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sexta-feira, 16 de março de 2012

CARNAVAL E ENTRUDO

A esta palavra têm sido atribuídos muitos étimos diferentes.

O velho Morais dá-lhe origem italiana carnavale ou canevale, também carrus e navalis, que dariam os elementos car e naval para a formação da palavra. O autor pretendeu referir-se talvez aos carros alegóricos característicos de festejos carnavalescos. Para Xavier Fernandes o étimo referido não tem fundamento histórico.

Diez sugeriu que carnaval derivou de duas palavras latinas: caro, carnis (carne) e vale (adeus), significando adeus, ó carne.

Deve observar-se que a raiz do primeiro elemento carn não pode ser um vocativo. Esta a razão pela qual os estudiosos levam à conta de fantasia a sugestão do ilustrado filólogo.

Xavier Fernandes anota o estudo de Bouillet: "Carnaval formou-se do latim caro e do francês avale, de avaler, engolir, comer. Bouilet não se importou com a  formação híbrida, que sugeriu, e - pior do que isto - esqueceu-se de que o vocábulo já existia no italiano antes de existir no francês".

Nascentes (Dicionário Etimológico) oferece o étimo italiano carnevale, mas observa: "É duvidosa a origem deste vocábulo, primitivamente designativo da terça-feira gorda, tempo a partir do qual a Igreja suprime (latim levare) o uso da carne".

Petrochi apontou como étimo o baixo-latim, interpretado por Stappers como carnis levamen, prazer da carne, antes da tristeza e continência da quaresma.

Em espanhol e catalão recebe o carnaval os nomes de carnetolendas e carnistoltes, em que o segundo elemento é o verbo tollere, tirar.

Magne depõe que no antigo francês houve a forma quarnivalle. No século 17, do francês o vocábulo passou ao alemão karnaval e ao inglês carneval.

Carnaval já expressou o tempo em que se comiam viandas e guisados de carne. Vieira escreveu: "Tumultuou o povo no deserto contra Moisés, e foi o tumulto de carnaval" - isto é, causou o tumulto as recordações do tempo em que comiam carne no Egito.

Delicioso livro de Mário Sette (Maxambombas e Maracatus) recolho a informação de que no velho Recife se brincou muito o Entrudo, um tipo de carnaval sem máscaras mas com banho dos foliões dentro de gamelas, tinas e barris.

Transcrevo as definições:

- Entrudo. São os três dias imediatamente precedentes à quaresma, nos quais é uso entre nós divertir-se o povo com que se molhar, empoar, fazer peças e outras brincadeiras, e banquetear-se (Morais).

- Entrudo. Carnaval. O divertimento dos três dias que precedem a quaresma. Antigo brinquedo carnavalesco, que consistia em lançar água uns nos outros, valendo-se de diversos meios (Fernandes).

Entrudo vem do latim introitu, entrada, naturalmente da quaresma. O ditongo latino oi deu ui por metafonia e ui reduziu-se a u, fatos que se comprovam em dezenas de palavras da língua. Morais registra a forma entroido como antiquada. Na região da Beira Alta, em Portugal, ainda vigora entruido e no velho espanhol existiu antruido, modernamente antrudo. Do galego copio antroido.


A. Tito Filho, 15/02/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de março de 2012

GAÚCHO

Cândido de Figueiredo, no "Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa", registra gaúcho como termo brasileiro do sul. Com respeito à sua significação, faz o seguinte apontamento: "Habitante dos campos, em geral procedente de portugueses e espanhóis, dedicado à criação de gado vacum e cavalar, e notável pelo seu valor e agilidade".

Gaúcho não é brasileirismo.

O "Dicionário Etimológico", do eminente professor Antenor Nascentes, não deu atenção a gaúcho. Lemos o de Laudelino Freire. Nele se consigna o termo, mas o ilustrado pesquisador não nos ofereceu a sua origem. Mesquita de Carvalho filia-o no castelhano gaucho (pronuncia-se gau-cho).

Hábeis investigadores têm procurado a verdadeira origem de gaúcho.

João ribeiro, nas "Curiosidades Verbais", escreveu: "Desde logo, ninguém sabe ao certo se é vocábulo indígena ou se é transporte europeu adaptado a um fato americano. E nessa vacilação fundam-se as mais estranhas hipóteses. O gaúcho é o habitante quase nômade da vasta planície platina de um lado e de outro do grande rio. É argentino, é uruguaio e é brasileiro". Um pouco adiante, João Ribeiro cita duas opiniões - as de Lenz e Groussac. Do primeiro é a sugestão de que a palavra provenha do araucano cauchu, sinônimo de "esperto, fino, arteiro e austucioso". O segundo sugeriu o étimo gaucho, do quichua, língua ainda hoje falada no Peru. Gaucho passaria a gaúcho por metátese. No quichua, entretanto, segundo Figueiredo, existe huaccha, de que os brasileiros do sul tiraram gaucho - "cavalinho ou bezerro, criado em casa, ou que é criado pela própria mãe".

Ou "animais desamparados que são criados longe das mães, pelo cuidado de outras que não a sua".

Sarmiento, no "Facundo", pág. 38, escreveu: "As vastas planícies de Buenos Aires, diz Walter Scott, não estão povoadas senão por cristãos selvagens, conhecidos sob o nome de huachos (gauchos), cujo principal mobilário consiste em crânios de cavalos, cujo alimento é carne crua e água e cujo passatempo favorito é arrebatar cavalos em carreiras forçadas".

O dr. José de Saldanha, que, com elevado critério, procurou interpretar considerável número de topônimos rio-grandenses, sempre grafou gaúche ou vagabundo do campo.

Parece-nos que a melhor opinião está com Aurélio Porto: "Contam os cronistas que os gaúchos primitivos eram grandemente afeiçoados à música. Raros aqueles que não tinham as suas violas, que tangiam nos lazeres das fainas. E o canto era naturalmente triste. O canto é a válvula da tristeza. E como cantavam triste, dominando com sua dolência o próprio coração do selvícola, já naturalmente triste, este os designava por gente que canta triste: gahu-che".

Guahu significa canto dos índios (Padre Montoya - "Vocabulário da Língua Guarani"). Che significa gente na língua quichua. Gahuche (gaúcho): gente que canta triste.


A. Tito Filho, 18/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 14 de março de 2012

MÉRITO

Seria exaustivo relacionar todos os episódios de lutas que se têm verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuram revelar e interpretar - e muitos desses episódios ainda se encontram em processo polêmico. A grande Revolução industrial do princípio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. De feito, a máquina tornou-se responsável pelo poder industrial, que desorganizou a família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto - base da educação - e derribou estruturas seculares.

O Brasil não poderia fugira da sua influência. a abolição da escravatura, e conseqüente adoção do regime republicano, promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, se se analisam superficialmente as causas. O período republicano bem atesta a afirmativa. É que o ciclo revolucionário brasileiro ainda não se completou, e só se completará quando os desequilíbrios sociais, a injustiça social, a fome sejam vencidos, com o estabelecimento de processos humanos de vida - a abdicação do inumano pela valorização do homem.

Quantas revoluções brasileiras de 1922 a esta parte? Talvez elas tenham origem próxima na pregação civilista de Rui, com que contagiou os moços, civis e fardados. Do Rui-profeta, que se antecipou a Getúlio Vargas na luta contra a exploração do homem pelo homem.

Ainda se registrarão as causas profundas dos movimentos de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945 e 1964. Não foram movimentos de homens em armas, mas movimentos de inspirados por cérebros interpretadores da inquietação e da angústia do brasileiro, inconsciente ainda dos direitos e deveres que lhe outorgaram constituições políticas feitas em gabinetes, bem distantes da realidade nacional.

Nesta apreciação não sou pela idéia do analisar tais movimentos, nas suas causas remotas e próximas. Cabe-me ressaltar o registro da testemunha e do pesquisador dos fatos que integram as manifestações revolucionárias de 1922 a 1931 no Piauí feito pelo General Moysés Castelo Branco Filho, uma das figuras ilustres da terra piauiense, pela dignidade moral, pelo civismo, pela inteligência cultivada, pelo amor ao estudo - professor como raros, matemático acatado, apaixonado da história e dos seus processos de investigação e análise - esta obra bem comprova a operosidade intelectual e os conhecimentos seguros e sérios de que se compõe a personalidade do autor - para lição de história com a verdade que soube testemunhar e documentar e a pesquisa que a busca da verdade lhe atribuiu para comprová-la, em toda a plenitude.


A. Tito Filho, 29/05/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 13 de março de 2012

ESTÁDIOS

Faz mais de vinte anos escrevi umas palavrinhas introdutórias ao livro "O Piauí no futebol", desse querido Carlos Said, papa da crônica futebolística nesta terra por onde talvez tenha andado o paulista Domingos Jorge Velho. Naquele escrito eu disse que do jogo conhecia o nome inglês e os embates no pequeno campo chamado "Lindolfo Monteiro". Ignorava normas e métodos orientadores de posições e jogadas desse esporte das multidões apaixonadas. Mas nunca o desamei, nem alheava às emoções dos campeonatos mundiais, como aquele de 1938, transmitido pelas amplificadoras comerciais de nossa praça Rio Branco.

Sempre percebi o entusiasmo do futebol na alma popular, o delírio coletivo nos embates vibrantes, contagiando torcidas enlouquecidas e urradoras. Nada havia mais ruidoso e trepidante do que um futebol brasileiro, jogado no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Teresina, nas cidadezinhas mortas do interior ou nas ruas de propriedade da meninada travessa.

Futebol supunha foguetório, briga, murros, pauladas, tiros e morte. Érico Veríssimo chegou a escrever que o nosso futebol valia fúria, uma revolução, uma explosão, uma válvula de escape para a violência reprimida, assim como uma atitude bovárica irreversível, um protesto de angústia, uma fuga da realidade, uma forma de evasão: "Quem observa de longe... a multidão a gritar, a dançar, no meio da explosão dos foguetes, tem uma impressão de alegria. Mas não nos devemos iludir. Se a floresta é alegre as árvores são tristes".

Ora se me lembro e quanto. Ditadura no auge das benemerências e dos triunfos bestas. Construíra-se a ponte Rio-Niterói, um dos assombros universais, unindo duas cidades terríveis de problemas populares. Médici, ditador-mor, criou o milagre: tricampeões do mundo os tupiniquins. Arrotava-se orgulho. Por toda parte, o slogan cretino: "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Houve a febre dos estádios. Estádios em toda e qualquer biboca chamada Pau Fincado ou Pindura Saia. Até em Demerval Lobão, suburbiozinho de Teresina, edificaram um campo gramado para os futuros craques internacionais.

Pelo começo da década de 1970 a doença nacional era o estádio, os gigantes maravilhosos. Andei de passo errado, pregando no deserto. Teresina não podia dar-se o luxo de rapariga bonitona em farra com português cheio de ervas. Mas fez-se o estádio. Sessenta mil pessoas. E aí está, ainda hoje, 1988, sem platéias ululantes ou mudas, o famoso elefante-branco, às moscas, vazio, substituído quase toda semana pelo inesquecível campozinho do Lindolfo Monteiro.

Eu tinha razão.


A. Tito Filho, 12/02/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de março de 2012

CAPITÃES DE AREIA

"Capitães da Areia", de Jorge Amado, inteirou cinqüenta anos, publicado que foi em 1937. Livro que pouca gente leu, pois neste país número reduzidíssimo lê cousas sérias, úteis, decentes. Machado de Assis vale como ilustre desconhecido. Muito citado, e citado mal, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras vive nas bibliotecas públicas e raras particulares sem leitores e consultores.

A Bahia passou uma semana revivendo as páginas candentes de "Capitães da Areia", analisando problemas e sensibilizando a sociedade para o drama dos menores abandonados - personagens de Jorge Amado nessa obra-lição. Estudaram-se temas que o escritor insinua como o direito da criança ao respeito, a criança e o direito da pessoa humana, a visão cristã do menor, a questão social do menor - e outros, em conferências pronunciadas por gente de sopapo, da espécie de Dalmo Dallari e Marcos Villaça.

Convém transcrever a mensagem de Jorge Amado sobre "Capitães da Areia", a criatura na expressão clara do criador e que faz corar os que têm vergonha na cara. Leiamos, mão na consciência, a ver a quem pertence a culpa neganda: "Os molecotes atrevidos, o olhar vivo, o gesto rápido, a gíria de malandro, os rostos chupados de fome, vos pedirão esmola. Praticam também pequenos furtos. Há 50 anos escrevi um romance sobre eles. Os conheci naquela época, são hoje homens, malandros do cais, com cachaça e violão, operários de fábrica, ladrões fichados na Polícia, mas os Capitães da Areia continuam a existir, enchendo as ruas, dormindo ao léu. Não são um bando surgindo ao acaso, coisa passageira na vida da cidade. É um fenômeno permanente, nascido da fome que se abate sobre as classes pobres. Aumenta diariamente o número de crianças abandonadas. Os jornais noticiam constantes malfeitos desses que têm como único corretivo as surras na Polícia, os maus tratos sucessivos. Parecem pequenos ratos agressivos, sem medo de coisa alguma, de choro fácil e falso, de inteligência ativíssima, soltos de língua, conhecendo todas as misérias do mundo numa época em que as crianças ricas ainda criam cachos e pensam que os filhos vêm de Paris no bico de uma cegonha.

Triste espetáculo das ruas da Bahia, os Capitães da Areia. Nada existe que eu ame com tão profundo amor quanto estes pequenos vagabundos, ladrões de onze anos, assaltantes infantis, que os pais tiveram de abandonar por não ter como alimentá-lo. Vivem pelo areal do cais, por sob as pontes, nas portas dos casarões, pedem esmola, fazem recados, agora conduzem turistas ao mangue. São vítimas, um problema que a caridade dos bons de coração não resolve. Que adiantam os orfanatos para quinze ou vinte? Que adiantam as colônias agrícolas para meia dúzia? Os Capitães da Areia continuam a existir. Crescem e vão embora mas já muitos outros tomaram os lugares vagos. Só matando a fome dos pais pode-se arrancar à sua desgraçada vida essas crianças sem infância, sem brinquedos, sem carinhos maternais, sem escola, sem lar e sem comida. Os Capitães da Areia esfomeados e intrépidos!".    


A. Tito Filho, 25/04/1992, Jornal O Dia

OESTE

Andei lendo recentemente que morreu Louis L'Amour, um dos mais férteis escritores sobre o oeste norte-americano. Um dos seus livros foi publicado faz pouco tempo em português, com o título A TRILHA DOS FORA-DA-LEI, que no original inglês se chama RIDE THE DARK TRAIL. Gostei de mais um livro de aventuras de caubóis da época dos conquistadores e dos choques com os índios, cruéis e hostis na defesa do seu patrimônio. Era o reino do gado e do ouro da Califórnia, um mundo novo, selvagem com os fracos, dos homens de ferro, cuja vida dependia da faca e do revólver. Violência é a história da estrada de ferro e a do telégrafo. Um mundo de liberdade para libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substitutos da mulher.

Quem não se recorda do SALOON? Lei da pistola sobre o balcão de bebida e sobre a mesa das cartas de baralho, do xerife selvagem e do pistoleiro heróico. Quanta recordação tenho de Búfalo Bill, Calamity Jane, Bill Doolin, Wyatt Earp, Pat Garret, Jesse James, Doc Holiday, Bat Masterson, nomes que o livro, o cinema e os quadrinhos se encarregam de universalizar e que ganharam popularidade.

Nunca esqueci os nomes célebres dos atores cinematográficos que participaram de filmes inesquecíveis a respeito do oeste. A história dos rios de gado, do ladrão de reses, do perigo, a história de um excesso de vitalidade. Álcool e pistola, pôquer e roleta, matanças, a lei do COLT, num ambiente de apetites sexuais de seres viris sem que houvesse mulheres. Daí o mito da mulher como demonstrou André Bazin. Ainda a meretriz desses tempos era redimida, como a gente vê nos filmes, pelo amor ou pela morte.

Sempre me atraiu a literatura do oeste dos Estados Unidos. Fenimore Cooper, Zane Grey e outros povoaram a minha imaginação de aventuras, de desafios, de heróis e heroínas contraditórios. Dos atuais autores Dee Brown está na minha admiração, com obra segura, iniciada com um romance baseado na vida do desbravador David Crockett. Esse escritor fez relatos históricos que deram nova feição aos estudos sobre a conquista do oeste, como ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO.

Nunca pude esquecer Gary Cooper, Buck Jones, Tim McCoy, John Wayne, que interpretaram os melhores filmes de faroeste, e ainda hoje eles me reaparecem na televisão, em histórias saudosas, como NO TEMPO DAS DILIGENCIAS e do maravilhoso JORNADAS HERÓICAS. Que dizer dos seriados da adolescência dourada, quando a gente via semanalmente um pedaço do filme, aguardando-se de modo ansioso o domingo seguinte?

Não durmo, nas minhas noites teresinenses, sem a leitura de um bom livrinho de caubói. O saloon, o forasteiro, o uísque ordinário, os revólveres de cada lado do tipo, o pôquer, a corista, o sujeito do piano desafinado, os bandidões barbudos, cuspindo o pretume do tabaco, a mocinha da cidade, toda pureza, a pradaria, o deserto e as serpentes, o lacrau, a forca. De tudo resta o assalto a banco, um assalto mais civilizado.

Não sei se morreu mesmo Louis L'Amour, que de vez em quando me concedeu bonitas páginas de aventuras do velho oeste para que eu matasse as saudades de filmes da meninice risonha.


A. Tito Filho, 10/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

CRIMINOLOGIA DAS MULTIDÕES

Elias de Oliveira e Silva nasceu na terra piauiense de Piripiri. Cultivou o soneto, quando moço - o soneto terno, voltado para a mulher nos seus atrativos físicos. Conheci-o em Fortaleza - elegante, cabeleira basta, olhos amortecidos de carcamano, inteligência ágil. Vi-o mais de uma vez na tribuna do júri. Argumentador seguro e culto. Palavra fácil, por vezes irônica. Grande estudioso de ciência penal. Escreveu valiosas obras jurídicas, discutindo impostos, intervenção federal nos Estados, crimes de incêndio e outras matérias. O livro que o colocou entre os mais conceituados no assunto chamou-se "Criminologia das Multidões", estudo de psicologia coletiva aplicada ao direito criminal. Problema curioso e complexo o da multidão criminosa. Franceses e italianos lançaram os fundamentos de um estudo longo e difícil, mas lacunoso. O mais integro que conheço é o de Scipio Sighele, nomeado "A Multidão Criminosa".

No campo da arte, ninguém ofereceu pintura magnífica do crime coletivo como Zola, em "Germinal". É verdade que outros escritores célebres procuraram revelar a psicologia das multidões, como d'Annunzio, Sienkiewicz, Hugo, Manzoni - mas Zola mostrou-se real com os seus neuróticos, os seus anormais, os inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo.

No meu entendimento, Sighele tem falhas que foram supridas por Elias. Certíssimo o conceito de multidão no jurista piauiense: multidão não é o povo que circula, as massas que compõem a Nação, o público que enche as artérias de uma cidade. Há de compreender-se a multidão, inicialmente, no seu sentido psicológico. Não há multidão sem organização, embora provisoriamente, casual, provisória. Sustenta Elias que a multidão é o agrupamento provisório e heterogêneo de pessoas, instantaneamente organizado, com um objetivo qualquer e cujos caracteres reproduzem, exagerados pela sugestão, finalidades comuns inferiores da maioria dos componentes, preponderando especialmente as tendências instintivas e bestiais reclamadas ao inconsciente.

Esse recalque constitui o grande responsável pelo crime da multidão. Elias fez o que raros fizeram: buscou um gênio para a explicação da violência das multidões - Freud. Ainda não houve quem derrotasse Freud. Certa vez observei que os recalques freudianos estão até nas manifestações dos campos de futebol, como nas arenas das touradas espanholas.

Grande jurista esse hoje esquecido Elias Oliveira e Silva. Talvez não o conheçam os universitários piauienses dos cursos jurídicos ministrados piauienses dos cursos jurídicos ministrados pela Universidade Federal do Piauí. O Piauí será sempre assim: despreza os talentosos homens de inteligência que aqui nasceram. Só os de fora prestam. Santo de casa não faz milagre.


A. Tito Filho, 14/01/1992, Jornal O Dia

DEUS E O PETRÓLEO

Vulgarizam-se no Brasil duas falsas afirmações, a da que Deus é brasileiro e a de que o petróleo é nosso. A NÓRDICA, conceituada editora nacional, publicou o excelente livro DEUS NÃO É BRASILEIRO NEM O PETRÓLEO É NOSSO, em que o autor, numa linguagem ao alcance de leigos e doutores, demonstra a verdade das cousas e dos fatos.

Já diz o velho ditado que "Deus ajuda a quem cedo madruga". E os brasileiros precisam dar-se conta disso. Só com esforço, dedicação, sacrifício e muita coragem, podemos fazer do Brasil um país digno de Deus, que - ao contrário do que se propaga - não é brasileiro, mas já nos ajudou muito.

Esta é a intenção deste livro onde o autor, Murilo Sampaio, expõe, com grande lucidez e nos mínimos detalhes, a situação do petróleo no Brasil, Petróleo que - também, ao contrário do que se propaga - não é nosso. Pelos menos, não é de todos os brasileiros, nem como acionistas, nem como consumidores.

Então, de quem é a Petrobrás?

A análise da Petrobrás, neste livro é abrangente. Vai desde a sua história até as possibilidades de reconfiguração empresarial e gerencial. E inclui, ainda, todas as possíveis reações das pessoas e grupos que, hoje, estão engajados, de uma forma ou de outra, no segmento petróleo.

Extrapolando, o autor faz também algumas considerações sobre o papel do Estado, não apenas em relação à Petrobrás, mas a essa Empresa maior chamada Brasil.

É a hora de todos os brasileiros repensarem o futuro do seu país.


A. Tito Filho, 08/04/1992, Jornal O Dia

segunda-feira, 5 de março de 2012

GAIOLAS

Este jornal está circulando neste dia 27 de maio de 1988 e até ontem não havia sobrado tempo para uma visita minha à nova coqueluche teresinense, o vapor construído em Parnaíba, batizado Comandante Fausto Silva, agora na capital piauiense, na distância de cento e vinte e nove anos do primeiro GAIOLA, o vapor URUÇUÍ, que se fabricou no Rio de Janeiro.

Esses vaporzinhos antigos eram de excelente viajar. Num deles, em 1942, embarquei em Juazeiro da Bahia, para subir o São Francisco até Pirapora, em minas, e daí alcançar o Rio de Janeiro, por terra. Viagem gostosa. Rapazola, deliciei-me com muita cabloca de beira d'água, nas cidadezinhas da época. Estive na gruta de Bom Jesus da Lapa, espaçosa e clara, na terra baiana. Muita pobreza. Mendigos às pencas, feridentos, doentes, maltrapilhos.

Gostei da cidade de Barra do Rio Grande, margem esquerda da grande corrente fluvial, onde foi aldeia de índios e fez parte do célebre Sertão de Rodelas - que pertenceu à Bahia, passou a Pernambuco, a Minas e voltou ao domínio baiano.

Estive doze dias subindo o rio. Manhãs e tarde monótonas. Noites agradabilíssimas. Dormida ao ar livre, na rede do cheiro da gente. Refeições de bom peixe. O comandante apreciava a boa pinga.

Fiz outra viagem nos GAIOLAS, saindo do Rio de Janeiro em 26-12-1946. Percorremos o São Francisco de Pirapora e a Remanso e entramos no Piauí de caminhão, por São Raimundo Nonato. Alegres companheiros no percurso: Tibério Nunes, Fenelon Silva, Mariano Mendes, Álvaro Ferreira Filho. Atingimos Floriano no dia 18 de janeiro de 1947. Nessa antiga Colônia de são Pedro de Alcântara tomamos passagem noutro GAIOLA, rumo de Teresina. Embarque pelas 11 da manhã e chegada ao ponto final às 7 da manhã de 19, um domingo, quando o eleitorado já buscava os locais competentes para eleger o primeiro governador do Piauí depois das trevas da ditadura de Getúlio Vargas, o médico José da Rocha Furtado, artista do bisturi.

Os naviozinhos que o povo chamava VAPOR desapareceram da paisagem do Rio Parnaíba, faz uns trintas anos. Os do rio São Francisco estão transformados em PALÁCIOS de turismo, com orquestras, AMERICAN BAR, mulheres de aluguel, para milionários em férias, PLEIBÓIS de pais latifundiários, artistas de roquenrol e outras maluquices. Contam que nestes passeios, subindo e descendo o rio, gasta-se muito dinheiro mas goza-se um bocado a vida.

Jorge Amado, num dos seus melhores livros, narra viagem nesses barcos ao tempo do transporte a serviço das populações ribeirinhas. Comovente drama de dezenas de pobres e humildes na segunda classe, amontoados, em severa promiscuidade, e as delícias da primeira classe, no segundo andar do vaporzinho. Uma reportagem forte, vida real, da forma que contou o romancista baiano.

Ainda não sei se o Piauí voltará ao transporte pelo seu Rio Parnaíba, quase sem condições de navegabilidade. Será possível?


A. Tito Filho, 06/02/1992, Jornal O Dia