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sexta-feira, 30 de março de 2012

POMBAIS

José Eduardo Pereira, inteligente e culto, jornalista arguto e atualizado, tratou, nesta página, faz dois ou três dias, dos conjuntos habitacionais de Teresina, e trouxe à baila angustiantes problemas relacionados com a cidade. Um sobre quem administra a capital do Piauí, o outro a respeito das casinholas que uma multimilionária companhia de habitação constrói para auferir lucros inacreditáveis à custa da perversidade com os pobres. Parece que se trata de órgão de banqueiros nacionais ou financiadoras internacionais. Não sei.

No começo do século um bom governador fez o abastecimento dágua canalizada de Teresina, e outro, Miguel Rosa, inaugurou a luz elétrica, conquistas que ainda hoje permanecem com o Estado. A raquítica rede de esgotos de algumas ruas centrais foi obra estadual.

No caso da construção de obras, os governadores bem que poderiam efetuar as derribadas dos prédios antigos, mas submeter as novas construções a rigorosa obediência de normas urbanísticas, e assim também relativamente às modificações nas cousas públicas.

Veio abaixo o prédio em que se abrigam várias repartições e no lugar se quis levantar o centro administrativo do Piauí.  O esqueleto monumental, por falta de dinheiro, foi vendido, e no lugar se encontra o espigão do Ministério da Fazenda, quebrando-se o alinhamento da rua Rui Barbosa. Liquidou-se a praça Pedro II, tão bonita, de muitas recordações espirituais, e no lugar se estabeleceu grande concentração de prostitutas, alcoólatras, veados, viciados em droga e pivetes. A quem cabe a nova feição? Ao governo estadual. Outro governador pôs por terra a velha penitenciária e construiu o vaidoso Verdão, depois que se inutilizou o trânsito em ruas da cidade. Antes, houve o governante que mandou construir um prédio no meio da praça Demóstenes Avelino, e o espalhafato horroroso continua lá, agora de propriedade particular, e nele, no prédio, se vendem carnes, bofes, vísceras, cabeças de porco, peixes e outros produtos, espalhando-se fedentina por todos os arredores.

São inúmeros os exemplos nocivos. Ninguém sabe quem administra a cidade. Antigamente essas práticas aberrantes constituíram crime contra o patrimônio popular.

Observe-se o caso desses conjuntos habitacionais em que residem os humildes párias de Teresina e os milhares que, vindos do interior, foge ao tristissimo quadro da zona rural e das comunidadezinhas mortas, cada vez mais pobres e sem condições de vida. Nessas centenas de casinholas, todas do mesmo jeito, se alojam famílias de cinco, seis ou mais pessoas. Com pouco tempo esses POMBAIS passam a favelas e se enriquecem de biroscas, prostibulos, freges, botecos, bocas-de-fumo e crimes. Meninas que ainda não menstruam já constituem raparigagem. Os últimos tipos residenciais receberam o nome de EMBRIÃO, constituídos de saleta, quarto e banheiro. Só. Nessas residências os casais só se relacionam sexualmente depois da última novela, quando a filharada consegue dormir. Se um menino ou menina acorda arregala os olhos na presença do espetáculo dos pais pelados.

Esses conjuntos habitacionais são feios, casas emendadas uma nas outras. Alguns felizardos ganham fortuna na venda de terrenos para que nestes se levantem esses prediozitos que ofendem a dignidade de todos os enteados de Deus, filhos da injustiça dos homens maus, os banqueiros, e dos políticos de boa fé, que apenas agravam problemas comunitários.


A. Tito Filho, 11/02/1992, Jornal O Dia

sábado, 3 de março de 2012

QUASE NO FIM

O carnaval valia uma festa de graça, de bom humor e de contagiante alegria. Em tempos mais remotos, quando a folia se iniciava, depois que proibiu a estúpida brincadeira do entrudo, ainda no século passado, o carnaval se fazia nos bailes dos clubes sociais e nas ruas - e nessa época mais antiga a máscara era a principal fantasia no reino do Momo. E a evolução para melhor se processou ano por ano. Apareceram os ranchos, os cordões, os blocos, cheios de entusiasmo, que percorreriam as ruas e prestigiavam as danças nos salões. Uma beleza, momentos de efusivas manifestações de pândega. Que dizer das saudosas batalhas de confete e lança perfume nas praças animadas de inesquecíveis sambas e marchas executadas pelas bandas militares? O automóvel e o caminhão fizeram o corso gostoso. Percorriam-se ruas previamente escolhidas e veículos, marcha vagarosa, lotados de moças e rapazes, se enfeitavam e de um para outro jogava-se colorida serpentina. Muita cantiga bonita e movimento de corpo. Pelas vias públicas desfilavam homens fantasiados. Muito bom humor em tudo. Raras as brigas se verificavam. Nos grandes centros registrava-se às vezes um crime de morte. Governos federais, estaduais e municipais nada gastavam nessa ruidosa brincadeira nacional.

A festa de Momo transformou-se numa desasseada manifestação de complexos, explosão de baixos sentimentos recalcados. O que parece alegria, representa fúria, violência. Uma válvula de escape para os protestos de angústia e para que os doentes espirituais fujam da sua realidade.

O carnaval tornou-se monótono. Vive dos órgãos oficiais que ajudam a indústria da festa. Os clubes conseguem não pagar impostos. Ao cabo de contas, as escolas de samba. Todos os anos a mesma cousa. Remelexo, bumbuns de fora, o boi da cara preta também, seios amostrados. Homossexuais, hetero, giletes e outros tipos da selva pornográfica desfilam à custa de verbas do erário, para que os que moram em casebres de taipe, em favelas, ou debaixo das pontes, em quartos de papelão, felizes, pensem que participam da festa do povo.


A. Tito Filho, 07/03/1992, Jornal O Dia