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segunda-feira, 2 de abril de 2012

JÂNIO QUADROS

Morreu Jânio da Silva Quadros, nascido nas bandas do antigo Mato Grosso, no ano de 1917. Ao abotoar o paletó pela derradeira vez, havia inteirado 75 anos.

Desde cedo, fixou-se em São Paulo. Acatado professor de Português e História nos colégios secundários. Ganhou a estima da estudantada: cumpria o dever e sabia ensinar. Por influência dos meios estudantis, ingressou na política, com a pretensão de eleger-se vereador. Pobre, conquistou simpatias com a sinceridade das suas falas aos leitores.

Era 1947. Somente em alguns estados havia coincidência de eleições de governadores, senadores, deputados e cargos eletivos municipais. As presidenciais eram de cinco em cinco anos, coincidentes com alguns governadores, como a da Parnaíba, por exemplo, a quem se conferiu um qüinqüênio de mandato.

Em são Paulo eram poucos as coincidências dos diversos pleitos. Jânio, na disputa da vereança, logrou segunda ou terceira suplência num partido sério, mas pequeno. O presidente Dutra, porém, declarou guerra aos comunistas e, com a conivência da Justiça e do Congresso, cassou o registro do Partido Comunista e o mandato de quantos comunas estivessem no seu próprio grêmio partidário ou metidos noutras agremiações. Sobraram vagas e deu-se o aproveitamento de Jânio Quadros, para a mais fulminante carreira política feita no Brasil.

Mal chegou ao final do mandato de vereador, Jânio era conduzido à Assembléia Legislativa. Não terminou os quatro anos da legislatura, consagra-se prefeito de são Paulo, derrotando oito partidos fortes e dezenas de políticos célebres e endinheirados. Foi a luta do TOSTÃO CONTRA O MILHÃO. Nascia o FENÔMENO. Antes de findar o período administrativo na Prefeitura, mais uma vez vitória retumbante levava-o ao governo do estado, em que passou os quatro anos completos do mandato, embora alguns meses antes do fim já estivesse eleito deputado federal pelo Paraná.

Nas eleições de 1960, mais de seis milhões de brasileiros lhe conferiram a Presidência da República. Assumiu-a em 31 de janeiro de 1961 e a 25 de agosto do mesmo ano renunciou ao poder, na tentativa, segundo penso, de um golpe, para fechar o Congresso e criar regime ditatorial.

Tentou voltar ao cenário político. Derrotado na candidatura ao governo de São Paulo. Direitos políticos suspensos por dez anos. Em 1985, ganhou a eleição de prefeito de São Paulo, assumindo a primeiro de janeiro de 1986. Administração modelar. Sofre permanente campanha de descrédito dos poderosos órgãos de comunicação da capital paulista. Leiam, porém editorial do "Jornal do Brasil", do Rio, edição de 20-04-88, página 10: "Eleito na última safra de prefeitos, o Sr. Jânio Quadros trouxe para o cargo uma convicção que logo pôs em prática: a de que a administração pública não é feita para dar lucro nem prejuízo. A folha de pessoal, para não se tornar uma aberração, deve manter-se em torno de 50% por cento da receita, o que permite a preservação da capacidade investimentos. São Paulo, até recentemente, parecia entregue à sina dos loteamentos clandestinos: ocupavam-se terras e prédios a torto e a direito, em nome do SOCIAL. O Sr. Jânio Quadros passou a desocupar em nome do interesse público, o que também é uma formar de agir num contexto SOCIAL. Com isto se tem uma cidade moderna administrada em figurino moderno. O tamanho da proeza, tratando-se do Brasil e de uma megalópole granjeou para o prefeito de são Paulo o reconhecimento público. A popularidade bafejou o administrador que, ao populismo barato, opôs as idéias de eficiência e respeito às autoridades".


A. Tito Filho, 12/03/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de março de 2012

RETRATO

Se me lembro e quanto do velho processo de culpar os outros pelo que praticamos erradamente. Assim se dava na escola. As professorinhas de curso primário não conseguiam que os meninos aprendessem. Nem a palmatória das rabugentas mestras de antanho, feias, solteironas, que mantinham escolas particulares de ensinança do ABC e da tabuada, palmatória ameaçadora, só a muito custo conseguem meter na cachola da petizada o necessário à respectiva desasnação. A culpa, diziam eles, pertencia à família, que não educava os filhos para o estudo, mas incentivavam a deseducação e estimulavam a vadiação. Recebiam-se bolos a valer, para a aprendizagem da operação de dividir números inteiros.

O sujeito saia do primário e ingressava no ginásio, depois do exame de admissão rigoroso. Professores carrancudos, exigentes, não suportavam a burrice dos discípulos. E haja reprovações. Oito ou mais disciplinas se destinavam aos estudantes já taludos. Depois, o ensino superior com dificílimas provas no chamado vestibular.

Os professores do ensino ginasial culpavam o ensino primário pelas dificuldades em que se viam os estudantes. Péssima aprendizagem. Nas faculdades superiores, tropeços constantes, e logo os mestres atiravam a culpa no ensino antecedente. E se o ensino superior diplomava doutores ricos de burrice, a culpa tinha como responsável o curso de humanidades, nos velhos tempos chamados ginasial ou secundário.

Quando se buscava explicação na família, esta se defendia, e bem, culpando o governo, sempre de maus exemplos, e a sociedade dos homens, cujos modos de vida mereciam veementes censuras. Só aprendia o sujeito que quisesse.

*   *   *

A promessa eleitoral de Collor, em que acreditaram 35 milhões de brasileiros, apoiou-se na morte da inflação. Apregoava o candidato que vinha um só tiro na arma poderosa, com o qual mataria, sem dó nem piedade, o bicho-papão da economia dos patrícios. A ministra Zélia, uma paixão, seqüestrou poupanças e aplicações dos dinheiros de pobres e ricos, para o objetivo de enterrar o regime inflacionário.

No dia da posse presidencial, a carne nessa tão maltratada Teresina custava duzentos cruzeiros o quilo. Carne de primeira, sem pelancas, sem osso. Hoje se compra o mesmo produto, carregado de sujeira, por quatro mil e quinhentos cruzeiros. Que os matemáticos calculem a percentagem do aumento.

O tiro saiu pela culatra. A inflação continua a sugar os raquíticos vencimentos de operários e dos funcionários públicos. Mas logo se encontrou o grande responsável: a exploração do comércio. A ministra, uma paixão, encontrou, como Sarney na época do cruzado a saída fácil do tabelamento. As prateleiras dos comerciantes esvaziaram-se, liberaram-se os preços, e o presidente fixou a responsabilidade dos empresários, e estes se explicaram com a alegação dos aumentos constantes do valor da matéria-prima. E assim por diante, distante e onerosos os processos de fabricar produtos. Alegou-se ainda os altos impostos oficiais e os escorchantes juros bancários.

Mas qual o grande aumentador de preços neste país? Simples, o próprio governo, nas taxas constantes de gasolina, energia, telefone, correio, com aumentos mensais. A verdade verdadeira está em que o Brasil representa a tragédia de um povo sem alimentação, sem saúde, sem escolas, sem transporte, sem que possa ao menos sobreviver, sustentado de salários vergonhosos.

Deus se apiede dos milhões miseráveis do Brasil.


A. Tito Filho, 16/02/1992, Jornal O Dia

quarta-feira, 14 de março de 2012

MÉRITO

Seria exaustivo relacionar todos os episódios de lutas que se têm verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuram revelar e interpretar - e muitos desses episódios ainda se encontram em processo polêmico. A grande Revolução industrial do princípio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. De feito, a máquina tornou-se responsável pelo poder industrial, que desorganizou a família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto - base da educação - e derribou estruturas seculares.

O Brasil não poderia fugira da sua influência. a abolição da escravatura, e conseqüente adoção do regime republicano, promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, se se analisam superficialmente as causas. O período republicano bem atesta a afirmativa. É que o ciclo revolucionário brasileiro ainda não se completou, e só se completará quando os desequilíbrios sociais, a injustiça social, a fome sejam vencidos, com o estabelecimento de processos humanos de vida - a abdicação do inumano pela valorização do homem.

Quantas revoluções brasileiras de 1922 a esta parte? Talvez elas tenham origem próxima na pregação civilista de Rui, com que contagiou os moços, civis e fardados. Do Rui-profeta, que se antecipou a Getúlio Vargas na luta contra a exploração do homem pelo homem.

Ainda se registrarão as causas profundas dos movimentos de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945 e 1964. Não foram movimentos de homens em armas, mas movimentos de inspirados por cérebros interpretadores da inquietação e da angústia do brasileiro, inconsciente ainda dos direitos e deveres que lhe outorgaram constituições políticas feitas em gabinetes, bem distantes da realidade nacional.

Nesta apreciação não sou pela idéia do analisar tais movimentos, nas suas causas remotas e próximas. Cabe-me ressaltar o registro da testemunha e do pesquisador dos fatos que integram as manifestações revolucionárias de 1922 a 1931 no Piauí feito pelo General Moysés Castelo Branco Filho, uma das figuras ilustres da terra piauiense, pela dignidade moral, pelo civismo, pela inteligência cultivada, pelo amor ao estudo - professor como raros, matemático acatado, apaixonado da história e dos seus processos de investigação e análise - esta obra bem comprova a operosidade intelectual e os conhecimentos seguros e sérios de que se compõe a personalidade do autor - para lição de história com a verdade que soube testemunhar e documentar e a pesquisa que a busca da verdade lhe atribuiu para comprová-la, em toda a plenitude.


A. Tito Filho, 29/05/1992, Jornal O Dia

sábado, 10 de março de 2012

INTERPRETAÇÃO

A partir de 1930, o Piauí, com os demais estados federativos, ingressou, até 1947, na era dos interventores federais, de modo geral escolhidos nas fileiras das Forças Armadas. Até músicas carnavalescas cantaram esses representantes do governo central, cujo chefe provisório se chamou Getúlio Vargas. Houve, entre as interventorias, ligeiro intervalo, de 1935 a 1937, quando se implantou a violenta ditadura getuliana.

Ainda não se escreveu a história do Piauí no período referido, senão em artigos jornalísticos ou de revistas e ainda em cronologias registradoras de fatos políticos, administrativos e sociais, se analise de cousas e conseqüências, salvo raríssimas exceções.

Quantos movimentos rebeldes depois da fase imperial? Vários, desde os tempos de Deodoro da Fonseca até o regime militar de 1964, de longa duração.

Seria exaustivo relacionar as lutas que se tem verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuraram pesquisar e interpretar. A grande Revolução Industrial do principio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. A máquina tornou-se responsável pela desorganização da família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto e derribou estruturas seculares, transformações que chegaram ao Brasil lentamente, em virtude da economia nacional como base exclusiva na agropecuária.

A abolição da escravatura promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, substituídos por outros de interesses idênticos, como o domínio das elites políticas e de clãs familiares. Não houve revoluções no Brasil, uma vez que persistem os desequilíbrios sociais, a fome, a miséria. Quantas falsas revoluções nacionais. Apenas rebeldias militares, como as de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945, 1964, sem que se procurasse anular a angustia do homem, ainda agora inconsciente de deveres e direitos.

Ainda não se escreveu a história do coronelismo e das oligarquias no Piauí, a história dos donos da gadaria e dos latifundiários da monocultura, dos chefes políticos fazedores de governos e de representações nas casas legislativas, proprietários dos cargos públicos e das benesses oficiais.

Na presente obra oportuna e valiosa, fixam-se de memória fatos e se procura analisá-los com justeza e seriedade, sobremaneira nos aspectos políticos e sociológicos. A interpretação torna-se fiel ao mesmo tempo sério documento histórico de lutas partidárias para manutenção do poder pessoal e oligárquico.

Professor, educador e político, estudioso de assuntos sociais, Raimundo Wall Ferraz analisa governos a partir de 1931, interventoria Landri Sales, que procurou destronar as oligarquias no Estado - e conseguiu. Em seguida, lembra o restabelecimento do poder oligárquico promovido por Leônidas Melo, em cuja administração se praticavam violências contra magistrados e se promoveram incêndios criminosos. Recorda os spolls system do governo Rocha Furtado, de perseguição incontroláveis contra adversários políticos, desorganizando a administração pública - e novamente as oligarquias vitoriosas aos governos Pedro Freitas Gayoso e Almendra. E prossegue com Chagas Rodrigues, progressista e lutador. Faz os retratos políticos de Petrônio Portela, Helvídio Nunes, Clímaco d'Almeida, Alberto Silva, Dirceu Arcoverde e anota-lhes as vitórias administrativas.

Coube-me a tarefa agradável de escrever estas linhas sobre o livro de Wall Ferraz, ex-vereador e ex-vice prefeito de Teresina, e prefeito da capital piauiense duas vezes. Político de irrecusável prestígio, não me compete realçar-lhe ou negar-lhe qualidades administrativas. Seria injusto, porém, esconder a notável reforma educacional do primeiro governo Alberto Silva, trabalho do autor como secretário da Educação, mas cujo nome ele não cita por imposição de modéstia e virtude pessoal.

Inteligência cultivada, Raimundo Wall Ferraz não demonstra nas páginas do livro odiosidades ou malquerenças. Leciona trechos da história do Piauí com a verdade. Testemunhou fatos e os interpretou em toda a plenitude. Conciso e preciso. Despreza pormenores enjoativos. Estilo simples. Linguagem asseada. Livro honesto, com a fixação dos caracteres humanos que participaram de longo período das lutas piauienses - cenário de paixões, de personalismos, de prestígio de clãs, com honrosas e raras exceções.


A. Tito Filho, 02/05/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 8 de março de 2012

FRANCISCO PORTELA

Oeiras, antiga capital da Capitania e da Província do Piauí, tem sido berço de homens célebres, cientistas, jornalistas, juristas, parlamentares, historiadores, romancistas, poetas, estadistas, ontem como hoje. Continua a sede cívica do Piauí, rica de tradições, do passado que orgulha e enobrece.

Em Oeiras, em 1833, nasceu Francisco Portela. Médico pela Faculdade do Rio de Janeiro, estabeleceu-se na cidade fluminense de Campos, onde clinicou muitos anos. Fundador e presidente do Instituto Médico. Primeiro governador do Estado do Rio de Janeiro nomeado por Deodoro da Fonseca. Acusado de conspiração em 1892, foi preso com a queda de Deodoro e a subida de Floriano Peixoto ao poder.

Portela redigiu o MONITOR CAMPISTA, preocupando-se com questões políticas, sociais e econômicas. Escreveu compêndio de Filosofia. Publicou trabalhos sobre contágio nas moléstias. Deputado federal em 1909, reeleito até 1912, quando renunciou e assumiu cadeira no Senado, vaga com a morte de Quintino Bocaiúva.

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Foram agitados os primeiros anos republicanos no Estado do Rio. A grande luta fixou-se com a denominação de REVOLUÇÃO PORTELA. Elementos exaltados pegaram em armas, concentrados em Parnaíba do Sul, onde levantaram quartel general com ramificações em vários municípios e forçaram a queda de governador Portela, o 88º chefe do Executivo fluminense.

Francisco Portela era filho de João Antônio Vaz Portela e Luíza Pereira de Carvalho. Foi vereador da Câmara de Campos e deputado da Assembléia Provincial fluminense.

A Assembléia Constituinte do Estado do Rio, a 11 de maio de 1891, elegeu-o como primeiro governador constitucional, renunciando ao mandato em virtude das lutas republicanas em que se envolveram Deodoro e Floriano.


A. Tito Filho, 09/05/1992, Jornal O Dia