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sábado, 10 de março de 2012

PRECONCEITO

Vigora no Brasil a generalizada crença de que faliu o ensino público. Examinamos o assunto nos seus fundamentos. Os incautos acreditam que entre os brasileiros não existe preconceito de cor, mas esse preconceito sempre se evidenciou, embora não assuma o aspecto da segregação como nos Estados Unidos. Entre nós a ojeriza do branco ao negro se verifica de modo velado, em muitos grupos sociais e na burguesia endinheirada. Recorde-se que a abolição no Brasil não acarretou os males que a mesma circunstância impôs aos norte-americanos, pois lá o sul, milionário de latifúndios e de agricultura, passou a terra arrasada, extinguindo-se fortunas com a guerra civil. No país de Lincoln o processo econômico fez que o ódio fosse intenso ao escravo sulino, que apenas recebia casa e comida por conta do trabalho, enquanto o norte convocava o negro para a agricultura e a indústria, concedendo-lhe liberdade e salário. Demais de tudo, por causa da guerra, o sul empobreceu e o fausto e o luxo desapareceram das suas mansões suntuosas. Depois destas considerações, pergunta-se se o ensino público faliu neste Brasil doente e sem cura. Considere-se agora o acentuadíssimo preconceito social brasileiro. Nesta nação de golpes financeiros e militares, de eleições e peso de ouro, de banqueiros insaciáveis, de bodas, debutação, casamentos e batizados milionários nas camadas da burguesia ociosa, moça do colunismo social, seja na donzelice ou na virgindade, não se casa com moço pobre ou de cor. Sonha com o grau do doutor de família fina, descendente de barões e baronesas, e que passará a viver nas costas do sogro, até que taponas, depois da farra madrugadina, separe o casalzinho sem amor. Menina de alta-roda jamais se casaria com um balconista, e só aceitaria o preto que fosse baludo, cheio dos cobres, ou importante na árvore genealógica ou na política. No Brasil prevalece o preconceito social e todo o seu cortejo fatuidades. Existem duas camadas distintas: a dos miseráveis e a endinheirada. Assim, com a explosão demográfica dos anos 40, os proletários buscaram os estabelecimentos do governo, e neles, sob a bandeira da democratização do ensino, se abrigaram em massa, na conformidade do crescimento populacional resultante do parimento de gente faminta. Surgiram por todos os lugares os cursos e colégios particulares, uma indústria de lucros fabulosos, em que podem pagar mensalidades opulentas. Ao ensino público se destinam os filhos da miséria ou dos miseráveis assalariados de funções públicas e particulares - os alunos que não se alimentam, as caboclinhas de cabelo pixaim, a gente miúda do outro Brasil, do Brasil doente, dividido entre pobres e ricos. Na escola pública a burguesia inexiste. Rico de dinheiro e de ignorância não se mistura com pobre da periferia ou da favela.


A. Tito Filho, 08/02/1992, Jornal O Dia

terça-feira, 6 de março de 2012

ESCOLAS

Quando me entendi em Teresina as mães viviam em casa, amamentando os pequerruchos, ou no preparo de mamadeiras ou dando fraldas, bem assim educando os meninos até que, aos sete anos, ingressavam na escola primária, ou no grupo escolar. A garotada começava o estudo de manhãzinha e nele permanecia até as onze horas, no bom recitativo da tabuada e na soletração de palavras. Os estabelecimentos pertenciam ao governo. Exigência apenas da fardinha caprichada, sapato ou botina e meia. Certamente que por baixo havia a calcinha das meninas, que os machos andavam descuecados. Havia escolas particulares, de professores e professoras, de irrisório pagamento.

Ainda no começo da década de 30, segundo me contam, existiam na capital piauiense dois educandários oficiais de ensino secundário, o Liceu e a Escola Normal. Ensino integralmente gratuito, a rapaziada só gastava a farda e o calçado ganho dos pais. Um prestígio de dar inveja a situação de liceísta e normalista. A merenda, que hoje pernosticamente se chama lanche, se fazia numa espécie de quiosque das imediações, geralmente constituída de garapa de cana e um pãozinho redondo, de nome caramujo.

Dois estabelecimentos particulares havia, cada qual de muito conceito, ambos com internato e externato: o Colégio Diocesano de homens e o Colégio das Irmãs de mulheres, que ainda desafiam os tempos. Os internos tinham saída aos domingos - e a gente via pelas ruas fardados donzelos e donzelas, pálidos, como quem viu alma do outro mundo, depois de seis dias prisioneiros.

Professores famosos, os do ensino primário e os do secundário. Capazes, sérios, respeitados. Mestres que fizeram história e educação.

Quase os estudantes não gastavam com livros, se não os que queriam nas raras livrarias da cidade. As aulas eram suficientes para o aprendizado, o que não acontece hoje, com aulas mastigadas, incompreensíveis pelos pobres e abandonados pupilos. Tanto faz que entendam ou não o ensinamento, nada se repete.

Hoje as mães vivem nas ruas. Instituíram-se creches, onde os meninos aprendem a engatinhar. Em seguida, escola maternal. Depois, jardim, alfabetização - e a seguir o primeiro e o segundo graus, tudo em estabelecimento de negócios particulares. As escolas do governo, ditas hoje do primeiro e segundo grau, oferecem péssimas condições de ensino, razão pela qual os pais se sacrificam nas escolas particulares, de elevado preço e exigências absurdas de vinte cadernos, coleções de madeira, de cera, hidrocor, figurinhas de jogador de futebol, resmas de chamex, cinco tesouras, um binóculo, vinte rolos de papel higiênico, trinta pacotes de absorventes para as mulheres, vinte folhas de estêncil, uma máquina de escrever, um computador dos Estados Unidos e contribuições para as festocas. Os jovens, machos e fêmeas, carregam tanto peso que ficam tortos de um dos lados - fora lencinho de papel, toalha, escova de dente, pasta, sabonete, desodorante, roupa de banho e outros ingredientes que me fogem da memória. Tudo moderno e amplamente atual.


A. Tito Filho, 02/04/1992, Jornal O Dia

sexta-feira, 2 de março de 2012

DENOMINAÇÕES

Várias vezes me tem perguntado, pessoas cultas e gente do povo, de onde provém a palavra veado, no sentido homossexual.

Essas designações de cousas relacionadas com o sexo são quase sempre da inteligência das comunidades. Parece que existe vocabulário especificado para a expressão da vida e das necessidades sexuais. O acontecimento normalíssimo das regras tomou nomes interessantes como paquete, bandeira vermelha, incômodo, chico. No meu tempo de menino era bode. Mocinha pálida, colega de estudos, estava de bode. O órgão genital masculino se chama por vários modos: pinto, pau, cacete, manzape, careca. Quando ginasiano, Martins Napoleão mandava que se fizesse a leitura de "AS Pombas", de Raimundo Correia. Era de ver a risada geral da turma de moças e rapazes.

O homossexual masculino, por esse Brasil imenso, recebe diversificada denominação: afeminado, maricas, mariquinhas, bicha, bicha-louca, boneca, rodinha. Adolescente, eu sempre ouvia em Teresina chamar-se o pederasta passivo de fresco.

Veado foi tirado do latim venatu, o mesmo que animal de caça, donde se fez venatório, relativo a caça. Arte venatória traduz a arte de saber caçar. Essa proveniência não explica nem justifica o veado que se aplica aos homossexuais.

Consultei mestres e dicionários. Topei num livro, titulado "A Evolução das Palavras", de A. Tenório de Albuquerque, com este ensinamento: "Ouvimos diversas explicações para essa surpreendente modificação de sentido, para essa verdadeira perversão de sentido, sem que, entretanto, nenhuma satisfizesse.

Temos a impressão de que se trata de uma simples tradução do alemão HIRSCH. O médico judeu Dr. Magnus Hirschfeld, o fundador da ciência sexual, foi um defensor denodado do homossexualismo, do chamado terceiro sexo".

Albuquerque escreve que houve um período, na Alemanha, em que esteve com grande evidência o nome do Dr. Hirsch. É possível que esse nome servisse para indicar os homossexuais. Talvez algum alemão houvesse empregado no Brasil o vocábulo HIRSCH com a significação plebéia e alguém o traduzisse, vulgarizando-se o vocábulo.

Simples conjectura, já se vê. O próprio estudioso do assunto reconheceu a circunstância.


A. Tito Filho, 31/04/1992, Jornal O Dia

quinta-feira, 1 de março de 2012

PORTUGUÊS

Garotote ainda, eu gostava de ler romances. Havia a loja do Juca Feitosa, em Teresina, e ali a gente adquiria Júlio Verne, os livros de aventuras da coleção TERRA MAR E AR, sempre o herói contra os bandidos. Comprei e li as obras completas de José de Alencar e algumas dos portugueses Camilo Castelo Branco e Pinheiro Chagas. Gostei do mineiro Bernardo Guimarães e do autor de A MORENINHA, Joaquim Manoel de Macedo. Nesse tempo se vendiam os livros de uma coleção de reduzido tamanho, autoria de franceses, ingleses e russos, em traduções excelentes. Lembro-me da leitura que fiz de obras de Zola Ohnet, Dostoiewski.

Gostava de Emílio Salgari e do Tarzã, de Burroughs.

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Meu pai possuía boa biblioteca, em que se destacavam obras jurídicas. Mas havia também obras de literatura e uma boa quantidade de livros de português, especialmente gramáticas e algumas de dúvidas de linguagem e ensinamentos de correta escrita das palavras, como as lições do lusitano Cândido Figueiredo. Lia constantemente as vaidosas explicações desse sujeito de grande aceitação na sua pátria de origem. E tomei gosto pelo assunto. Na antiga biblioteca pública Casa de Anísio Brito adotei como leitura predileta obras de Xavier Fernandes e outros estudiosos de questões de linguagem. Professor de português, li Said Ali, Pedro Pinto, Silveira Bueno, Vitório Bergo, Napoleão Mendes de Almeida, Martinz de Aguiar, Tenório d'Albuquerque e quantos mais, meu Deus. Aprendi uma porção de lições úteis e também gravei na memória invencionices, e ordenamentos inconsistentes,

Neste coluna já me referi aos trabalhos, em três volumes, de Cineas Santos, bons de aprender, pois são simples e de clareza que ninguém esquece.

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Ganho agora presente valioso e de raro método, PORTUGUÊS COMPELTO, no seu primeiro volume, e do qual se esperam mais dois, com um total de três mil questões resolvidas.

Assina-o um mestre da língua portuguesa, que tive a honra de ter como aluno, nos tempos do curso ginasial e do cientifico. Estudioso, fez da língua pátria o seu instrumento de trabalho e de muito saber e muito escrever bem ultrapassou o velho e modesto professor. Refiro-me a William J. Silva, cujos serviços aos moços têm merecido aplausos da sociedade teresinense.

Neste PORTUGUÊS COMPLETO está a linguagem e nele se podem anotar a correção simples dos desfeitos comuns em que laboram moços e velhos, homens e mulheres na fala quotidiana e na comunicação escrita do pensamento.

Li o livro de fio a pavio. Corrigi alguns defeitos em que eu estava acostumado.

As lições de William J. Silva são acessíveis a todos, a principiantes e aos que labutam no uso correto da linguagem humana.


A. Tito Filho, 31/03/1992, Jornal O Dia