauienses radicados noutras terras para a comunhão das alegrias acadêmicas. Um deles: Correntino Paranaguá - prestimoso, atento aos deveres do coleguismo, educado, culto, presente em todas as solenidades acadêmicas.

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Tive a boa sorte, a sorte de habitar a sua amizade sincera e leal. Mantivemos correspondência. E dele merecia atitude que muito me confortou o espírito: a leitura destas páginas, escritas com o sentimento da verdade histórica e social, e sobremodo com o objetivo de rememorar a figura paterna, íntegra, humana, sensível ao sofrimento alheio, devotada ao bem público, temente a Deus, estudioso, capaz de sacrifícios, incansável trabalhador pela sua terra e pela sua gente.

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Joaquim Nogueira Paranaguá diplomou-se médico, fidelíssimo ao juramento da formatura. Utilizou-se da política partidária para a prática do civismo. Como administrador, de pequenos recursos materiais e tempo escasso, soube cumprir o dever. Teve luta admirável em favor da educação do homem - do homem que ele pretendia consciente e integral de virtudes. Escritor e cientista, pôs a serviço do povo os dons de privilegiada inteligência. Nunca esmoreceu para não desmerecer, como queria e ensinava Oswaldo Cruz. Nele se harmonizavam a força de vontade no espírito, o bom senso nas determinações, a honestidade nos princípios, a energia nos atos, a confiança em si mesmo, a fé em Deus. Filho, esposo e pai amantíssimo.

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Este trabalho de Correntino Paranaguá vale lições de história do sul do Piauí e das lutas da sua gente heróica. A narrativa acolhe desavenças partidárias, cangaço, cheiro de pólvora, também trabalho de liderança, esforço educacional, esperanças de novos tempos - e tudo aqui está fiel: a paisagem, os quadros da adolescência, a cidade pequena, os rios, os tipos humanos e seus caracteres, os episódios políticos, a face negativa de certos homens, os dramas da vida, a dor e a alegria, a coragem de ser forte, as árvores, os bichos, as lendas, o sol e a chuva, a doença, a crendice, a superstição - como se tudo fosse fotografado por um observador perspicaz, bem servido de vastos conhecimentos, dos estudos sociais e psicológicos, do modo sério de narrar a história e nela situar personagens e fatos memoráveis que a explicam e justificam.

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No autor, antes de mais nada o intérprete do passado remoto e do passado recente do Piauí. As figuras parecem vivas, tal o engenho com que são projetadas. E ressalte-se, como virtude de poucos, de raros até, a linguagem singela, bem conduzida, conveniente ao estilo do narrador de boa cepa.

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Em todo cenário do livro, no Piauí e noutras paisagens brasileiras, a gente sente a presença de Joaquim Nogueira Paranaguá, a beleza de suas lutas, os processo educacionais que o sensibilizaram, o seu feitio de querer bem ao semelhante, o seu apostolado - afinal o Homem, que soube servir, com amor verdadeiro, a família e a coletividade, obediente aos ditames de Deus.


A. Tito Filho, 25/05/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 16 de março de 2012

CARNAVAL E ENTRUDO

A esta palavra têm sido atribuídos muitos étimos diferentes.

O velho Morais dá-lhe origem italiana carnavale ou canevale, também carrus e navalis, que dariam os elementos car e naval para a formação da palavra. O autor pretendeu referir-se talvez aos carros alegóricos característicos de festejos carnavalescos. Para Xavier Fernandes o étimo referido não tem fundamento histórico.

Diez sugeriu que carnaval derivou de duas palavras latinas: caro, carnis (carne) e vale (adeus), significando adeus, ó carne.

Deve observar-se que a raiz do primeiro elemento carn não pode ser um vocativo. Esta a razão pela qual os estudiosos levam à conta de fantasia a sugestão do ilustrado filólogo.

Xavier Fernandes anota o estudo de Bouillet: "Carnaval formou-se do latim caro e do francês avale, de avaler, engolir, comer. Bouilet não se importou com a  formação híbrida, que sugeriu, e - pior do que isto - esqueceu-se de que o vocábulo já existia no italiano antes de existir no francês".

Nascentes (Dicionário Etimológico) oferece o étimo italiano carnevale, mas observa: "É duvidosa a origem deste vocábulo, primitivamente designativo da terça-feira gorda, tempo a partir do qual a Igreja suprime (latim levare) o uso da carne".

Petrochi apontou como étimo o baixo-latim, interpretado por Stappers como carnis levamen, prazer da carne, antes da tristeza e continência da quaresma.

Em espanhol e catalão recebe o carnaval os nomes de carnetolendas e carnistoltes, em que o segundo elemento é o verbo tollere, tirar.

Magne depõe que no antigo francês houve a forma quarnivalle. No século 17, do francês o vocábulo passou ao alemão karnaval e ao inglês carneval.

Carnaval já expressou o tempo em que se comiam viandas e guisados de carne. Vieira escreveu: "Tumultuou o povo no deserto contra Moisés, e foi o tumulto de carnaval" - isto é, causou o tumulto as recordações do tempo em que comiam carne no Egito.

Delicioso livro de Mário Sette (Maxambombas e Maracatus) recolho a informação de que no velho Recife se brincou muito o Entrudo, um tipo de carnaval sem máscaras mas com banho dos foliões dentro de gamelas, tinas e barris.

Transcrevo as definições:

- Entrudo. São os três dias imediatamente precedentes à quaresma, nos quais é uso entre nós divertir-se o povo com que se molhar, empoar, fazer peças e outras brincadeiras, e banquetear-se (Morais).

- Entrudo. Carnaval. O divertimento dos três dias que precedem a quaresma. Antigo brinquedo carnavalesco, que consistia em lançar água uns nos outros, valendo-se de diversos meios (Fernandes).

Entrudo vem do latim introitu, entrada, naturalmente da quaresma. O ditongo latino oi deu ui por metafonia e ui reduziu-se a u, fatos que se comprovam em dezenas de palavras da língua. Morais registra a forma entroido como antiquada. Na região da Beira Alta, em Portugal, ainda vigora entruido e no velho espanhol existiu antruido, modernamente antrudo. Do galego copio antroido.


A. Tito Filho, 15/02/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de março de 2012

GAÚCHO

Cândido de Figueiredo, no "Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa", registra gaúcho como termo brasileiro do sul. Com respeito à sua significação, faz o seguinte apontamento: "Habitante dos campos, em geral procedente de portugueses e espanhóis, dedicado à criação de gado vacum e cavalar, e notável pelo seu valor e agilidade".

Gaúcho não é brasileirismo.

O "Dicionário Etimológico", do eminente professor Antenor Nascentes, não deu atenção a gaúcho. Lemos o de Laudelino Freire. Nele se consigna o termo, mas o ilustrado pesquisador não nos ofereceu a sua origem. Mesquita de Carvalho filia-o no castelhano gaucho (pronuncia-se gau-cho).

Hábeis investigadores têm procurado a verdadeira origem de gaúcho.

João ribeiro, nas "Curiosidades Verbais", escreveu: "Desde logo, ninguém sabe ao certo se é vocábulo indígena ou se é transporte europeu adaptado a um fato americano. E nessa vacilação fundam-se as mais estranhas hipóteses. O gaúcho é o habitante quase nômade da vasta planície platina de um lado e de outro do grande rio. É argentino, é uruguaio e é brasileiro". Um pouco adiante, João Ribeiro cita duas opiniões - as de Lenz e Groussac. Do primeiro é a sugestão de que a palavra provenha do araucano cauchu, sinônimo de "esperto, fino, arteiro e austucioso". O segundo sugeriu o étimo gaucho, do quichua, língua ainda hoje falada no Peru. Gaucho passaria a gaúcho por metátese. No quichua, entretanto, segundo Figueiredo, existe huaccha, de que os brasileiros do sul tiraram gaucho - "cavalinho ou bezerro, criado em casa, ou que é criado pela própria mãe".

Ou "animais desamparados que são criados longe das mães, pelo cuidado de outras que não a sua".

Sarmiento, no "Facundo", pág. 38, escreveu: "As vastas planícies de Buenos Aires, diz Walter Scott, não estão povoadas senão por cristãos selvagens, conhecidos sob o nome de huachos (gauchos), cujo principal mobilário consiste em crânios de cavalos, cujo alimento é carne crua e água e cujo passatempo favorito é arrebatar cavalos em carreiras forçadas".

O dr. José de Saldanha, que, com elevado critério, procurou interpretar considerável número de topônimos rio-grandenses, sempre grafou gaúche ou vagabundo do campo.

Parece-nos que a melhor opinião está com Aurélio Porto: "Contam os cronistas que os gaúchos primitivos eram grandemente afeiçoados à música. Raros aqueles que não tinham as suas violas, que tangiam nos lazeres das fainas. E o canto era naturalmente triste. O canto é a válvula da tristeza. E como cantavam triste, dominando com sua dolência o próprio coração do selvícola, já naturalmente triste, este os designava por gente que canta triste: gahu-che".

Guahu significa canto dos índios (Padre Montoya - "Vocabulário da Língua Guarani"). Che significa gente na língua quichua. Gahuche (gaúcho): gente que canta triste.


A. Tito Filho, 18/02/1992, Jornal O Dia